Gastos para garantir saúde e bem-estar do trabalhador representam mais de 10% da folha de pagamento das empresas

por marcel_gugoni — publicado 12/09/2012 16h10, última modificação 12/09/2012 16h10
São Paulo – Monitoramento com ferramentas de avaliação de risco é caminho para prevenir e mitigar problemas com qualidade de vida, bem como definir benefícios adequados ao perfil dos funcionários.
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Um funcionário que falta para fazer um exame, outro que fica afastado por doença ou um terceiro que não consegue se concentrar no dia a dia por falta de motivação com o ambiente de trabalho são grandes riscos a que qualquer empresa está exposta e que afetam, e muito, a produtividade. O investimento na qualidade de vida dos trabalhadores e em benefícios que promovam mais saúde e bem-estar tem ganhado espaço na estratégia das companhias, e esses montantes já representam uma fatia considerável dos gastos operacionais: em torno de 10% do valor da folha de pagamento.

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A avaliação da médica Ana Cláudia Pinto, superintendente de Desenvolvimento da Mercer Marsh Benefícios, especializada em gestão de saúde e bem-estar profissional, é de que esse tipo de custo tem deixado de ficar somente sob a alçada da área de Recursos Humanos e passa a exigir mais controle do financeiro.

“Os custos são tão elevados que interferem na competitividade. Se olharmos para o custo total da empresa, saúde é o segundo maior, só perdendo para a folha [salários e tributos]”, afirmou ela ao participar do comitê aberto de Finanças, realizado na Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (12/09), que debateu o uso de ferramentas de gestão de risco para o controle da saúde ocupacional.

Uma pesquisa feita pela Mercer Marsh Benefícios mostrou que a fatia dos benefícios na folha de pagamentos passou de 9,5% (entre 2009 e 2010) para 10,4% (entre 2011 e 2012). O levantamento, divulgado no começo de setembro, mostrou que no futuro esse percentual pode chegar à casa de 13% (2022) a 16,3% (2032). “É uma parcela que só tende a crescer”, diz a médica.

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O estudo ouviu 342 empresas de vários setores em relação aos benefícios que elas oferecem a seus funcionários. Entre as companhias pesquisadas, 36% são brasileiras e 31% são americanas.

Controle de risco

Ana Cláudia destaca que 62% das empresas ouvidas dizem ter programas de saúde e de qualidade de vida. “Mas 61% delas não sabem medir a redução de custos proveniente desses programas e 64% dizem que querem aumentar ainda mais os investimentos”, afirma. “A conclusão que podemos tirar daí é que elas sabem que o retorno é positivo.”

Em um cenário de gastos crescentes, torna-se cada vez mais necessária a adoção de ferramentas de gestão de risco capazes de mensurar os efeitos da falta de um funcionário, os retornos de oferecer opções esportivas ou alimentação saudável aos empregados, e a melhoria do ambiente motivando pessoas com um amplo pacote de benefícios.

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O ERM (Enterprise Risk Management) já é bastante usado pela área financeira para medir o retorno de projetos ou o potencial de perdas de acidentes, entre muitas outras variáveis, e é apontado como uma ferramenta importante para a gestão da saúde ocupacional. Para Ana Cláudia, trata-se de um processo para unificar os gastos trabalhistas.

“É grande vantagem ter tudo em um local só. Hoje esse tipo de custo está disperso: processos ficam com o jurídico, passivos ficam com a área contábil, saúde fica com o RH”, exemplifica. “Olhar o custo total em saúde permite montar um panorama no qual seja possível encontrar as oportunidades de melhoria. Essa é a questão mais importante.”

Alexandre Camargo Zornig, diretor executivo de Saúde da Allianz que também participou do comitê, lembra que a área não é só a que define os planos de saúde. “De uma forma holística, é aquela que oferece saúde, qualidade de vida e um bom ambiente de trabalho visando à maior produtividade”, afirma.

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Sendo assim, até problemas trabalhistas como um afastamento por lesão ou acidente, passíveis de indenização e cujo processo correria no jurídico da empresa, poderiam ficar sob o guarda-chuva dos gastos de benefícios para um melhor controle financeiro.

Maiores ameaças

Zornig afirma que custos indiretos como a desmotivação de um funcionário podem representar uma quebra de 20% a 32% na produtividade. Já o absenteísmo (o funcionário que falta muito) pode equivaler a custos extras de 10% a 51% para a empresa ao desperdiçar horas de trabalho.

“Isso mostra que a saúde impacta, e muito, no custo do negócio”, reforça. “Basta pensar que a saúde é o que mais afeta as pessoas. E as empresas dependem de cada um de seus funcionários.”

Entre os custos diretos, os palestrantes citam gastos, principalmente, com planos de saúde. O executivo da Allianz enumera que o custo com assistência médica via planos fica em 8,5% da folha de pagamento, em média.

Ana Cláudia aplica a ferramenta do ERM para dividir os riscos em três pilares diferentes. A gestão da saúde, o primeiro pilar, está ligada ao perfil dos empregados de uma empresa. “Se a faixa etária dos trabalhadores é maior, há determinados riscos a que a empresa está exposta, como doenças crônicas”, exemplifica a médica.

“Já em uma população organizacional mais jovem, como de um call center, é notável que o maior problema é de obesidade”, afirma. “Mas isso depende da atividade da empresa, do setor em que ela atua.” Ter um perfil do público já ajuda a definir o controle de risco e o pacote de benefícios adequado.

O segundo pilar envolve acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. Aqui, o perfil da empresa e o setor também ajudam a determinar os riscos mais perigosos. “Uma metalúrgica está muito mais exposta a um risco de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho enquanto a área de serviços tem um risco menor”, complementa ela.

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O desenho do plano, o terceiro pilar, decorre dos dois anteriores. “Trata-se de montar um plano de ação e achar as oportunidades de melhorias. É uma questão de comparar riscos e benefícios e saber que qualquer risco pode levar a perda.”

Para Zornig, o resultado é uma combinação de redução de custos assistenciais, de aumento da satisfação dos colaboradores e da produtividade, de redução do absenteísmo e da melhora do ambiente de trabalho.

O melhor momento de aplicar uma gestão eficiente dos riscos de saúde se resume a uma palavra: prevenção. “Vencer os desafios futuros é antecipar-se a eles. Mitigar, aceitar, transferir e fugir dos riscos são estratégias, mas é preciso saber qual a exposição que a empresa pode ter de cada uma”, afirma Zornig.