Henrique Meirelles diz que deixa ao próximo governo legado de estabilidade econômica

por mfmunhoz — publicado 02/11/2010 14h21, última modificação 02/11/2010 14h21
Daniela Rocha
São Paulo - Presidente do BC destacou trabalho de controle da inflação e manutenção do câmbio flutuante.
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 O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou nesta quinta-feira (28/10) que deixará como legado para o próximo governo a estabilidade da economia brasileira. Ele aponta como principais componentes dessa herança o sistema de metas de inflação, a regulamentação visando o fortalecimento do sistema financeiro nacional e a manutenção do câmbio flutuante com ampliação de reservas internacionais.

Meirelles participou do comitê estratégico de Economia da Amcham-São Paulo, que reúne grandes economistas e executivos do Brasil. Ao final do encontro, concedeu entrevista coletiva, na qual falou também sobre a atuação do BC para evitar bolha relacionada ao crédito no País, e do governo brasileiro no G-20 em busca de equilíbrio entre as moedas no mercado global. Acompanhe:

Amcham: Na sua avaliação, há risco de formação de bolhas em ativos no mercado brasileiro, olhando um cenário de doze meses?
Henrique Meirelles: O risco existe em qualquer país e compete às autoridades reguladoras tomarem providências para que não aumente de forma não saudável. O Brasil tem estado muito atento e ativo nesse sentido. Uma das conclusões importantes da última crise é que a primeira linha de defesa contra a formação de bolhas são as normas prudenciais. Nos Estados Unidos, havia uma taxa de juros muito baixa durante um período muito prolongado e, ao mesmo tempo, regras prudenciais excessivamente liberais. Já o Brasil tem tido um histórico, principalmente desde a década de 90, de regras prudenciais bastante sólidas e fortalecidas. Algumas regras importantes vêm sendo criadas recentemente – por exemplo, em 2007, quando estabelecemos alocações de capitais mais fortes e rigorosas para qualquer risco de expulsão de moedas dos bancos. Portanto, o Banco Central continua tomando medidas no sentido de não permitir que o mais perigoso dos tipos de bolhas se crie no País, a bolha impulsionada pelo aumento excessivo do crédito, do risco de crédito.

Amcham: Vemos ultimamente alguns comentários sobre a expectativa de expansão menos acelerada do crédito para o setor imobiliário Isso já é reflexo desse tipo de ação do BC?
Henrique Meirelles: O que a imprensa descreve já é um sinal disso porque as regras são de alocação de capital. No momento em que começam a se expandir os riscos de crédito, os bancos têm que alocar mais capital, então existe uma moderação automática. Existe também aquilo que chamamos de regras macroprudenciais, que são aquelas que têm em vista regras sistêmicas ou até mesmo as que não afetam somente o sistema, mas o País como um todo – por exemplo, a constituição de reservas absorve a liquidez externa e cria liquidez no País para enfrentar qualquer reversão da saída de moedas ou a esterilização da liquidez doméstica, o que o Banco Central faz através de compromissadas. Há um conjunto de medidas que visam evitar a eclosão de bolhas.  Contudo, é importante temos alertado isso no mundo inteiro de que políticas monetárias muito expansionistas, como é a americana, geram uma liquidez excessiva que pode levar à formação de bolhas. No caso específico do Brasil, bolhas poderiam ser criadas por excesso de liquidez de moeda externa. Por isso é que estamos esterilizando e colocando regras prudenciais que impeçam que essas bolhas se formem.

 

Amcham: O sr. acredita que pode em um acordo entre os Estados Unidos e a China para tentar buscar equilíbrio de moedas?
Henrique Meirelles: Avalio que existe uma possibilidade. Já foi mencionado por um grande jornal americano um rumor de que teria havido um acordo informal. São negociações em andamento e existe todo um trabalho sendo feito nos diversos fóruns internacionais .O Brasil tem sido muito ativo nisso e haverá um momento muito importante, que será a reunião do G-20 , na Coreia do Sul em novembro, para se avançar um pouco mais nessa direção. Não há dúvida de que o caminho é esse. Evidentemente, porém, enquanto não se chega lá, cada país tem de tomar providências para proteger sua própria moeda – não só a moeda no sentido de taxa de câmbio, mas de uma moeda equilibrada, controlada, um país que não gere desequilíbrios e proteja a economia. Estamos tomando providências para proteger a economia brasileira.

Amcham: O sr. assumiu o Banco Central em um momento de crise no País e, hoje, a situação é positiva. Como estamos chegando ao final deste governo, se tivesse de indicar alguns legados que a atual gestão do BC deixa para a próxima, quais seriam?

Henrique Meirelles:  Em primeiro lugar, um compromisso com a meta de inflação. O Banco Central cumpriu a sua missão determinada pela sociedade, através do Conselho Monetário Nacional, de estabilizar a inflação em torno da meta nestes últimos anos. Em segundo lugar, uma regulamentação do sistema financeiro rigorosa, não permitindo a formação de desequilíbrios e crises financeiras. Em terceiro lugar, a manutenção de um câmbio flutuante com construção de reservas internacionais, o que garante estabilidade na área externa. Em resumo, é o legado da estabilidade da economia brasileira, que é a função básica do Banco Central.