Na indústria, temos que sair da saca de café e entrar na era do robô, diz diretor da FINEP

publicado 26/07/2017 11h36, última modificação 10/08/2017 16h27
São Paulo – Para o diretor Márcio Girão, Brasil tem condições de dar saltos tecnológicos rumo à informatização das fábricas
Forum Industria 4.0

Da esq. para a dir.: Marcos Troyjo (Columbia University), Márcio Girão (FINEP), Fernando Pimentel (ABIT) e João Alfredo Saraiva Delgado (Abimaq)

O Brasil precisa e tem condições de investir em inovação industrial para deixar de ser essencialmente um exportador de commodities do mercado internacional, na opinião de Márcio Girão, diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa pública de incentivo à pesquisa tecnológica.

“Não se pode postergar o investimento em inovação, porque a nova revolução industrial é feita com ela. Então fica a provocação: será que o principal papel do Brasil é produzir commodities, como o café, e continuar sendo uma indústria de extrativismo? O grande desafio do nosso país é sair da saca de café e ir para a era do robô”, disse, no Fórum Indústria 4.0 da Amcham – São Paulo na quarta-feira (19/7).

Girão foi um dos painelistas do fórum, ao lado de João Alfredo Saraiva Delgado, diretor de tecnologia da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), e Fernando Pimentel, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT).

De acordo com o especialista, o Brasil está dois degraus abaixo do que se pratica de mais moderno em termos de produção industrial. Enquanto o mundo desenvolvido aplica conceitos de internet das coisas e computação em nuvem para atender demandas cada vez mais customizadas a custos menores (a chamada Indústria 4.0), o estágio atual da indústria brasileira ainda é o de produção em massa não automatizada (Indústria 2.0). “Estamos na Indústria 2.0 e não vamos para a 3.0 (produção robotizada). Temos que passar direto para a 4.0”, observa.

Para atingir esse patamar, o setor privado vai precisar investir mais em robótica, sistemas de controle baseados em sensores, realidade aumentada, impressão 3D para modelagem e produção, processamento e armazenamento de dados em nuvem (big data), redes sem fio de última geração (5G) e segurança de dados de alta capacidade.

Um programa nacional de modernização industrial pode colocar o país no rumo da Indústria 4.0, defende Girão. “É possível fazer isso. Basta que você coloque sensores nas máquinas de comando numérico. E trazer empresas que façam essa transformação. Esse talvez seja o melhor caminho para o Brasil no momento.”

Outras medidas recomendadas por Girão para acelerar o desenvolvimento industrial brasileiro são o mapeamento de potencial tecnológico do país, colaboração estrita entre universidades e empresas e mais apoio governamental em projetos de inovação.

Uma das vantagens que o Brasil possui para desenvolver a Indústria 4.0 é o talento dos profissionais brasileiros e a capacidade de trabalhar em equipe, cita Delgado, da Abimaq. “Na China e na Europa, por exemplo, as equipes têm dificuldade de interagir em grupo”, exemplifica.

No setor têxtil, o uso de tecnologias como internet das coisas e impressão em 3D abrem possibilidades de aumentar vendas, produtividade. De acordo com Pimentel, da ABIT, o varejo online de vestuário tem maior volume de transações que o físico, mas não é necessariamente o que gera maior valor. “Nos EUA, mais de 10% de vestuário é comprado online, enquanto que no Brasil, é 3%. Mas crescemos a uma velocidade de dois dígitos”, destaca.

Para ele, a tecnologia pode contribuir com a produção fabril por meio de customização e ganhos de eficiência, possibilitando oferecer preços competitivos no mercado nacional e internacional. “É um objetivo factível de se alcançar com tecnologia”, disse.

Também é possível minimizar os impactos ambientais da cadeia têxtil, acusada de empregar trabalho intensivo e pagar mal e poluir o meio ambiente. “Tecnologias de reaproveitamento de resíduos por meio de economia circular fazem parte do novo ambiente”, acrescenta.

 

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