Iniciativa privada estima crescimento do PIB entre 4,5% e 5% no próximo ano

por agrimaldo — publicado 31/10/2010 13h55, última modificação 31/10/2010 13h55
São Paulo - Segmentos representativos da economia demonstraram otimismo na Business Round-Up da Amcham.

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro terá uma expansão entre 4,5% e 5% em 2011 na avaliação de representantes de significativos segmentos da economia - financeiro, de alimentos e bebidas, agronegócio, construção civil, indústria automotiva e tecnologia da informação e comunicações - que participaram nesta quinta-feira (07/10) da "Business Round-Up - Perspectivas 2011", evento promovido pela Amcham - São Paulo.

"Trabalhamos com a perspectiva de que o crescimento do PIB será entre 4,5% a 5% no próximo ano. Há estabilidade no País, cresce o ganho real de salários e existem mais oportunidades de emprego. Acreditamos que o mercado consumidor continuará crescendo, a curva ainda será ascendente, e isso impulsiona o otimismo do setor privado", destacou Julio de Siqueira Carvalho de Araújo, vice-presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Ele lembra que, em 2004, as classes A, B e C representavam 43% da população brasileira e, neste ano, somam 61%, o equivalente a 112 milhões de pessoas, com tendência de continuidade da ampliação.

O crescimento esperado para 2011 ficará abaixo dos 7,5% previstos para este ano no mais recente relatório Focus do Banco Central (BC), divulgado na primeira semana de outubro, ainda incorporando recuperação após o período de crise financeira internacional.

Os especialistas presentes no evento da Amcham acreditam que, em 2011, a inflação ficará entre 4% e 5%, portanto dentro da meta estabelecida pelo BC, e a taxa Selic entre 11,25% e 11,75%. Ainda em relação ao cenário nacional, a Febraban foi a única a arriscar uma estimativa em relação ao câmbio para o final do próximo ano, em torno de US$ 1,80.

"Os planejamentos das empresas para 2011 demonstram ambiente otimista no Brasil e no exterior em relação ao País. No entanto, vale a pena identificar riscos potenciais e os desafios para o crescimento econômico sustentável", ressaltou Ricardo Sennes, sócio da Prospectiva Consultoria, que moderou o evento.

Bancos

A Febraban aponta que a oferta de crédito aumentará aproximadamente 19% em 2011, o mesmo nível de expansão previsto para este ano. "O crédito tem sido responsável por boa parte do sucesso do País", afirmou o vice-presidente da entidade.

Araújo, contudo, apontou preocupação com a elevada carga tributária do País, que passou de 34% do PIB em 2000 a 37% neste ano. "Se essa tendência se repetir na próxima década, a carga atingirá patamares que afetarão negativamente os negócios. Essa questão tem que ser olhada de forma mais séria pelo próximo governo."

Ele sugeriu que, antes de fazer uma reforma tributária, é preciso primeiro realizar ajustes no sistema previdenciário e buscar eficiência fiscal.

Alimentos e agronegócio

A expectativa da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) é de uma ampliação de 4% a 6% nas vendas de alimentos e bebidas em 2011. O setor se prepara com investimentos em ampliações na cadeia, principalmente infraestrutura, na ordem de 20 bilhões neste ano, correspondentes a 6% do faturamento.

"As vendas têm espaço para crescer devido às mudanças de hábitos de consumo, em especial com aumento das refeições fora do lar e da demanda em estabelecimentos de alimentação coletiva - por exemplo, empresas que mantêm refeitórios", disse Amilcar Lacerda de Almeida, gerente do Departamento de Economia, Estatística e Planejamento da Abia.

Ele avalia que o câmbio continuará neutralizando pressões inflacionárias relacionadas às commodities, impulsionadas pelas variações climáticas no mundo.

A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), por sua vez, prevê um salto de 5% para o setor do agronegócio neste ano e, para 2011, afirma ainda não ser possível estimar uma projeção, uma vez que grande parte do plantio no Brasil ainda está no início do processo. O diretor da Abag Luiz Antonio Pinazza aproveitou para comentar a evolução do segmento no comércio global. "Nos últimos dez anos, houve grande inserção do agronegócio brasileiro no mercado internacional, passando as exportações de US$ 20 bilhões para US$ 70 bilhões."

Automóveis

As vendas de veículos no mercado doméstico deverão subir 8% em 2010 em relação ao ano anterior, chegando a 3,4 milhões de unidades. "Ainda é cedo para falar em números para 2011, mas acredito  em um crescimento aproximado de 5,4% a 5,5%", destacou Luiz Moan Yabiku Júnior, vice-presidente da Associação nacional dos fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As maiores preocupações na área estão no comportamento do câmbio, que atualmente tem tirado a competitividade das exportações, e da taxa de juros, que não pode subir a ponto de comprometer o financiamento dos veículos. "Nesse mercado, vale a máxima de que as prestações precisam caber no bolso do consumidor."
 
Construção Civil

Após crescer apenas 1% em 2009, em função da turbulência na economia global, a construção civil no País espera ter um avanço de cerca de 11% neste ano, movimento positivo que deverá prosseguir em 2011. "Há ainda uma demanda reprimida por imóveis no País e o déficit habitacional é alto. O setor de infraestrutura também vem recebendo mais investimentos. O segmento gerará muitos postos de trabalho nos próximos anos", considerou Sérgio Watanabe, presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon).

De acordo com ele, desde 2004, o segmento vem ganhando fôlego, após ter vivido 20 anos de estagnação. A estabilidade econômica, avanços no arcabouço jurídico e no funding são fatores que levaram a essa tendência positiva.  

Questionado sobre uma eventual bolha de crédito, Watanabe garantiu que o risco é nulo porque há um movimento de maior renda por parte da população; os mecanismos de concessão de financiamento são rígidos e a proporção da oferta de recursos em relação ao Produto Interno Bruto ainda é modesta. "Enquanto no Brasil o crédito imobiliário representa 3% do PIB, no Chile são 15%, na Espanha, algo perto de 30%, e nos Estados Unidos, parcela superior a 100%", explicou Watanabe.

Tecnologia da informação

O volume de negócios do setor de Tecnologia da Informação (TI) e comunicações brasileiro deverá ter um incremento de 12% a 13% em 2011, acima dos níveis tradicionais de 8% a 9% anuais. "Deveremos movimentar no biênio 2010-2011, algo em torno de US$ 44 bilhões" comentou Nelson Wortsman, diretor de Convergência Digital da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom).

O especialista enfatizou que Brasil tem um potencial grande, é hoje o oitavo maior mercado interno de TI do mundo. Já no mercado externo, apesar de muitas oportunidades, o País seguirá defasado em relação aos Brics e aos principais concorrentes da América Latina enquanto prevalecer um quadro de real apreciado e elevados encargos trabalhistas.

Wortsman revelou ainda que as empresas estão tomando a iniciativa de treinar profissionais porque o gap de mão de obra - emgenheiros e técnicos - já é uma realidade, com 70 mil vagas em aberto.