Gestores financeiros mostram otimismo com cenário doméstico e revelam acreditar que crise internacional terá efeito reduzido no Brasil

por andre_inohara — publicado 14/06/2012 18h27, última modificação 14/06/2012 18h27
André Inohara
São Paulo – CFO Fórum da Amcham debateu as perspectivas macroeconômicas e a visão do empresariado sobre a economia em 2012. Enquete com participantes mostra o que pensam.
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Com expectativas otimistas para o mercado interno, executivos financeiros acreditam que suas empresas continuarão crescendo no Brasil, pouco afetadas pelas adversidades do cenário internacional.

Essas foram algumas das conclusões da enquete realizada pela Amcham durante o CFO Fórum, evento que reuniu executivos da área financeira para debater as perspectivas econômicas e melhores práticas de gestão financeira nesta quinta-feira (14/06) em São Paulo.

Quando questionados sobre como as vendas das empresas irão se comportar em 2012, 75% dos 136 executivos revelaram apostar em evolução, sendo que mais de 64% dos executivos disseram acreditar que o resultado comercial crescerá acima de 5%. A resposta mais frequente, com 36,1% do total, foi de que haverá aumento das vendas acima de 15%.

A fatia foi mais que o dobro dos 16,7% gestores que acham que o patamar de crescimento ficará entre 10% e 15%. Pouco menos otimistas, 12% responderam que as vendas aumentarão de 5% a 10%.

Em fevereiro, executivos da área comercial participaram do ‘Seminário Perspectivas Comerciais 2012’, organizado pela Amcham, e também demonstraram otimismo em relação ao mercado nacional. Na ocasião, 62% dos 387 profissionais das áreas comercial e de marketing ouvidos apontaram esperar incremento de vendas na casa dos dois dígitos.

Veja aqui: Otimistas, empresas apostam na classe C para continuar crescendo em 2012

PMEs serão um dos principais motores do crescimento nacional nesta década

Na sondagem desta quinta com os executivos financeiros, a grande maioria (75%) também respondeu que, para suas empresas, a queda da taxa de juros terá pouco impacto sobre o nível de investimentos. Cerca de 24% disseram que suas companhias vão aumentar os aportes, e somente 1% respondeu que os investimentos serão reduzidos.

Em relação ao câmbio, a maioria dos entrevistados (51,1%) acha que o dólar ficará entre R$ 1,8 e R$ 2 no segundo semestre. Uma fatia ligeiramente menor da amostra, de 47,4%, crê que o dólar ficará na faixa de R$ 2 a R$ 2,2 no período.

Os executivos dizem que as turbulências no cenário externo não devem afetar significativamente os negócios das empresas no Brasil. A maioria  (55,2%) acredita que haverá pouco impacto 16,9% pensam que o cenário externo não trará nenhum tipo de impacto. Um grupo de 27,9% considera que os negócios serão bastante afetados.

Perspectivas econômicas

Alinhado com a pesquisa, o fórum da Amcham tratou de temas macroeconômicos e inerentes ao dia a dia da área financeira. O painelista Maurício Molan, economista-chefe do Banco Santander, disse que, em sua visão, a existência de bons fundamentos econômicos e otimismo entre os executivos não torna o Brasil imune aos efeitos da crise internacional a médio prazo.

“Saímos da zona de conforto e vamos precisar fazer ajustes. O mercado de commodities vai diminuir e a demanda por produtos brasileiros vai ser menor”, avalia o economista. “Crescer com exportações vai ser difícil. Há um impacto [que virá] em médio prazo que não pode ser desprezado.”

Para ele, a média de crescimento verificada entre 2003 a 2011, de 4,4%, não se repetirá na próxima década. “Vamos crescer em um ritmo saudável, mas moderado, que se situará na faixa de 3% a 3,5% ao ano”, comenta.

Luis Afonso Lima, economista-chefe da Telefonica do Brasil e diretor-presidente da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica), também analisou os efeitos externos sobre o País.

“O crescimento internacional está sendo gradual e com risco. Os EUA estão se recuperando, mas a China pode desacelerar além da conta e a Zona do Euro enfrenta recessão em sete das 17 economias do bloco”, explica.

Lima considera que a crise nos países ricos tende a trazer alguns impactos importantes ao Brasil. Um deles é sobre as exportações, diante da baixa dos preços das commodities nos mercados internacionais. Outro ponto importante é a questão do crédito. “Existe um efeito negativo por conta de cultura conservadora de bancos. Como o investimento se comporta com juros declinantes?”, indaga.

Com o inédito patamar de juros reais abaixo de 5%, o comportamento dos investidores estrangeiros também é um ponto a ser observado. “A ideia de investimento passa por um horizonte de cinco a 15 anos. Até 2013, seremos a quarta economia que mais receberá investimentos estrangeiros diretos, segundo a Unctad, mas a taxa de juros para o investimento de longo prazo tem efeito pequeno”, comenta Lima.

Investimentos produtivos têm que ser priorizados

Para continuar crescendo, o Brasil precisa focar mais em investimentos produtivos em vez de se concentrar no estímulo ao consumo, indicou o debate. De acordo com Maurício Molan, do Santander, o governo vem priorizando medidas agressivas de crescimento via consumo, quando deveria estimular mais a vinda de investimentos e resolver os gargalos estruturais da economia.

“Se só o consumo aumenta, provavelmente acabaremos importando mais. Para o País crescer, é preciso elevar investimentos e não temos visto medidas para isso”, comenta.

O atraso na infraestrutura logística e o excesso de burocracia e carga tributária também atrapalham. “Gerar consumo não é tão difícil. O difícil é mudar o patamar de investimentos. Nosso crescimento atual de 3% tem que se transformar em 4% e 5%, e não cair para 2% como nos anos 1990”, lembra.

Lima, da Telefonica, enfatiza a importância dos investimentos produtivos como fonte para o desenvolvimento da inovação. “O investimento direto é uma saída para a inovação. Existe necessidade de políticas para explorarmos mais essa capacidade”, comenta.

A internacionalização de empresas brasileiras também abre espaço para avanços em inovação. “Podemos explorar a internacionalização de empresas brasileiras. A companhia que se expõe a outros mercados traz inovação ao próprio mercado. Quem não se internacionaliza tem dificuldade de sobreviver no próprio mercado. Esse é um caminho possível que se tornou o principal desafio da competitividade”, conta.