Impossibilidade de materializar desenvolvimento criou senso de urgência para formação de capital humano, na opinião de CEO da PwC

por andre_inohara — publicado 21/09/2012 17h36, última modificação 21/09/2012 17h36
São Paulo – No seminário da Amcham sobre formas de obter crescimento sustentado a longo prazo, proposta de tornar Estado mais eficiente também foi levantada.
seminario_crescer_5_6224.jpg

Mesmo capitalizadas, as empresas brasileiras não crescem no ritmo em que poderiam por conta da falta do capital humano adequado para viabilizar projetos de expansão e criação de tecnologias.

É por isso que formar gente qualificada se tornou fundamental, dizem empresários presentes ao seminário “O que devemos fazer já para crescer 5% pelas próximas duas décadas?”, realizado na última quinta-feira (20/09) pela Amcham-São Paulo.

Veja aqui: Formação de capital humano é maior prioridade para Brasil alcançar crescimento sustentável, mostra enquete da Amcham

“Essa impossibilidade de materializar o progresso que empresas e governo sentem cria um senso de urgência que é positivo. É notória a falta de pedreiros, engenheiros e analistas de sistema. O País está vivendo um surto de crescimento para o qual não estava preparado, tanto na dimensão da infraestrutura como no preparo da mão de obra”, afirma Fernando Alves, sócio presidente da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

Para Alves, o País precisa ser transformado não só pela educação, mas também pela gestão pública. “A prioridade em educação se materializa por uma expressão orçamentária, pela revisão da gestão dos recursos e também na visão de que um Estado forte e indutor de desenvolvimento não precisa ser necessariamente grande.”

Leia abaixo a entrevista de Alves ao site da Amcham, concedida após ele participar do seminário:

Amcham: A falta de mão de obra especializada não é um problema desconhecido no Brasil. O que acelerou o senso de urgência de formação de capital humano, conforme discutido no seminário?

Fernando Alves: Não há, no Brasil, nenhuma empresa importante que não esteja discutindo o que fazer para recrutar mais gente. Simultaneamente, todas estão tendo dificuldades de encontrar gente com qualificação, mesmo com projetos de formação internos. É notória a falta de pedreiros, engenheiros e analistas de sistema. O País está vivendo um surto de crescimento para o qual não estava preparado, tanto na dimensão da infraestrutura como no preparo da mão de obra. Essa impossibilidade de materializar o progresso que empresas e governo sentem cria um senso de urgência que é positivo.

Veja aqui: Investir em educação de qualidade é chave para garantir crescimento de 5% nos próximos anos, apontam economistas e empresários

Amcham: Como as empresas estão suprindo a falta de formação de gente qualificada?

Fernando Alves: Há certa precarização da educação. A quantidade de faculdades que se tem em São Paulo, cerca de 400, já indica isso. Há muito analfabeto funcional tanto do ponto de vista da educação básica como da superior. Quando se encontra um engenheiro, o que está difícil, é preciso dar cursos internos para complementar sua formação. Uma alternativa para ampliar a oferta de mão de obra é reduzir a barreira de imigração. O Brasil se fez com imigrantes e, em um cenário onde precisamos de gente, não podemos contar com eles. Não somos um país densamente povoado, portanto não vejo razão para não criarmos maior flexibilização migratória, a exemplo da Austrália. Essa é uma forma de acelerar nosso desenvolvimento.

Amcham: Facilitar a imigração de profissionais qualificados ajudaria a resolver a escassez atual?

Fernando Alves: Temos que flexibilizar barreiras de imigração. Há profissionais de primeira disponíveis para trabalhar, mas que não podem vir por esse motivo. A falta flexibilidade também é percebida na hora de negociar com os sindicatos. As negociações não levam em conta a produtividade e estamos contaminados por uma superestrutura sindical que, apesar das boas intenções, na prática tem exposto o trabalhador. No mundo, se discute o trabalho flexível e de idosos, por exemplo. Na China, nossa empresa tem milhares de profissionais com sócios aposentados que trabalham lá de três a quatro meses por ano.

Amcham: Nos dois painéis do seminário, houve consenso de que a educação é essencial ao desenvolvimento de longo prazo. Como a sociedade civil pode contribuir para disseminar a importância do tema?

Fernando Alves: De formas diferentes, os dois painéis foram convergentes para a necessidade de focar na educação como vetor fundamental da transformação do País. Nesse processo, também se discutiu a gestão do ente chamado governo. Ele arrecada muito, mas gasta mal. O ponto é a medida como o governo deveria reduzir de tamanho sem reduzir sua força.

Amcham: Poderia dar mais detalhes?

Fernando Alves: Na discussão, priorizamos a educação, sua gestão e o tamanho do Estado. A prioridade em educação se materializa por uma expressão orçamentária, pela revisão da gestão dos recursos e também na visão de que um Estado forte e indutor de desenvolvimento não precisa ser necessariamente grande.

Veja aqui: Alta carga tributária é um dos maiores freios da competitividade do Brasil, dizem empresários