Empresas punidas por negligenciar compliance aprendem a valorizar gestão de risco

publicado 14/08/2017 17h28, última modificação 17/08/2017 09h07
São Paulo – Siemens e Embraer compartilham aprendizados depois de colaborar com a Justiça

A grande lição que a Siemens aprendeu com o escândalo bilionário de corrupção da qual foi acusada em 2006 foi o de dimensionar corretamente os riscos de negócio, de acordo com Reynaldo Goto, diretor de compliance da Siemens.

“Empresas que já passaram por algum processo de investigação têm percepção muito mais acentuada de risco”, disse, no 4º Fórum de Compliance da Amcham – São Paulo na segunda-feira (14/8). “Tínhamos uma estrutura semelhante a uma área de compliance antes da crise de 2006. A diferença foi que não levamos tão a sério os riscos a que estávamos expostos”, comenta.

Goto debateu o impacto das investigações de corrupção nas empresas, ao lado de Luciana Servija, diretora de compliance da Embraer, João Carlos Orzzi, vice-presidente de governança, risco e compliance da prestadora de serviços gerenciais Vexia, e Isabel Franco, sócia do Koury Lopes Advogados (KLA).

Em 2006, a Siemens foi acusada por autoridades alemãs e americanas de pagar 1,4 bilhão de dólares em propinas a vários países para conseguir contratos públicos no período de 2001 a 2006. Como consequência, a Siemens pagou 1,6 bilhão de dólares de multa na Alemanha e nos Estados Unidos, montante que ainda figura como um dos maiores acordos anticorrupção da história.

Uma série de ações foi tomada pela empresa após o escândalo. A Siemens afastou toda a alta diretoria, conduziu investigações externas independentes, colaborou ativamente com a Justiça e reformulou seu programa de compliance.

Riscos do negócio

Além dos riscos de negócio, os especialistas apontaram outros impactos decorrentes de investigações anticorrupção. Entre elas estão a gestão e monitoramento de risco e o envolvimento da liderança.

Os riscos do negócio acabam sendo mais bem descritos e mapeados, assim como as ações posteriores, reforça Goto. Para ele, uma empresa não deve achar que nunca sofrerá uma ação de busca e apreensão da polícia. “Se chegar nesse ponto, não tem alternativa senão colaborar com a Justiça. E se os executivos em que você confiava forem os mesmos que serão conduzidos para esclarecimentos?”, indaga.

Por sua vez, a Embraer está desenvolvendo indicadores de desempenho para monitorar a gestão de riscos pelos colaboradores. “Em questões de risco, temos indicadores específicos desenvolvidos com apoio das áreas de auditoria e compliance para a medição de riscos”, detalha Servija.

Envolvimento da liderança

Para Orzzi, da Vexia, o engajamento da liderança é mais importante do que a criação de leis anticorrupção. “Todos aqui devem cumprir a lei. Antes da lei anticorrupção (2013), já existia uma regra que fala que qualquer executivo responde pelos seus atos na administração, seja da empresa pública ou privada”, destaca.

Orzzi se refere à Lei das S.A. (6.404/76), que já previa a responsabilização civil dos executivos. A Vexia é uma empresa que presta serviços administrativos ao Grupo Camargo Correa, investigado pela Operação Lava Jato.

Quando a Embraer passou por escândalo de corrupção, a alta administração foi uma das primeiras instâncias a se envolver no cumprimento de regras, segundo Servija. “Ao longo da investigação, o engajamento de todo o conselho de administração ficou mais sério. Assim, foi possível criar embaixadores de compliance na empresa.”

Case Embraer

Em 2016, a Embraer assinou um acordo de 206 milhões de dólares com autoridades dos Estados Unidos e Brasil para encerrar a investigação de suborno envolvendo a empresa e alguns funcionários. A Embraer foi acusada de operações irregulares na Arábia Saudita, Índia, Moçambique e República Dominicana.

Como parte do acordo, a Embraer foi obrigada a contratar monitoramento externo e independente até 2019, como forma de assegurar o cumprimento dos termos judiciais. Para Franco, do KLA, o monitoramento externo é uma forma de melhorar as práticas de compliance.

Muitas vezes, eles circulam pela empresa sem crachá de identificação e questionam aleatoriamente se os colaboradores conhecem o código de conduta, ou se aplicam práticas de compliance. “Nessa hora, o comprometimento da alta gestão e também o treinamento fazem a diferença”, comenta.

 

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