Incentivos fiscais para empresas que investem em educação podem ampliar projetos

por daniela publicado 19/10/2011 11h53, última modificação 19/10/2011 11h53
Daniela Rocha
São Paulo - Para Carlos Alberto Griner, diretor executivo de RH da Suzano Papel e Celulose, este seria um estímulo a mais para potencializar a capacitação de profissionais no País.
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A criação de incentivos fiscais às companhias que investem em capacitação de mão de obra seria um estímulo para ampliação de parcerias e projetos na área. É o que defende Carlos Alberto Griner, diretor executivo de RH da Suzano Papel e Celulose, que participou nesta terça-feira (18/10) do “Seminário Competitividade Brasil: Custos de Transação – Qualificação da Mão de Obra” na Amcham-São Paulo.

Com plano de expansão ambicioso, que consiste em duas novas fábricas de celulose no Nordeste, uma na cidade de Imperatriz, no Maranhão, e outra em Palmerais, no Piauí, a companhia desenvolveu um consórcio para formação de profissionais.

No evento da Amcham, Griner comentou desafios da organização e do País para que a oferta de trabalhadores qualificados seja adequada ao potencial de crescimento do Brasil. Acompanhe a entrevista que ele concedeu ao site da Amcham:

Amcham: O Brasil já enfrenta problemas com a escassez de mão de obra qualificada?
Carlos Alberto Griner:
Sim. Percebemos dificuldades para recrutar talentos em diversas posições, em especial aquelas que exigem maior qualificação.

Amcham: A Suzano papel e Celulose tem ambiciosos projetos de expansão. Quantos profissionais serão necessários e em que áreas? Quais as dificuldades enfrentadas?
Carlos Alberto Griner:
Esse é um tema sobre o qual temos nos debruçado na Suzano Papel e Celulose e as discussões resultaram em um projeto bastante interessante. Nossos planos de crescimento, recentemente anunciados, incluem o que chamamos de uma nova fronteira para nosso setor. Por questões climáticas, a indústria de celulose e papel está concentrada nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do País. Despois de anos de pesquisa e desenvolvimento de clones de eucalipto compatíveis com o clima do Nordeste, a Suzano anunciou o investimento em duas novas fábricas de celulose, sendo uma na cidade de Imperatriz, no Maranhão, e outra na região de Palmerais, no Piauí. Um dos desafios do projeto refere-se a pessoas. Nossas projeções são de contratação, para a operação, de mil pessoas por nova unidade, considerando todos os níveis de atuação. Se incluirmos nessa conta os profissionais necessários para a construção das fábricas, teremos uma demanda de cerca de 7 mil pessoas por unidade. Esses Estados brasileiros não possuem essa oferta de mão de obra, seja para as posições que exigem mais qualificação, como para aquelas mais simples.

Amcham: Quais as iniciativas da companhia para conseguir preencher essas vagas ?
Carlos Alberto Griner:
Decidimos nos antecipar a essa necessidade e, em parceira com poder público, universidades e empresas locais, além de entidades como o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), desenvolvemos o que estamos chamando de Consórcio de Formação de Pessoas. A partir do consórcio, são oferecidos cursos de qualificação para diversas posições, desde construção civil até técnico em celulose e papel. Incluímos também nessa grade cursos com foco no setor de serviços (por exemplo, garçom, camareira, cabeleireira etc) que, apesar de não estarem dentro da necessidade da companhia, naturalmente, passarão a ser mais demandados com a chegada de um empreendimento das proporções de uma fábrica de celulose com capacidade anual de 1,5 milhão de toneladas.

Amcham: Mas a Suzano tem conseguido contratar e reter profissionais?
Carlos Alberto Griner:
Em razão dos projetos que mencionei anteriormente, estamos em um período de intensa busca por profissionais, em especial aqueles com elevado nível de qualificação. Uma das posições em que encontramos mais dificuldade para recrutamento é a de engenheiro, não só pela qualificação desse profissional, mas também porque entendemos que existe outro pré-requisito importante no processo de seleção: os valores do profissional. Na Suzano, assim como em qualquer empresa, temos foco no resultado. Mas, tão importante quanto “fazer”, é “como fazer”. É com esse olhar que nossa equipe busca novos talentos.  Em razão desse desafio de encontrar profissionais qualificados e alinhados com nossos valores, desenvolvemos um sistema de gestão de pessoas diferenciado, cujo objetivo, entre outras coisas, é atuar na retenção dos talentos que já temos dentro de casa. Entre 2010 e 2011, realizamos cerca de 40 promoções internas frente a 21 contratações de gerentes executivos e diretores. Esses números são reflexo do novo sistema de gestão e desempenho de pessoas. Além disso, foram promovidos internamente seis diretores e 34 gerentes executivos.


Amcham: Como o sr. avalia a qualidade da educação no País?
Carlos Alberto Griner:
Temos gaps importantes, que precisam ser rapidamente tratados. Grande parte dessa responsabilidade é do poder público, mas acreditamos que a iniciativa privada também pode contribuir. Na Suzano, a educação é o centro dos investimentos socioambientais. Entre os principais projetos, está o Programa Educar e Formar, uma parceria com o Instituto Ayrton Senna que, com as prefeituras locais, apoia o aprendizado de crianças do ensino fundamental, investe na melhoria da infraestrutura escolar e promove a leitura. A Suzano é também a principal mantenedora do Instituto Ecofuturo, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) cuja missão é gerar e difundir conhecimento e práticas para a construção coletiva de uma cultura de sustentabilidade. Um dos principais programas do Ecofuturo é o Ler é Preciso, que busca reduzir o analfabetismo funcional e preparar as gerações futuras para o uso crítico da linguagem.

Amcham: Há alguma atuação especial em relação ao ensino profissionalizante?
Carlos Alberto Griner:
Sim. No ensino profissionalizante, contamos com o Formare, uma parceira com a Fundação Iochpe e a Universidade Federal do Paraná (UFPR) que resultou no desenvolvimento de um curso de assistente de operações industriais com ênfase em papel e celulose. São atendidos jovens de baixa renda das comunidades do entorno das fábricas de Suzano (SP), Embu (SP), Mucuri (BA) e Limeira (SP) pertencentes a famílias com renda per capita de meio salário mínimo. São alunos da rede pública cursando 2º ano do ensino médio. Cerca de 54% dos formandos já estão empregados, seja na própria Suzano ou em empresas prestadoras de serviços da nossa indústria.

Amcham: No País, há necessidade de maior envolvimento entre empresas, governos e instituições de ensino?
Carlos Alberto Griner:
Acho que estamos no caminho certo. Existem diversas iniciativas em andamento e já consolidadas e, a cada dia, temos notícias de novas possibilidades. Acredito que esse é o caminho: a união de esforços e expertises.

Amcham: O sr. acredita que poderia ser concedido algum tipo de incentivo às empresas que investem em treinamentos?
Carlos Alberto Griner:
Sem dúvida esse pode ser um passo importante do poder público no estímulo ao desenvolvimento de novas parcerias e projetos com foco em educação. Compensações fiscais para projetos educacionais e, eventualmente, leis de incentivo como as que já existem para cultura e esporte podem ser alternativas a serem avaliadas.