Gerar consumo não é tão complicado. Difícil é elevar o patamar dos investimentos, afirma economista-chefe do Santander

por marcel_gugoni — publicado 18/06/2012 12h52, última modificação 18/06/2012 12h52
São Paulo – Para Maurício Molan, País precisa de mais gastos com infraestrutura e melhora das condições de negócios, indo além de se concentrar no incentivo aos gastos das famílias.
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Após um período de bonança na década de 1990, a economia global passa por ajustes que obrigam os países, incluindo o Brasil, a saírem de sua zona de conforto. O crescimento brasileiro de longo prazo exigirá um modelo que vai além do estímulo ao consumo, com maiores investimentos para ampliar a capacidade produtiva, alerta o economista-chefe do banco Santander, Maurício Molan.

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Ele participou na última quinta-feira (14/06) do CFO Fórum 2012 da Amcham-São Paulo e conversou com a reportagem do site depois do evento. “O consumo funciona quando age como estopim para o investimento. Se apenas o consumo aumentar, teremos de importar mais. País que quer crescer precisa elevar investimento. Gerar consumo não é tão complicado. Difícil é mudar o patamar dos investimentos”, defende.

A taxa de investimento do País encerrou o ano de 2011 na casa dos 19,3% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010, havia ficado em 19,5%. Para este ano, o governo trabalha com uma estimativa de que chegue a 20,8%.

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Para garantir a evolução dos investimentos, Molan ressalta que é preciso avançar em infraestrutura e melhorar as condições de negócios para as empresas.

Veja os principais trechos da entrevista com Maurício Molan:

Amcham: Como o sr. avalia os riscos para o Brasil diante da atual conjuntura externa?

Maurício Molan: O que acontece é que passamos por um período de bonança longa nos anos 90, em que os países se sentiam confortáveis para consumir fortemente, se endividando, mas esse modelo se mostrou não sustentável e dá lugar agora a uma fase de ajustes. Saímos da zona de conforto. O crescimento brasileiro será menor, a demanda por produtos brasileiros diminuirá, os preços das commodities terão uma inflexão. Não significa que a recessão no exterior vá gerar recessão aqui. Não vejo isso. O Brasil está bem: tem reservas internacionais, um mercado interno forte e está aproveitando o momento para reduzir taxa de juros. A questão toda é o impacto que isso [as turbulências no exterior] tem sobre o crescimento do País nos próximos anos porque não vamos conseguir expandir a economia no mesmo ritmo do passado.

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Amcham: Em sua avaliação, o atual modelo brasileiro baseado em consumo interno será capaz de continuar a sustentar o crescimento econômico?

Maurício Molan: Ele ajuda no curto prazo, mas, no longo termo, o que gera crescimento é o aumento de capacidade produtiva, que é determinado pelo ritmo dos investimentos. O consumo funciona quando age como estopim para o investimento. Se apenas o consumo aumentar, teremos de importar mais. País que quer crescer precisa elevar investimento. Gerar consumo não é tão difícil. Difícil é mudar o patamar dos investimentos.

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Amcham: O que o Brasil precisa fazer para garantir mais investimentos?

Maurício Molan: Desenvolver a infraestrutura e melhorar as condições de negócios. O Brasil vai mal nos indicadores principais do relatório Doing Business [do Banco Mundial, que mede a facilidade de se fazer negócios nas mais variadas partes do globo]. Quando olhamos para o desempenho fraco da indústria, o câmbio tem sido tratado como grande culpado, mas a preocupação maior do empresariado é com a carga tributária, seguida por infraestrutura e crédito. A [deficiência de] infraestrutura do País aumenta os custos de produção e isso derruba nossa competitividade internacional. Há ainda um aspecto que está ligado ao mercado de trabalho. Os custos de demitir e qualificar são altos, ao mesmo tempo em que vemos aumentos de salários sistematicamente acima dos ganhos de produtividade. No entanto, o que percebemos é o governo atuando com medidas pontuais para reduzir a carga tributária de setores escolhidos ou controlar a taxa de câmbio, o que politicamente é mais fácil de mexer do que fazer sair a reforma tributária.

Amcham: O governo tem agido para baixar os juros, mas permanecem reclamações sobre a concentração bancária no País...

Maurício Molan: Esse é um tema que tem sido muito debatido. O governo tem colocado muita pressão sobre os bancos para baixar os spreads [diferença entre o custo de captação de dinheiro para os bancos e quanto cobram na ponta do tomador], e o senso comum diz que a concentração poderia impedir uma redução mais acentuada desses spreads. Porém, o que acontece é que já há uma tendência de queda dos juros para o consumidor. A taxa já caminha para patamares reais inferiores a 5% nos próximos anos. O que impede uma redução mais rápida no momento atual é a inadimplência. Como fator restritivo a uma oferta de crédito mais acelerada, parece que a inadimplência é mais relevante do que a concentração bancária.

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Amcham: Como o sr. vê essa questão do ponto de vista das empresas?

Maurício Molan: O mercado de crédito no Brasil ainda é muito regulado, e as próprias empresas se dizem pouco afetadas pela redução dos juros. Isso ocorre basicamente porque, para investimentos, muitas recorrem a recursos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. O necessário realmente, além da redução da taxa de juros doméstica, é o desenvolvimento do mercado de capitais para que as empresas tenham maior acesso aos recursos de poupança dos consumidores. Isso vai acontecer naturalmente com a redução da taxa de juros ao longo dos próximos anos.

Amcham: Quais as projeções do Santander quanto a crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro?

Maurício Molan: Projetamos 2,2% para este ano e 4,7% para 2013. Mas acreditamos que, no longo prazo, provavelmente não conseguiremos repetir a média de 4,5% por ano que vimos entre 2004 e 2011.

Amcham: Os empresários que participaram do evento da Amcham mostraram otimismo com avanço nas vendas em 2012. Como o sr. olha para esse indicador?

Maurício Molan: Acho que está bastante em linha com o resultado macroeconômico e vai em direção contrária ao que se vê no senso comum, que prega que a economia vai mal e que o crescimento está baixo. O consumo [ainda] se expande a uma taxa considerável.