Especialistas avaliam primeiros 100 dias do governo Dilma Rousseff

por giovanna publicado 20/04/2011 10h37, última modificação 20/04/2011 10h37
André Inohara e Daniela Rocha. Colaboraram Anne Durey, Camila Cruz e Mariana Pires
São Paulo – Presidente tem perfil mais técnico, dá continuidade à política econômica anterior e aprofunda interação com maiores parceiros comerciais do País.
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Dilma Rousseff, primeira mulher eleita presidente da República no Brasil, completou 100 dias no cargo em 10/04. De acordo com especialistas ouvidos pela Amcham ao longo de abril, ela tem imprimido um estilo próprio de gestão, caracterizado por ênfase mais técnica em resultados do que o de seu antecessor, e o tom neste início de administração é de continuidade da política econômica e maior acompanhamento de metas.

O estrategista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani, que  falou sobre cenário econômico no novo governo em participação no comitê de estratégico de Finanças da Amcham-São Paulo em 13/01, voltou a ser consultado pela Amcham agora em abril. Ele destaca três pontos positivos nesses pouco mais de três meses: “o primeiro é a responsabilidade na gestão econômica; o segundo, a adoção de um viés bem pragmático na política externa; e o terceiro, o estilo mais discreto de gestão, que expõe menos a Presidência”.

Algumas vitórias políticas já foram colhidas devido a essa forma própria de Dilma trabalhar, enfatizou Herbert Steinberg, presidente da Mesa Corporate Governance e do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo, e também conselheiro da Amcham. “Dilma está atuando diretamente e de forma ágil com sua equipe, e tem gerindo tecnicamente diversos temas que poderiam causar descarrilhamento político, como o salário mínimo e o corte do orçamento”, analisou Steinberg, após a reunião do comitê em 06/04.

O sócio-diretor da Consultoria de Planejamento (Ceplan) e ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, Jorge Jatobá, também vê evoluções. “Há preocupação com a austeridade fiscal e com não ceder às pressões populistas, caso do aumento do salário mínimo, que não pode ir além do que o governo e o Tesouro Nacional suportam. Considero igualmente importante a ação afirmativa na política externa, que foi bastante diferente das que tínhamos visto nos últimos anos”, comentou o Joatobá, que é presidente do comitê estratégico de Economia e Finanças da Amcham-Recife e esteve em 11/04 em evento promovido pela regional para debater a relação Brasil-EUA.

Desafios

O governo Dilma Rousseff assumiu o Brasil em uma fase de ampliação de emprego e consumo, e com a classe C em ascensão. O País também vem se destacando pela estabilidade no cenário global, recebendo mais investimentos e conquistando maior espaço nos grandes fóruns mundiais de discussões econômicas. Mas nem tudo são flores. O Brasil, por outro lado, perdeu terreno no comércio internacional em relação a produtos manufaturados, e enfrenta problemas para reequilibrar aspectos macroeconômicos. Na perspectiva dos economistas ouvidos pela Amcham, a inflação é um dos maiores pontos de atenção e tende a se aproximar ou até superar o teto da meta de 6,5% até o fim do ano.

“Dilma herdou uma situação fiscal e monetária complicada e, portanto, tem de tomar medidas para controlar a inflação, reduzir gastos públicos e desacelerar um pouco o crescimento em 2011. Essas ações são importantes porque, se a presidente não agir agora, o custo de fazê-lo mais adiante será muito mais alto”, afirmou Jatobá.

No campo fiscal, Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, presente no comitê estratégico de Economia da Amcham-São Paulo em 08/04, avalia que o governo ainda está muito concentrado na esfera do discurso, com poucas ações efetivas. “Se houvesse uma ação fiscal mais forte, ajudaria bastante na questão do corte da inflação.” A economista reconhece, no entanto, que, “politicamente, seria complicado aumentar mais o corte de gastos.”

A equipe econômica do governo tem se esforçado para combater a inflação sem deixar que o real se valorize demais, avaliam os entrevistados. Conforme Ricardo Hingel, diretor do banco BTG Pactual e recém-empossado presidente do comitê de Finanças da Amcham-Porto Alegre, existe um conjunto de dificuldades que exigem o corte de gastos públicos em uma ponta e a elevação da taxa de juros na outra, além das medidas chamadas macroprudenciais, como o aumento do compulsório e a elevação do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no crédito. “Nenhuma dessas ações resolve a questão isoladamente, mas está se tentando colocar um conjunto de medidas em prática para segurar a inflação e trazê-la ao centro da meta (4,5%). Isso deve ser feito gradativamente, pois nenhuma medida tem efeito imediato”, enfatizou Hingel, que liderará as próximas reuniões do comitê na regional gaúcha.

Essa equação é de complexa solução e exige muitos estudos, reconhece Samuel Pessoa, sócio da Tendências Consultoria, que participou do comitê estratégico de Economia da Amcham-São Paulo em 08/04. Ele explica que, se o governo subir os juros para conter a alta da inflação, como consequência aumenta a atratividade ao capital estrangeiro no País e o real se fortalece. “O governo tenta limitar a entrada de recursos externos, mas isso é difícil porque o Brasil não é uma China, que não depende desse capital internacional porque tem poupança. O Brasil é pobre em capitais, e começar a escolher capital externo é uma luta inglória. O dinheiro não é carimbado, é difícil saber a finalidade, por isso há uma equipe de técnicos imaginando a maneira para descobrir o capital que não se quer que entre e tentando achar maneiras criativas de colocar recursos aqui”, comentou Pessoa. Ele enfatizou que o País deveria ter como meta a ampliação do nível de poupança interna, rumo a um maior equilíbrio macroeconômico.

Competitividade

O câmbio valorizado não é o único fator que afeta hoje a competitividade do Brasil. A gestão de Dilma terá que enfrentar uma série de pontos críticos para que o País tenha crescimento sustentável.

“Os gargalos de transportes e falta mão de obra qualificada são limitadores reais e, por isso, o governo terá que agir junto com a iniciativa privada para atacá-los; caso contrário, boa parte dos investimentos que está entrando não será executada. Hoje, o Brasil está no radar dos investidores e deve aproveitar a oportunidade”, disse Herbert Steinberg da Mesa Corporate Governance.

Roberto Padovani, do WestLB, manifesta preocupação com o ritmo dos projetos de infraestrutura.  “Existe atraso até pelo fato de o governo atual ser uma continuidade do anterior. O risco de passar vergonha na Copa de 2014 até existe, com chances altas de que as obras saiam a um custo maior.”

Thaís Zara, da Rosenberg & Associados, menciona a elevada carga tributária como fator impeditivo à competitividade. No entanto, uma reforma tributária parece não estar, até o momento, no radar do novo governo. “A reforma tributária não avança no País e ainda não vi sinalização nesse sentido do governo. A alta carga de impostos vai parar no preço dos produtos tanto no mercado interno quanto nas exportações. Parte do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro tem alcunha fiscal”, compartilhou.

“A redução da carga tributária passa pelo corte de gastos, que tem sido abordada de forma bem modesta”, analisa Thaís. 
Na opinião de Carlos Alberto Teixeira, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), que participou do “Comitê Extraordinário: Panorama 2010 – Perspectivas 2011” na Amcham-Belo Horizonte no fim do ano passado e voltou a ser consultado agora em abril, o governo está avançando na discussão com o Congresso a votação da reforma política.

“A reforma política deve preceder todas as demais, e alguns chegam a considerá-la como a mãe de todas as reformas. Não adiantará nada a busca de outras reformas se não tivermos um aparato institucional, político, bem seguro e firme“, observou Teixeira.


Relações internacionais

Ainda conforme os especialistas ouvidos pela Amcham, Dilma Rousseff demonstrou, nesses cem dias de governo, que pretende aprofundar a interação com os principais parceiros comerciais do Brasil. Nesse período inicial, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, visitou o Brasil pela primeira vez e a presidente foi à China, onde se encontrou com o líder Hu Jintao.

Conquistando cada vez mais destaque na ordem econômica mundial, o Brasil busca defender mais seus interesses e harmonizar as relações internacionais de troca, destacam os entrevistados. “Os Estados Unidos reconhecem que o Brasil tem legitimidade nessa aspiração. É possível que os temas que até então geraram controvérsia entre os dois países sejam resolvidos em ampla negociação”, disse o consultor Jorge Jatobá.

De acordo com Roberto Padovani, Dilma não busca nenhum protagonismo que não seja real. Ela quer abrir mercados e, para isso, a estratégia é uma política externa menos passiva.”Essa viagem à China marca uma nova orientação”, concluiu.