Formação de profissionais no Brasil depende de ações integradas entre empresas, governos e instituições de ensino

por daniela publicado 18/10/2011 17h42, última modificação 18/10/2011 17h42
André Inohara e Daniela Rocha
São Paulo - Para especialistas que participaram de seminário na Amcham, País já conta com exemplos positivos de parcerias.
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O aumento da oferta de profissionais qualificados para atender a demanda colocada pela expansão econômica do País depende de planejamento de longo prazo e ações integradas envolvendo empresas, governos e instituições de ensino.

O assunto foi debatido por especialistas nesta terça-feira (18/10) no “Seminário Competitividade Brasil: Custos de Transação – Qualificação da Mão de Obra” na Amcham-São Paulo. Eles avaliam que os agentes públicos e privados estão crescentemente sensibilizados sobre a necessidade de aproximação entre eles e que o País já conta iniciativas bem sucedidas nesse sentido de formação de mão de obra.

“Cada vez mais, governos, empresas e trabalhadores têm de trabalhar juntos para identificar oportunidades e viabilizá-las no que diz respeito à formação profissional. Essa aproximação é fundamental para o sucesso de qualquer ação, seja de desenvolvimento das empresas, cidades, Estados ou do Brasil”, enfatizou Juan Carlos Sanchez, coordenador de Ensino Técnico, Tecnológico e Profissionalizante da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.

“A expansão do ensino deve ocorrer de forma planejada e levar em conta as demandas e as vocações econômicas regionais”, acrescentou Laura Laganá, diretora superintendente do Centro Paula Souza. O centro é uma autarquia do governo do Estado de  São Paulo que administra 200 Escolas Técnicas (Etecs) e 51 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) estaduais em 155 municípios paulistas.

Ela citou alguns exemplos nesse sentido como o da IBM, em Hortolândia, que solicitou apoio para capacitação de trabalhadores. A empresa entrou com estrutura física, equipamentos e até capacitação dos professores. Os ganhos foram mútuos e o índice de contratação de pessoal formado foi de 90%, sendo que no mercado costumava ser de 15%.

Outro caso foi o atendimento da demanda do polo da indústria de alimentos de Marília com a implementação de uma Fatec (Faculdade de Tecnologia). Pela parceria, a prefeitura se encarregou da estrutura física e o Estado se responsabilizou pelos equipamentos e pela manutenção dos cursos específicos. A grade curricular foi desenvolvida a partir do diálogo com executivos de companhias como a Nestlé e a Marilan. 

É comum a visão também de que a capacitação profissional deve se expandir além das regiões metropolitanas, em áreas que vêm se desenvolvendo em ritmo intenso. “A carência de mão de obra é elevada fora dos grandes centros urbanos. Para resolver, isso é importante a articulação com comunidades locais, assim como mais investimentos em regiões de baixo adensamento industrial”, disse Ricardo Figueiredo Terra, diretor técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Soluções diferenciadas

Jacques Marcovitch, professor da Universidade de São Paulo (USP), que fez a moderação do debate, ressaltou a necessidade de se encontrarem novas fórmulas para resolver questões urgentes do País, incluindo a educação formal e profissional. 

“É preciso atuar de forma articulada e criativa para resolver problemas que limitam a competitividade, como os gargalos da infraestrutura e a falta de mão de obra capacitada, além de avançar em inovação e resolver a insegurança regulatória”, destacou Marcovitch.

A criação de um consórcio para treinamento de mão de obra foi a solução encontrada pelas 15 maiores empresas de mineração do Brasil, que estão estabelecidas em Minas Gerais, para sustentar o desenvolvimento de seus negócios nos próximos anos. Os investimentos em ampliação serão de R$ 36 bilhões até 2016.

Mesmo sendo concorrentes, as integrantes do consórcio venceram a desconfiança e partiram para um trabalho conjunto, em parceria também com o governo estadual e algumas instituições de ensino, entre elas o Senai e universidades. “Essa aproximação não é fácil. Foi importante quebrar paradigmas”, comentou Alba Valéria, coordenadora do Consórcio Mínero Metalúrgico. 

Alba explicou que, logo no início, em 2007, foi realizado um levantamento detalhado das necessidades de pessoal das companhias do consórcio por cargos e salários. Até 2012, o consórcio terá formado 40 mil novos profissionais, sendo que o quadro atual de profissionais desse conjunto de 15 empresas é de 70 mil em MG e de 140 mil no Brasil. Conforme Alba, quando o setor público recebe a demanda da iniciativa privada de forma organizada, as respostas são mais rápidas e efetivas.

A Suzano Papel e Celulose também está adotando o modelo de consórcio, que no caso não envolve concorrentes, mas companhias de variados setores para formar engenheiros. Esses profissionais serão encarregados da construção de duas novas plantas da companhia, uma no Piauí e outra no Maranhão. No total, cada unidade demandará 14 mil pessoas entre engenheiros, técnicos e colaboradores para níveis mais básicos. 

No Maranhão, a parceria entre o governo do Estado, sindicatos e empresas locais para formação de engenheiros promove o desenvolvimento local, gerando empregos e beneficiando os segmentos hoteleiro e o comércio, entre outros.

Além desse consórcio, ações envolvendo o Senai e instituições de ensino têm evitado a importação de quadros de outras regiões brasileiras. “A soma de esforços consegue desenvolver a infraestrutura da região. As empresas locais e a comunidade se beneficiam”, afirmou Carlos Alberto Griner, diretor executivo de Recursos Humanos da Suzano.

Mecanização

No setor sucroalcooleiro, ETH do Grupo Odebrecht está promovendo a transição da qualificação de mão de obra de um processo de colheita manual para a mecanizada. Isso exige capacitação para os trabalhadores operarem os equipamentos. No último ano fiscal, os investimentos em formação somaram R$ 2,8 milhões. Dos 15 mil trabalhadores, 11,8 mil entraram em salas de aula. Pra reter esse pessoal mais especializado, a empresa institui uma política diferenciada de carreiras.

“O setor sempre foi imediatista, mas implementamos um novo conceito de projeto de vida para que haja desenvolvimento na carreira e que as pessoas pensem no longo prazo”, comentou Genesio Lemos Couto, diretor de Pessoas, Sustentabilidade e Relações Institucionais da ETH.

Riccardo Barberis, presidente (contrymanager) da Manpower Brazil, prestadora de serviços em recursos humanos, destacou que, tanto em capacitação quanto em retenção, as empresas devem atentar para a gestão da diversidade, principalmente a existente entre gerações. “Os jovens da geração Y (nascidos a partir de 80) são mais interativos, imediatistas e movidos pela paixão.” Essas características comportamentais devem ser consideradas e adaptadas a favor dos negócios, apontou.

De acordo com Barberis, o Brasil não é o único país a enfrentar problemas com a escassez com a mão de obra qualificada. Um estudo recente da Manpower aponta que 40% dos empregadores no mundo não conseguem encontrar gente com a capacitação adequada.

Retomada da engenharia

Os cursos de engenharia que foram esvaziados no longo período de descontrole da inflação, sem projetos e empregos na área, precisam ganhar novo fôlego na atual fase de aquecimento da economia. Hoje, esses profissionais são muito requisitados para atuar em obras de infraestrutura no setor produtivo.

Aluizio de barros Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo, defendeu uma reestruturação dos cursos em termos de qualidade e especializações. O Instituto de Engenharia liderou junto com as principais universidades de engenharia uma análise dos 258 modalidades de engenharia registrados no Ministério da Educação, cruzando-os com as necessidades de mercado. “Após um trabalho árduo, concluímos que há necessidade de se reduzir para 53 títulos, levando em conta conteúdo, programática e carga horária”, salientou.

No horizonte

No evento da Amcham, Juan Carlos Sanchez, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, informou que, a partir do próximo ano, uma das prioridades da administração será ampliar os investimentos em um projeto para elevar o nível de escolaridade de jovens e adultos. O EJA (Educação de Jovens e Adultos) Mundo do Trabalho atenderá pessoas que não concluíram o ensino fundamental (do sexto ao nono ano) no tempo correto e, no currículo, além das sete disciplinas oficiais, haverá mais uma técnica.

“O projeto piloto contempla 50 mil vagas com matrículas abertas já no próximo ano. Estamos olhando para as pessoas mais velhas com defasagem na escolaridade”, disse Sanchez.

Em 2012, segundo Sanches, também serão oferecidas 125 mil vagas dentro do programa Via Rápida Empregos, que oferece cursos básicos de qualificação profissional de acordo com demandas regionais. São 130 modalidades de cursos gratuitos, nas áreas da construção civil, comércio, serviços e indústria, com duração de 30 a 90 dias, dependendo do tipo de ocupação.

O coordenador destacou ainda que existe um artigo da CLT (476-A), que prevê que as empresas possam suspender os contratos de trabalho para que os colaboradores participem de cursos e treinamentos durante dois a cinco meses.  A partir desse dispositivo, os trabalhadores recebem uma bolsa auxílio nos moldes do seguro desemprego pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) do Ministério do Trabalho. Esse mecanismo pode ser utilizado pelas companhias quando há mudanças nos sistemas de produção, como ocorre no setor sucroalcooleiro, que passa por um forte processo de mecanização.

“Do orçamento disponibilizado pelo Ministério do Trabalho, apenas 10% são utilizados no País”, apontou. É uma maneira de desenvolver as pessoas para que possam ser acolhidas no mercado em transformação, completou Sanchez.

Laura Laganá, diretora superintendente do Centro Paula Souza, disse que o foco da instituição a partir de 2012 será continuar com a ampliação de oferta de vagas nos cursos técnicos e de graduação tecnológica. “Credenciaremos instituições privadas para ampliar a oferta”, ressaltou. Outra iniciativa será reforçar a atuação a agência de inovação, Inova Paula Souza. A ideia também é divulgá-la mais para que as empresas passem a financiar projetos, que poderão resultar no lançamento de novos produtos, elevando o registro de patentes.

Na avaliação de Genesio Lemos Couto, diretor de Pessoas, Sustentabilidade e Relações Institucionais da ETH, a legislação trabalhista (CLT) e as relações sindicais precisam ser modernizadas, não mais condizentes com a realidade do mundo do trabalho. “Elas são retrógradas, não evoluem”, acrescentou ao debate.

Carlos Alberto Griner, diretor executivo de RH da Suzano, defendeu uma mudança nos processos de admissão pelas empresas. De acordo com ele, os critérios de seleção foram sempre muito exigentes e, atualmente, devem ser flexibilizados. “No passado, o cenário era de grande oferta de profissionais e os RHs selecionavam os ‘Pelés’, os melhores. Esse critério ainda está vigente em algumas empresas, mas não condiz com a realidade porque está faltando gente qualificada. Então cabe a empresa escolher pessoas com vontade de aprender e desenvolvê-las”, ponderou.