Empresas só vão aproveitar frutos da inovação se tiverem dominado as etapas de qualificação de processos e logística

por andre_inohara — publicado 27/03/2012 16h06, última modificação 27/03/2012 16h06
São Paulo – Desenvolver processos inovadores que levam à diferenciação exige ambiente propício, diz professor da USP.
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A busca por novas tecnologias de produtos ou processos tem se tornado mais agressiva nas empresas, que batem na tecla da inovação como sendo a tendência do momento. No entanto, as companhias só poderão colher os benefícios dos diferenciais tecnológicos se já tiverem dominado os conceitos de qualidade total e logística.

“Mesmo sendo inovadora, é difícil para uma empresa ser competitiva se estiver com problemas graves de custos, qualidade e logística”, disse o engenheiro e professor Guilherme Ary Plonski, coordenador científico do Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da Universidade de São Paulo (USP).

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Plonski participou do Comitê de Inovação da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (27/03), e abordou sete aspectos ligados ao tema.

1. A inovação como fator de competitividade

Tanto a inovação como a qualidade são fatores de competitividade, segundo Plonski. “A inovação é o que faz a empresa receber encomendas, e a qualidade diz respeito à padronização”, observa. Mas somente o diferencial trazido pelo desenvolvimento de novos produtos não é garantia de perpetuidade.

O professor cita casos de empresas como a Metal Leve e a Freios Varga,  consideradas altamente inovadoras na década de 1990, mas que foram vendidas por problemas financeiros.

“O esforço de inovação não será suficiente se questões básicas de uma empresa não estiverem bem resolvidas”, comenta.

2. A importância crescente da inovação

A inovação vem sendo tratada como compromisso estratégico de forma recente nas empresas, pois antes se restringia aos departamentos de produção. “No começo, os defensores do processo eram um grupo que tentava influenciar a empresa. Hoje, ela subiu aos conselhos de administração e cada vez mais companhias colocam a inovação como lema.”

3. A ampliação do conceito de inovação, ultrapassando o campo tecnológico

Como consequência, o conceito de inovação extrapolou o limite da tecnologia, de onde nasceu, e dá nome a todo processo de mudanças. Hoje se ouve falar em inovação de marketing, de modelos de negócios e administração pública, de acordo com o professor. Como exemplo, ele cita a existência de uma política de gestão e inovação no Estado de São Paulo, estabelecida em 2009.

Sua importância aumentou a ponto de ser discutida em comitês de associações empresariais como a Amcham, acrescenta Plonski. “Parte dos esforços que estão sendo feitos nessas câmaras é o de ajudar a discutir adequadamente esse assunto nos conselhos das empresas.”

4. A transformação da inovação em mercado

Outro efeito decorrente da popularização dos conceitos de inovação é o surgimento de um mercado de serviços e produtos. Livros temáticos, consultorias, cursos e palestras são alguns dos serviços oferecidos. “Com o crescimento do escopo conceitual e a existência de um mercado, a inovação se torna um negócio atrativo”, destaca o professor.

5. A necessidade de certificar e regular os processos inovadores

A disseminação de práticas inovadoras cria a necessidade de certificação e regulação, continua o professor. “Há um grupo dentro da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) para discutir a criação de normas de inovação. Em breve, haverá uma certificação específica”, ressalta Plonski.

O ambiente regulatório também deve acompanhar o crescimento da inovação. Plonski acredita que a Lei de Inovação Tecnológica (10.973/04), ainda em tramitação no Congresso, seja o marco decisivo para a implantação de processos tecnológicos avançados. Como exemplo, ele cita a Lei de Defesa do Consumidor (8.078/90), que foi o marco determinante para que as empresas implantassem os conceitos de qualidade total.

6. A banalização da inovação

Plonski disse que um dos efeitos negativos do debate sobre a inovação é a sua excessiva popularização, o que tende a desvirtuar o conceito. “Há muitas pessoas atuando nessa área e falando disso há muito tempo. Isso é bom, mas a banalização é um risco que precisa ser administrado”, assinala o professor.

7. A necessidade de ambientes propícios para a inovação

O último tópico de discussão foi a necessidade de estimular a criação de ambientes propícios para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras. Como exemplo, Plonski cita a fundação da Incubadora Celta (1986), que presta suporte a empreendimentos tecnológicos, e do Parque Tecnológico Alfa (1993), em Florianópolis (SC).

O parque tem, atualmente, cerca de 100 empresas de tecnologia, que mudaram o perfil econômico da cidade. O PIB (Produto Interno Bruto) que as empresas de software geram é o dobro do turismo, comenta. “A experiência mostra que é necessário e possível criar ambientes especializados para fomentar a inovação.”

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