Giannetti da Fonseca: com Brexit, Reino Unido seria um parceiro mais “liberal” para o Brasil

publicado 06/07/2016 13h53, última modificação 06/07/2016 13h53
São Paulo – Para consultor, fluxo de comércio bilateral poderia passar de 1,5% para 5%
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“É muito provável que o Brasil faça um acordo de livre comércio com o Reino Unido, já que ele não é mais membro da União Europeia. Como eles certamente têm uma posição mais liberal que o bloco, o Brasil não precisaria ter cotas de carne e açúcar, poderia exportar o quanto quiser.” A afirmação do consultor Roberto Giannetti da Fonseca, presidente do Conselho Empresarial da América Latina Capítulo Brasil (CEAL) e da Kaduna Consultoria e Participações, revela perspectivas otimistas para o Brasil diante da saída dos ingleses da União Europeia – fenômeno conhecido como ‘Brexit’. Gianneti foi um dos painelistas do evento da Amcham – São Paulo na quarta-feira (6/7), sobre o impacto do Brexit para o Brasil e o resto do mundo.

Além de Giannetti, o encontro teve participação de Wasim Mir, encarregado de negócios da Embaixada Britânica no Brasil, dos acadêmicos José Augusto Fontoura Costa (USP), Marcus Vinicius de Freitas (FAAP) e Otto Nogami (Insper) e a mediação do co-diretor do Laboratório BRICs da Universidade de Columbia, Marcos Troyjo.

“O Reino Unido vai deixar o Brasil exportar o quanto quiser (de carne e açúcar), pois não há concorrência desses produtos lá. Eles são a quinta economia do mundo, têm população e volume de consumo importante. Hoje o comércio do Brasil com os ingleses é de 1,5% do total das exportações. É pouco significativo, mas a oportunidade de crescer é alta, podendo passar para 3% a 5% e vice-versa”, acrescenta Giannetti.

Para o Brasil, os pontos fortes do comércio bilateral com o Reino Unido estão em segurança alimentar e meio ambiente. “Em relação a esses dois pontos, somos dominantes no mundo. Podemos receber capital britânico em projetos de engenharia genética, biotecnologia e alimentos”, exemplifica o consultor.

Quanto ao meio ambiente, o Brasil é detentor de grandes recursos naturais e hídricos que também poderiam ser explorados conjuntamente. “Temos 12% da água potável do mundo. A água é um recurso que vai se tornar cada vez mais decisivo.” O potencial de negócios em meio ambiente está criando uma nova expressão, de acordo com Fonseca. “O econegócio está sucedendo o agronegócio. Temos como tirar proveito disso de forma sustentável e os ingleses podem ajudar nisso.”

 Relação com o Brasil é mais antiga que com a Europa

A saída do Reino Unido da Comunidade Europeia trará mais oportunidades de negócios, uma vez que a parceria bilateral é mais antiga que a União Europeia, “que começou em 1993”, de acordo com Mir. “Há trezentas empresas britânicas no Brasil e cem companhias brasileiras em meu país. Não espero que haja mudanças.”

A separação do Reino Unido do bloco formado pelas 27 maiores economias europeia não significa que seu país vá se isolar, assegura o representante britânico. “Mesmo com as negociações de saída da Comunidade, o Reino Unido é e sempre será um país aberto aos negócios e comprometido com a paz e segurança. Embora não saibamos como será a relação com a União Europeia, deixo muito claro que queremos ter ligações políticas e econômicas mais fortes com nossos vizinhos.”

Impactos financeiros e políticos

A saída do Reino Unido da Comunidade Europeia vai criar instabilidade nas bolsas de valores e derrubar a cotação da libra em curto prazo. Mesmo assim, Londres não deve perder a liderança do mercado financeiro mundial para Nova York ou Frankfurt, de acordo com Nogami. “A tendência é que o mercado se estabilize em longo prazo. O mercado de câmbio londrino, por exemplo, é significativamente maior que o de Nova York. Além disso, a saída de capital estrangeiro é um movimento especulativo.”

O professor do Insper reitera que o Reino Unido é uma das principais economias do mundo, e tem perspectivas de iniciar acordos comerciais bilaterais com os Estados Unidos, Ásia e a própria Commonwealth (formada pelos 53 países de língua inglesa). “Ela se equipara à União Europeia e ao Nafta, bloco econômico da América do Norte. O potencial escondido é imenso”, assinala Nogami.

Para Freitas, o Brexit expõe a diferença de pensamento do Reino Unido e o resto da Europa. “O Reino Unido quer integração comercial, mas rejeita a política de imigração europeia. E a Europa, por sua vez, não quer um Reino Unido a la carte, onde o país escolhe se integrar apenas nos pontos mais convenientes a eles”.

Na mesma linha, Costa disse que o “divórcio” do Reino Unido com a Europa é um sinal de que os britânicos querem negociar outros formatos de acordos comerciais. “Você se divorcia pensando em outro enlace lá na frente.”

Os “enlaces” seriam novos acordos bilaterais e multilaterais. “Haverá uma nova onda de acordos de aprofundamento de relações liberais, comerciais, de investimentos e finanças. Isso levará a uma regulação mais forte do que as regras da OMC (Organização Mundial de Comércio) e liberalizar mais o comércio”, observa Costa.

Na opinião de Costa, isso será bom para o comércio mundial. “Se o Brexit ajuda a acontecer, será bom para nós. Ainda não sei o quanto será bom para a Inglaterra, mas é hora de entender como o divórcio aconteceu e saber que a fila anda.”