Governo terá que abrir mais espaço ao setor privado na infraestrutura, diz Mendonça de Barros

por daniela publicado 04/07/2011 15h56, última modificação 04/07/2011 15h56
Daniela Rocha
São Paulo - CEO da Quest Investimentos vê disposição política para isso na atual gestão.
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O governo federal terá de promover uma abertura maior na área de infraestrutura à gestão e aos investimentos do setor privado. Esse será um dos principais caminhos para ampliar a competitividade e garantir o crescimento sustentável do País, na visão de Luiz Carlos Mendonça de Barros, CEO da Quest Investimentos, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-ministro das Telecomunicações, cargos que ocupou no governo de Fernando Henrique Cardoso na década de 90.

Para o economista, a gestão de Dilma Rousseff tem demonstrado disposição política nesse sentido, inclusive com medidas concretas. Uma delas é a privatização da gestão de três importantes aeroportos brasileiros: Guarulhos (São Paulo), Viracopos (Campinas) e Brasília, com abertura das licitações prevista para até dezembro. A presidente já anunciou que Galeão (Rio de Janeiro) e Confins (Minas Gerais) poderão ser os próximos. O governo também prepara um novo modelo para o setor portuário nacional.

O economista participou da comemoração do aniversário de independência dos Estados Unidos (4 de julho), realizada pela embaixada americana no Brasil antecipadamente, na sexta-feira (01/07), na sede da Amcham em São Paulo.

Mendonça de Barros concedeu uma entrevista ao site da Amcham, na qual comentou a preocupação com a inflação no País, a escassez de mão de obra qualificada e também o estreitamento da relação Brasil-EUA. Acompanhe:

Amcham: A inflação no País é de fato preocupante?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
A inflação é no Brasil, atualmente, um dos problemas mais sérios, assim como em diversos países emergentes onde a economia está crescendo muito, sendo que há um choque externo de preços de commodities. Mas aqui há uma característica particular que é o nível de desemprego muito baixo. Estamos em uma armadilha que os economistas chamam de Phillips Curve (Curva de Phillips), quando o desempego é muito baixo e os salários sobem por conta da escassez de profissionais.

Amcham: No País, a pressão inflacionária é maior em que áreas?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
O problema está mais concentrado nos serviços porque, em relação aos produtos que podem ser importados, as compras externas têm segurado a inflação, uma vez que o real está valorizado. A inflação na área de serviços é de mais de 9% e a registrada nos demais segmentos é de 2%, o que dá um resultado de 5,5% de inflação.

Amcham: A trajetória ascendente da taxa Selic é a a principal maneira de conter a inflação?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
Outra forma de combater a inflação é  atuar na parte fiscal. Mas, quando não há disposição do governo de reduzir gastos, há que se usar os juros como elemento mais importante.

Amcham: O Brasil necessita avançar em competitividade? O que pode ser feito?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
A indústria brasileira está sofrendo muito porque há competição das importações e os custos internos estão muito altos. Por exemplo, os salários em dólar no País subiram muito nos últimos anos; além disso, a energia e o transporte estão caros. Uma economia caracterizada sobretudo por produtos primários tem mesmo dificuldades para desenvolver a indústria. Mas o Brasil terá de endereçar os gargalos a maior competitividade se quiser continuar crescendo.

Amcham: Na sua visão, quais são as prioridades dessa agenda?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
O governo terá de realmente abrir a infraestrutura aos investimentos privados. O governo passado tinha uma uma restrição política, não permitindo a participação do setor privado nos serviços públicos; entretanto, a gestão atual já deu dois sinais positivos de que vai abrir - em aeroportos e, mais recentemente, em portos.

Amcham: Em relação à falta de mão de obra qualificada, quais as soluções?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
É preciso investir mais em educação e treinamentos. Certamente, esse é um trabalho que deve ser feito pelas empresas e pelos governos. Hoje, há 6% de desempregados no País, mas grande parte não tem a qualificação demandada pelo mercado.

Amcham: Qual é a sua análise sobre a relação Brasil-Estados Unidos?
Luiz Carlos Mendonça de Barros:
O relacionamento bilateral tende a se manter elevado por várias razões. Primeiramente, por uma questão de integração de mercados; em segundo lugar, pelo fato de o investimento americano aqui ser importante, principalmente agora nessa parte de inovações em informática e telefonia móvel. Existe ainda uma série de características culturais muito semelhantes. Hoje, há um grande número de brasileiros comprando imóveis e fazendo turismo nos EUA.