Esther Wojcicki: Não há nada mais poderoso no século 21 do que aprender habilidades jornalísticas

publicado 18/05/2018 17h47, última modificação 29/05/2018 19h41
São Paulo – Espírito crítico é antídoto para combater o conteúdo tóxico da internet, diz a educadora

Para não espalhar conteúdo tóxico pela internet - especialmente as fake news -, a educadora e jornalista americana Esther Wojcicki defende um modelo educacional que desenvolva espírito crítico e solução de problemas reais. O domínio de técnicas de jornalismo é uma forma de reunir essas competências. “Não há nada mais poderoso do que aprender habilidades jornalísticas no século 21”, segundo a educadora.

Ela foi a convidada de honra do almoço com empresários promovido pela Amcham-Brasil na sexta-feira (18/5), que também contou com Neca Setubal, presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal e GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), e Priscila Cruz, fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação.

Antes de compartilhar a notícia de que o Papa apoiou a eleição de Donald Trump, por exemplo, Wojcicki recomenda exercitar duas competências jornalísticas: verificar as fontes da notícia e entender o que ela está querendo transmitir. “Alguém pode estar tentando ganhar dinheiro ou visibilidade com isso”, argumenta.

A notícia sobre o apoio do Papa a Trump é tão falsa quanto a versão do Pontífice elogiando Hillary Clinton (candidata democrata à Presidência dos EUA). “Na verdade, o Papa não apoiou ninguém na eleição presidencial”, comenta.

“Pense no que faz um jornalista. Sai por aí, consegue informação de fontes primarias e tem que descobrir o que é importante e no que se pode acreditar. Precisam distinguir notícia de opinião”, continua.

Wojcicki se tornou uma autoridade pedagógica pelo seu trabalho de combate às fake news no ensino médio, mas a adoção de espírito crítico tem que ser generalizada. “Todos os alunos precisam de um pouco de treinamento de jornalista. Ensina a fazer perguntas e pensar. Não só os alunos, todos recebemos fake news o dia inteiro e nem sabemos se são verdadeiros.”

Quando começou seu programa no ensino médio, Wojcicki tinha 19 alunos. Ela se recorda que seu programa funcionava em uma casa simples no campus da Palo Alto High School. “Eu ensinava jornalismo em uma máquina de escrever e os alunos cortavam suas matérias com estilete para mandar para a impressão”, conta.

A procura pelo programa de Wojcicki foi aumentando com o passar do tempo e as máquinas de escrever foram substituídas em 1987, quando o governo da Califórnia doou sete computadores McIntosh. Anos depois, a prefeitura de Palo Alto construiu um prédio para abrigar os cerca de seiscentos alunos do programa.

Atualmente, os alunos são responsáveis por dezenas de publicações que incluem revista, website, televisão, rádio, vídeo e desenho gráfico. “Dei a eles os controles de como fazer”, disse a educadora. Wojcicki acredita que o modelo pode ser replicado no Brasil, porém em menor escala. “Sei que é difícil fazer a mesma coisa aqui, mas é possível realizar uma versão pequena.”

As publicações são autossuficientes, segundo a educadora. “Os alunos aprendem a vender anúncios e cuidam da contabilidade. Eles são cobrados pelos amigos e a comunidade apoia a escola, pedindo cópias. O ciclo é coberto, eles podem começar uma empresa”, conta Wojcicki.

Assim como nas escolas, as empresas precisam repensar o modelo de repetição e memorização na formação de pessoas. “Se isso não acontecer, vamos formar pessoas que só seguem ordens”, observa Wojcicki.

Educação como prioridade de fato

Para Setubal e Cruz, a melhoria do ensino no Brasil é responsabilidade de toda a sociedade. “Precisamos com que a Educação seja prioridade não só no discurso”, afirma Setubal. É preciso reformar o sistema educacional como um todo e incluir políticas e incentivos para valorizar os professores, comenta.

Sem formação adequada, não há profissionais suficientes para suprir as necessidades das empresas, pontua Cruz. Ela defende que o pilar da Educação seja mais valorizado nas discussões sobre competitividade estrutural. “Quando se fala de competitividade, a educação só aparece no debate quando é provocada. Temos que investir mais em gente”, alerta.

– Assista à entrevista exclusiva com a Esther Wojcicki.

 

 

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