Inovação é fundamental para a sobrevivência das pequenas e médias empresas, ressalta dirigente da Anpei

por andre_inohara — publicado 20/08/2012 10h20, última modificação 20/08/2012 10h20
São Paulo – De acordo com Guilherme Marco de Lima, no Brasil, somente cerca de 4% das companhias conseguem inovar; montante é insuficiente para defender o mercado nacional de concorrentes estrangeiros mais sofisticados.
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Inovar é uma questão de continuidade do negócio para as pequenas e médias empresas (PMEs) nacionais, o que aumenta a urgência de esforços coordenados entre governo e sociedade para agilizar o desenvolvimento tecnológico.

“O mercado local não existe mais, ele é global. Uma pequena empresa no interior de São Paulo não compete com as similares da região, mas com concorrentes internacionais que cada vez mais vão trazer impacto ao mercado”, argumenta Guilherme Marco de Lima, vice-presidente da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras).

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Lima foi um dos debatedores do seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado em 16/08 pela Amcham-São Paulo, e falou ao site da Amcham após o evento. Leia os principais trechos da entrevista:

Amcham: Na sua avaliação, como o tema da inovação tem sido tratado no Brasil?

Guilherme Marco de Lima: Quando se fala em inovação, temos que entender que ela é fundamental. Isso parece trivial, mas não é. Significa empresas, governo e sociedade olharem para esse tema em médio e longo prazos com visão integrada, o que a torna mais eficiente. Esse é o primeiro ponto. O segundo é a integração entre universidade e empresa. Hoje o Brasil forma anualmente em torno de 10% de profissionais de engenharia e ciências duras, ao passo que a China forma quase 40%. Mesmo que olhando o tema de forma relativa e não de maneira absoluta, a China é maior que o Brasil. Além disso, a formação de talentos potenciais para a inovação em outros países é muito maior que no Brasil. Ou seja, integrar universidade e empresa para gerar talentos, além de conhecimentos, é um ponto importante.

Amcham: No seminário, foi sugerida uma integração maior entre os agentes de fomento à inovação – entidades públicas, universidades e setor privado. Como isso poderia ser feito em curto prazo?

Guilherme Marco de Lima: Esse é outro ponto importante, integrar empresa com governo. Isso está muito atrelado ao risco porque inovação tem risco e é natural que tenha. O risco técnico conseguimos [mitigar] interagindo com a universidade, mas o risco financeiro da inovação necessita trazer instrumentos [de financiamento] com mais visão de médio e longo prazos e políticas de Estado para inovação, que não sejam programas específicos de dois ou três anos que ora existem, ora não. Em outro processo fundamental, o INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial] entra no final. Quanto mais inovar e conseguir desenvolver coisas diferenciadas, maior será nossa capacidade de gerar conhecimento e protegê-lo através de patentes. Fortalecer o INPI significa dar vazão à capacidade de inovar do Brasil.

Amcham: Como apoiar uma cultura de inovação nas PMEs?

Guilherme Marco de Lima: Fomentar e acelerar a inovação nas PMEs passa por mobilização da promoção comercial [do lado do governo], mas também pelo entendimento das empresas de que, hoje, se elas não inovarem, vão morrer. O mercado local não existe mais, ele é global. Uma pequena empresa no interior de São Paulo não estou compete com as similares da região, mas com concorrentes internacionais que cada vez mais vão trazer impacto ao mercado. Exemplo disso são os numero do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] de que 4% das empresas brasileiras inovam a nível nacional. Veja que isso não representa nada, pois só 4% conseguem se defender em nível nacional, e nem mencionei no ambiente internacional. As PMEs têm que nascer com a inovação como pilar fundamental e enxergar que fazem parte da gestão assim como RH, planejamento estratégico e financeiro. É um caminho para a maior competitividade no futuro.

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Amcham: Qual é a vocação tecnológica do Brasil?

Guilherme Marco de Lima: Temos, sim, uma série de vocações tecnológicas enquanto nação, mas creio que o Brasil está em um estágio anterior, em que é preciso fortalecer a base. Existe uma série de ações transversais e não setoriais que devem ser atacadas, como melhorar a capacidade de as empresas inovarem, e as engenharias produzirem conhecimento e nanotecnologia, o que permeia não só um setor, mas diversos. Também a questão da capacidade de melhorar a produtividade e uma série de ações transversais que têm que ser endereçadas para revisão, antes de elegermos um setor A, B ou C. Isso não significa que não seja possível enfatizar a biodiversidade e algumas áreas como o pré-sal, mas temos um dever de casa bem grande pela frente, que é anterior a isso. Tem que haver o fortalecimento da base como um todo, e não só 4% das empresas inovarem a nível nacional. As outras 96% têm que inovar também e, a partir daí, eleger alguns temas estratégicos.

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