Integração comercial na América Latina não vive um “grande momento”, segundo embaixador Azambuja

publicado 15/08/2016 10h17, última modificação 15/08/2016 10h17
São Paulo – Entressafra de projetos agregadores e falta de liderança são os principais fatores
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“A integração comercial da América Latina entre si e com o mundo não está vivendo um grande momento. Até o Brasil por a casa em ordem e a Argentina apresentar um desempenho consistente, não vejo nenhum país liderando ou tendo uma visão extraordinária de aproximação.” A afirmação do embaixador Marcos Azambuja, atual conselheiro do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), feita no seminário de Integração Comercial e de Investimentos na América Latina da Amcham – São Paulo na sexta-feira (12/8), demonstra a falta de países interessados em intensificar o fluxo de comércio e investimentos na região.

O embaixador debateu o tema ao lado de Ingo Plöger, presidente internacional do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL), Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultoria e presidente do comitê de Comércio Exterior da Amcham, e Eduardo Viola, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Rafael Benke, presidente do conselho curador do CEBRI, foi o moderador das discussões.

Até mesmo países com economias mais dinâmicas na região, como Colômbia, Peru ou México não tem demonstrado interesse em uma maior aproximação comercial no continente, de acordo com Azambuja. “A prioridade desses países está no TPP (sigla em inglês para Parceria Transpacífico). Para eles, a modernidade está lá.”

Em relação ao Mercosul, Azambuja disse acreditar que a atuação do bloco não mudará significativamente em curto prazo. “O mérito do bloco é mais político e social do que econômico, integrando países que viam com desconfiança a ideia de abertura. E o Mercosul não vai acabar”, afirma.

Um passo importante para que haja maior integração comercial é costurar acordos de convergência regulatória, segundo Plöger. “O Brasil entendeu isso e começou a negociar o tema com os EUA no ano passado. Hoje estamos discutindo acordos semelhantes com o México, Peru e Colômbia.”

O executivo disse que a América Latina tem um mercado consumidor de 570 milhões de habitantes e PIB de nove trilhões de dólares. O alto potencial da região precisa ser mais bem explorado por seus integrantes, e a chave é a criação de regras padronizadas de comércio, especialmente no Brasil. “Veja o caso do etanol, onde temos dez instituições que regulam o produto. Como vamos negociar lá fora, se não tivermos coerência regulatória?”, indaga.

Para Barral, as relações na América Latina sempre terão alguma dose de conflito, mas que tendem a ficar mais fortes com o tempo. “A mudança de governo no Brasil e Argentina trouxe uma predisposição maior de ambos os países para negociar acordos de facilitação de comércio dentro da região, no âmbito do Mercosul.”

Analisando a questão do ponto de vista cultural, Viola disse que a mentalidade econômica que predomina no Brasil tem que mudar. “Ela é muito paternalista e estatista, ou seja, espera que o Estado dê as soluções. Mas sem substituir essa visão por um pensamento mais voltado ao desenvolvimento de competências de mercado e empreendedorismo, fica difícil mudar.”