Logística continua sendo principal barreira ao agronegócio na cadeia global de valor

publicado 12/08/2015 15h40, última modificação 12/08/2015 15h40
São Paulo – Mosaic, Hamburg Süd, Ourofino e DuPont discutem soluções para o setor no Seminário Agronegócio
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Logística mantém a liderança no ranking de entraves ao agronegócio brasileiro, afirmam os executivos da Mosaic Fertilizantes, Hamburg Süd, Ourofino e DuPont.

Impostos, regulação e ausência de seguro rural também emperram o setor, na opinião dos convidados do Seminário Competitividade Setorial – Agronegócio da Amcham – São Paulo, na quarta-feira (12/08). O evento também contou com o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues (leia mais aqui).

Floris Bielders, presidente da Mosaic Fertilizantes, está há poucos meses no Brasil. Ele avalia que o potencial do país é mais importante do que os problemas e que as atuais dificuldades econômicas do setor se referem mais ao contexto global do que ao interno. Mas o executivo já conseguiu identificar que o principal entrave do agronegócio vigora há muito tempo.

“Logística é a principal preocupação dos clientes; 90% dos embarques são por caminhão, enquanto nos EUA são mais por ferrovias”, compara, argumentando que a dependência do modal aumenta o custo e reduz a competitividade.

Exportações do Mato Grosso para a China custam US$ 45 dólares a mais que no trecho Iowa-China, comenta o executivo. Considerando a falta de capacidade de investimento público nessa área, ele acredita que a saída é o governo diminuir a burocracia para permitir ação da iniciativa privada.

“Não se deve contar apenas com o governo, não é o correto. É preciso contar com o setor privado”, declara.

Julian Thomas, diretor superintendente da Hamburg Süd, também cobra regulação adequada aos investimentos privados em logística. Ele conta que, de 1990 para cá, a capacidade média dos navios passou de 1.700 para 9 mil contêineres de 20 pés. “A indústria marítima investiu para aumentar a escala, que é o segredo da logística. o problema é que os portos e toda a infraestrutura não acompanharam esse ritmo”, relata.

A regulação também é embaraço, segundo Judd O’Connor, presidente para a América Latina da DuPont, e Dolivar Coraucci Neto, CEO da Ourofino Saúde Animal.

“A economia é o que é, sobe e desce no mundo todo. Vamos sair desse ponto no Brasil, mas temos que navegar num arcabouço regulatório, que dificulta a entrada de novas tecnologias”, diz O’Connor.

Coraucci, da Ourofino, afirma que os gastos com sanidade do rebanho são de 2% a 3%, mais baixos que nos demais países, de até 7%. Falta entendimento dos produtores sobre o assunto, opina o executivo, mas sobretudo regulação. “Precisamos de um marco regulatório que mude nosso status sanitário para fazermos marketing disso, até que o mundo entenda que pode comprar nossos produtos”, explica. O aumento do investimento em sanidade, segundo ele, aumentaria muito a produtividade na produção pecuária.

Economia e política

Bielders da Mosaic destaca, ainda, a ausência de seguro rural, o que penaliza a produção. Sobre o momento político-econômico por que passa o país, ele instiga a fazer análises técnicas para dar base às decisões de corte de custos. “O produtor precisa usar a lógica e não a emoção. O ambiente atual é preocupante e eles cortam investimento em tecnologia. No fim, vão pagar mais caro por isso”, estima.

O ex-ministro Roberto Rodrigues lembra que os principais entraves ao agronegócio passam por decisões de outros ministérios, como os dos Transportes (logística), Portos (portos), Fazenda (crédito), Itamaraty (acordos comerciais) e Minas e Energia (energia). “Os instrumentos da política agrícola não estão com a pasta da Agricultura. Então precisa de uma estratégia de Estado, não de governo”, defende.

Para ele, o mau momento da economia não paralisou o país. “A estrada está cheia de caminhão, então a economia está andando. E agosto não é período de caminhão rodar com produto agrícola”, explica.

No entanto, diz o ex-ministro, a crise ética imobiliza o governo, o que cria perturbações no empresariado. “Estamos batendo na trave para perder o grau de investimento. Se continuarmos nessa briga intestina, vamos perder o grau de investimento”, avisa.