Luiz Fernando Furlan: “grande agenda do Brasil é a competitividade”

por daniela publicado 04/07/2011 10h45, última modificação 04/07/2011 10h45
Daniela Rocha
São Paulo - Para ex-ministro do Desenvolvimento, País precisa combater uma série de deficiências para a economia crescer com mais vigor.
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Para o ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan, o Brasil precisa concentrar todos os seus esforços no combate de deficiências que atualmente reduzem sua competitividade no cenário global. Ele avalia que a presidente Dilma Rousseff está sensibilizada com essa visão e tem agido corretamente.

Furlan participou da comemoração do aniversário de independência dos Estados Unidos, realizada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil antecipadamente na última sexta-feira (01/07) na sede da Amcham em São Paulo.

Ele preferiu não comentar sobre o julgamento da fusão Sadia-Perdigão pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e sobre a possibilidade de fusão do Pão de Açúcar e do Carrefour no Brasil.

Em entrevista ao site da Amcham, Furlan destacou a agenda prioritária para o Brasil, falou sobre inflação e também fez considerações sobre a relação Brasil-Estados Unidos, incluindo a aprovação da eliminação do subsídio aos produtores de etanol americanos pelo Senado americano, medida que ainda não é definitiva, pois depende de votação na Câmara dos Deputados e sanção do presidente Barack Obama. Acompanhe:

Amcham: Qual é a sua percepção sobre a economia brasileira? A inflação está em nível preocupante?
Luiz Fernando Furlan: A economia brasileira vai muito bem. Desde abril, sentimos uma redução da velocidade da demanda, o que é convergente com todos os esforços do governo. Tenho a impressão de que o pior da inflação já passou, os números de junho já mostram isso concretamente e, provavelmente, teremos um segundo semestre mais tranquilo, mas ainda com crescimento moderado. Passarei o quatro de julho (dia da independência americana) nos Estados Unidos e tenho conversado com muitos americanos nos últimos dias. Vejo que há um grande contraste entre o ânimo das pessoas no Brasil e a preocupação lá. Felizmente, aqui as empresas continuam investindo, apesar de o País apresentar carências em muitas áreas.

Amcham: Como está o País em relação à sua competitividade no cenário global?
Luiz Fernando Furlan:
O Brasil é como um maratonista que corre com uma mochila cheia de pedras. Refiro-me às pedras do custo financeiro, da carga tributária, da burocracia e das deficiências da educação e da infraestrutura. À medida que esses assuntos forem resolvidos, o atleta vai ficando mais ágil para competir. Então, a grande agenda do Brasil hoje é a competitividade e acho que a presidente Dilma Rousseff está certa de eleger essa prioridade.

Amcham: Na sua avaliação, relação entre Brasil e EUA tem se fortalecido?
Luiz Fernando Furlan:
Acho que a vinda do embaixador Thomas Shannon é positiva. Na semana passada, estive com ele na Universidade de São Paulo e foi a primeira vez que vi um embaixador americano fazendo uma palestra em português e sendo perfeitamente entendido. O cônsul Thomas Kelly também fala PPortuguês. Isso representa uma mudança no tipo de aproximação dos EUA em relação ao Brasil e também demonstra que há uma percepção de descolamento do País daquela fórmula de América do Sul. Essa postura vejo também nas empresas. A importância do mercado brasileiro para as companhias americanas passou a ser muito relevante. Para algumas companhias, o País é o segundo ou terceiro maior mercado mundial. A Intel, por exemplo, informa que o Brasil será o quarto maior mercado mundial de computadores a caminho de ser o terceiro, ultrapassando o Japão.

Amcham: O Brasil tem aproveitado oportunidades advindas da aproximação com EUA?
Luiz Fernando Furlan:
Diferentemente do passado, cada vez mais as companhias brasileiras estão investindo nos Estados Unidos. São muitos artigos na mídia dizendo que o boom imobiliário da Flórida tem a ver com os brasileiros. Recebi um e-mail de um empresário que comprou recentemente uma empresa do setor de Tecnologia da Informação nos EUA e já conta com mais três mil funcionários. Além disso, há Gerdau, Votorantim, Vale  e Petrobras, e outras tantas do setor de carnes, que têm operado no mercado americano. Deixou de ser uma via de mão única e passou a ser de mão dupla. O embaixador Shannon entende perfeitamente esse bom momento. Acredito que a própria ida da presidente Dilma aos EUA no segundo semestre será uma grande oportunidade no caminho de estreitamento dessa relação.

Amcham: Qual é a análise do sr. a respeito da eliminação dos subsídios aos produtores americanos de etanol que foi aprovada no Senado dos EUA?
Luiz Fernando Furlan:
Acho que essa aprovação é um bom começo, mas mesmo se o subsídio vier mesmo a ser eliminado, não acredito que surtirá algum efeito prático no curtíssimo prazo porque os subsídios colocaram a produção americana acima da dos brasileiros. Trata-se, contudo, de uma boa sinalização porque agora a discussão está saindo da esfera emocional para se basear no potencial dos dois maiores mercado de etanol, que devem ter políticas semelhantes.