Incentivos a treinamentos e valorização de cursos técnicos são caminhos para formação de profissionais de TI

por daniela publicado 04/08/2011 09h40, última modificação 04/08/2011 09h40
Daniela Rocha
Recife – Medidas para suprir necessidade de mão de obra são defendidas por Ana Maria Souto Maior de Souza Neto, gerente de Capital Humano do C.E.S.A.R, instituto de soluções inovadoras com tecnologia da informação.
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Incentivos fiscais às companhias que investem em treinamentos, nos moldes da Lei Rouanet, e valorização dos cursos técnicos podem ser soluções para a formação de profissionais de tecnologia da informação, setor com atividades aquecidas em Pernambuco. É o que defende Ana Maria Souto Maior de Souza Neto, gerente de Capital Humano do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), instituto privado que cria soluções inovadoras com tecnologia da informação e comunicação para empresas.

Ela participou do evento Competitividade Regional realizado pela Amcham nesta sexta-feira (05/08) em Recife.

Em entrevista ao site da entidade, Ana Maria comentou sobre políticas de retenção de talentos, programas de capacitação e ações governamentais de apoio. Acompanhe:

Amcham: Há disponibilidade de mão de obra na área de Tecnologia da Informação (TI) na região?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
O setor de TI está aquecido na região. Estamos encontrando muita dificuldade para preencher vagas. Está complicado encontrar profissionais capacitados e nossos clientes têm ampliado as solicitações de projetos. Somos uma empresa global que atende muitas multinacionais, mas também corporações nacionais. Temos hoje cerca de 30 vagas que precisam ser imediatamente preenchidas e a previsão é de chegarmos a 100 vagas novas até dezembro. Contamos atualmente com 500 colaboradores, sendo 450 em Recife e o restante nas filiais de Sorocaba (SP) e Curitiba (PR), onde também é complicado achar profissionais. Não é um problema só de Recife.

Amcham: O que tem sido feito para lidar com essa situação?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
Uma das vertentes é a retenção dos talentos. Cada vez mais, trabalhamos para a diminuição do turnover (rotatividade), que nos últimos meses foi de apenas 5%. Para isso, atacamos em vários pontos, principalmente a comunicação. Os gerentes têm acesso todos os meses a informações da empresa – estratégias, projetos, desempenho das vendas e números diversos –, dados que devem ser repassados aos colaboradores. Os talentos são exigentes, querem saber o rumo da empresa. Chamamos esse programa de Conexão. Além disso, toda segunda-feira, circula a revista eletrônica C.E.S.A.R News, com informações semanais sobre prêmios e congressos, além de artigos. Há ainda preocupação com a saúde, com a qualidade de vida dos colaboradores. Oferecemos ginástica laboral, shiatsu e uma sala de convivência onde é possível até tirar um cochilo após o almoço. Além disso, há liberdade quanto ao vestuário. Os funcionários podem usar bermudas e chinelos. Garantimos, dessa forma, um ambiente sem formalidade e um bom clima.

Amcham: Mas a companhia também procura manter uma política de benefícios e remuneração atrativa?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
Estamos sempre atentos aos benefícios. Recentemente, tivemos melhoria nos tickets refeição e no plano odontológico, por exemplo. Mas, logicamente, temos uma política de remuneração. No ano passado, fizemos uma pesquisa salarial nacional, na qual verificamos como estava nosso padrão em relação ao mercado e pela qual concluímos que estamos na média. Há um comitê específico para avaliar e conceder promoções e reconhecimentos de mérito. Outro mecanismo de retenção que posso mencionar é o rodízio, isto é, os engenheiros passam por vários tipos de projetos para que possam aprender novas tecnologias.

Amcham: Como a empresa faz para buscar pessoas no mercado?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
Atuamos fortemente no programa de estagiários junto com as universidades. Então, semestralmente, temos contratado cerca de 20 a 25 estagiários para formação. Eles passam entre um e dois meses em treinamentos sobre as tendências tecnológicas. Alguns são absorvidos, entram como trainees e depois vão fazendo carreira. Outra estratégia é a participação da companhia em eventos externos para divulgar nossas atividades e angariar pessoas. O C.E.S.A.R conta ainda com um programa de residência em software, no qual profissionais selecionados passam onze meses na empresa em treinamentos teóricos e práticos, em parceria com nossos clientes.

Amcham: Os investimentos em treinamentos têm aumentado?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
Com certeza, treinamentos para pessoas que vêm de fora e também para as que estão dentro da organização. Um dos exemplos é o intervalo técnico, realizado às sextas-feiras, no qual engenheiros explicam seus cases a grupos de 35 a 40 pessoas. A aprendizagem é contínua. Recentemente, temos um curso para formação de engenheiros de testes porque temos carência no mercado. Isso tudo é baseado em demandas de projetos que estão surgindo.

Amcham: Na sua avaliação, é necessária maior aproximação das escolas técnicas e universidades com o meio empresarial para que haja adequação das grades curriculares às necessidades do mercado? Ana Maria Souto Maior de Souza Neto: Com certeza. Encontramos muitas dificuldades porque aplicamos testes e fazemos entrevistas técnicas na seleção e, apesar disso, temos de contratar muitos profissionais com formação incompleta. As pessoas, muitas vezes, não têm sequer o domínio das matérias básicas de graduação, entre elas programação. Há necessidade de se fazer uma revisão da grade curricular e, assim, formá-las adequadamente. Se nos preocupássemos mais com uma formação voltada para a demanda de mercado e se houvesse um número maior de parcerias com as escolas e universidades, talvez os currículos fossem mais reais.

Amcham: Uma das propostas mais defendidas pelo setor privado conforme pesquisa da Amcham sobre competitividade é a criação de incentivos fiscais para as companhias que investem em treinamentos, uma espécie de Lei Rouanet. Qual é sua consideração a esse respeito? Ana Maria Souto Maior de Souza Neto: Isso seria importante, com certeza. Se tivéssemos mais recursos e apoio do governo federal, seríamos capazes de formar mais gente com maior velocidade.  Por exemplo, estamos indo para as universidades por iniciativa própria para dar treinamentos aos estudantes sobre temas atuais porque temos a missão de desenvolver o mercado. Esse tipo de iniciativa é importante para aguçar nos alunos a curiosidade e o espírito voltado à inovação.

Amcham: Quais outras medidas poderiam ser implementadas na esfera governamental?
Ana Maria Souto Maior de Souza Neto:
O resgate das escolas técnicas. O favorecimento dessa formação é fundamental.  Outro aspecto é o Ministério da Educação (MEC) ter mais cautela na abertura de cursos dentro das universidades particulares principalmente porque as pessoas que se formam nem sempre estão aptas a assumirem posições nas empresas. É preciso maior exigência em relação às grades e o aperfeiçoamento na formação dos professores.