Europa precisa reforçar integração fiscal para se manter unida, afirma Henrique Meirelles

por andre_inohara — publicado 07/11/2011 13h58, última modificação 07/11/2011 13h58
André Inohara
São Paulo – Recuperação será lenta e volátil, segundo ex-presidente do Banco Central.
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A recuperação econômica dos países da Zona do Euro deve passar por períodos de volatilidade e levar pelo menos dez anos para se concretizar. Para que ocorra, é preciso que os 17 países membros reforcem sua união fiscal, avalia o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.

Apesar de ter deixado o governo há quase onze meses, Meirelles afirmou que ainda está em “quarentena voluntária” sobre determinados assuntos, como a atuação do Banco Central e cenários para câmbio e juros.

Meirelles, que já foi presidente do Conselho da Amcham, esteve em evento no Business Center da entidade em São Paulo nesta segunda-feira (07/11) e concedeu a seguinte entrevista ao site:

Amcham: De que forma os desdobramentos da crise grega podem afetar a situação econômica da Europa como um todo?
Henrique Meirelles:
Não há duvida de que a situação da Europa é complexa e difícil. O cenário mais provável é de crescimento lento com volatilidade e correção gradual dos desequilíbrios regionais. Estamos falando de um crescimento baixo e lento, conforme definido pela chanceler alemã, Angela Merkel, com uma década de recuperação lenta. Mesmo assim, é um cenário que oferece riscos, evidentemente. Existe possibilidade de crise, e devemos estar preparados para isso no Brasil.

Amcham: A existência do euro está ameaçada?
Henrique Meirelles:
O euro é uma moeda com dificuldades estruturais importantes. Todas as lideranças europeias estão fazendo um esforço enorme para manter a união monetária. Inclusive esse último movimento da Grécia foi de continuar no euro (o governo grego desistiu do referendo para confirmar o resgate do país por meio de pacote de socorro europeu, sendo que uma rejeição significaria a saída da Grécia da Zona do Euro). Mas o risco de que alguns países sejam obrigados a sair do euro em algum momento existe. Por isso, a Europa tem dois caminhos: ou reforça uma união fiscal ou terá de, em algum momento, abandonar a união monetária. Os líderes europeus estão fazendo um esforço grande para continuar a manter o euro. Quando houve o risco real de que a Grécia fosse forçada a abandonar o euro, houve um acordo político para continuar e adotar as medidas corretas. Porém, o que está acontecendo na Grécia é importante e serve, inclusive, como efeito demonstração.

Amcham: Em relação ao comércio, como o sr. vê a aproximação entre Brasil e Estados Unidos, em função dos últimos encontros entre os presidentes Barack Obama (EUA) e Dilma Rousseff (Brasil)?
Henrique Meirelles:
Vejo como um movimento importante, porque as relações Brasil-EUA têm sido historicamente muito fortes. O comércio bilateral tem perdido importância relativa frente ao crescimento da China e de outros países asiáticos emergentes, mas isso não é necessariamente negativo, desde que o comércio continue a crescer em termos absolutos com os Estados Unidos. Acredito que isso será viabilizado pela maior aproximação entre os dois países. O investimento americano no Brasil continua grande e com tendência de crescer, e certamente o investimento de companhias brasileiras nos EUA é um fenômeno novo que aumentará bastante.

Amcham: Como a crise europeia pode afetar o Brasil?
Henrique Meirelles:
O principal risco seria pelo crédito, com a restrição das linhas internacionais de financiamento. Mas creio que o Brasil deverá crescer na faixa de 3,5% a 4,5% nos próximos anos.

Amcham: Em relação à Copa do Mundo no Brasil, como o sr. analisa o cronograma de investimentos em infraestrutura?
Henrique Meirelles:
Prefiro não falar sobre a Copa, porque não estou participando de nenhum comitê organizador.