Iniciativa privada tem cumprido papel de investir no que traz retorno, avalia presidente da ADM do Brasil

por marcel_gugoni — publicado 06/08/2012 16h09, última modificação 06/08/2012 16h09
São Paulo – Para Valmor Schaffer, investimento pesado em infraestrutura é função do governo.
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O empresariado do agronegócio tem cumprido seu papel de investir e aposta no que tem mais potencial de retorno. Para Valmor Schaffer, presidente da processadora de alimentos ADM do Brasil, os produtores brasileiros “estão vivendo o melhor momento da agricultura nacional dos últimos cem anos” graças aos esforços próprios.

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“Temos uma geração de businessmen rurais e empresas comerciais que se expandiram nos últimos anos e estão sólidas. E temos uma terra sensacional, com solo fértil e composição física apropriada à agricultura”, afirmou ele, após participar do evento ‘Competitividade Setorial – Agronegócios’, realizado pela Amcham-São Paulo na última sexta-feira (03/08).

O Brasil é líderes em exportação de carnes, de soja, de açúcar e de café. Segundo uma pesquisa divulgada em 2011 pelo ministério da Agricultura em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o País tem potencial para produzir 175,8 milhões de toneladas de arroz, feijão, soja, milho, trigo e outros grãos até a safra de 2020-21. O número colocaria o Brasil na liderança da produção.

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“Mas acho que isso vai demorar para acontecer ainda mais se o governo não fizer investimentos na área de infraestrutura. Na parte mais pesada, só o governo pode investir. Esse tipo de gargalo é uma limitação grave”, afirmou. “À iniciativa privada cabe a construção de terminais de carga e de sistemas de armazenagem, por exemplo, enquanto ao governo resta a construção de estradas e ferrovias mais longas, linhas de energia e outros.”

Leia os principais trechos da entrevista com Valmor Schaffer:

Amcham: Qual dos problemas é mais preocupante para a agricultura do Brasil?

Valmor Schaffer: Entre os envolvidos no agronegócio, a maior parte sempre reclama da logística. A recessão da infraestrutura para a logística é o mais grave porque falta um modal eficiente de transporte. No momento, é necessário um grande investimento em ferrovias, hidrovias e rodovias, nesta ordem. Sem resolver estas questões primordiais, o caminho é de crescimentos marginais decrescentes ao setor. Ter 66% do transporte baseados em caminhão é jurássico. Temos uma legislação laboral que mostra uma carga cada vez mais pesada. Precisamos também simplificar a legislação tributária e fiscal, visto que uma empresa como a nossa tem até 60 pessoas para tomar conta da complexidade da área fiscal. É simples para o governo fazer uma reforma neste sentido.

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Amcham: O governo brasileiro acredita que o País pode se tornar o maior produtor de alimentos do mundo até 2020. Com esse tipo de gargalo, como fica essa tarefa?

Valmor Schaffer: Acho que isso vai demorar para acontecer ainda mais se o governo não fizer investimentos na área de infraestrutura. Na parte mais pesada, como estradas e ferrovias, só o governo pode investir. Esse tipo de gargalo é uma limitação grave. Pegue o caso dos fertilizantes hoje: os fabricantes esperam, em média, cinco dias para descarregar nos portos. É necessário que o governo se some à iniciativa privada para investir nas principais necessidades.

Amcham: E qual o papel da iniciativa privada nesse contexto?

Valmor Schaffer: Ela tem feito seu papel de investir no que faz sentido para ela, o que traz retorno. Há uma tremenda capitalização no campo. Temos uma geração de businessmen rurais e empresas comerciais que se expandiram nos últimos anos e estão sólidas. E temos uma terra sensacional, com solo fértil e composição física apropriada à agricultura. Somos líderes em exportação de carnes e de soja. Na soja, já alcançamos um resultado excepcional, ultrapassando os EUA em termos de produtividade. O mesmo ocorre com o açúcar e o café. Temos participação crescente [na exportação de] milho, mas ainda temos metade da produtividade americana, então existe um espaço tremendo de incremento de produção sem precisar de novas áreas. Onde o Brasil conseguiu avançar em agricultura é líder ou vice-líder mundial. Quem está na raiz disso é o produtor brasileiro. Por isso vejo grande potencial para aumentar a área agrícola. Os exportadores atingiram capacidade de avaliação de negócio bastante elevada. Porém, temos um problema que é o gargalo portuário, que complica as exportações. Quando se trata de um investimento em linhas elétricas e expansão de espaços portuários, isso é papel do Estado. A iniciativa privada tem feito muito, mas o governo pode e deve fazer mais. À iniciativa privada cabe a construção de terminais de carga e de sistemas de armazenagem, por exemplo, enquanto ao governo resta a construção de estradas e ferrovias mais longas, linhas de energia e outros.

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Amcham: A partir dos debates vistos no seminário da Amcham, qual a mensagem que fica aos empresários do agronegócio?

Valmor Schaffer: O cenário é positivo e os gargalos são coisas com as quais qualquer um tem que lidar. Creio que vamos ter um crescimento forte na agricultura pelos próximos dez ou 15 anos no Brasil. E para os produtores, vejo que muitos fizeram por merecer [os retornos e lucros vistos nos últimos anos, dado o aumento nos preços das commodities, a expansão das áreas de plantio e o avanço do crédito aos produtores]. Eles estão vivendo o melhor momento da agricultura brasileira dos últimos cem anos.