Novo governo demonstra seriedade fiscal, avalia economista

por giovanna publicado 13/01/2011 18h17, última modificação 13/01/2011 18h17
Andre Inohara
São Paulo – Controle de gastos, política monetária alinhada com metas de inflação e avanços regulatórios sinalizam início “melhor que o imaginado”, segundo estrategista do banco WestLB.
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A intenção anunciada pelo novo governo de controle de gastos, ao lado de sinalizações de uma política monetária mais convergente para as metas de inflação e de avanços na questão regulatória, prenuncia um começo sério e “melhor do que o imaginado”, na opinião do estrategista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani.


“Vejo uma clareza no entendimento de que moderar o ritmo de gastos é importante para permitir taxas de juros mais baixas e crescimento econômico maior”, disse Padovani, em entrevista após participar do comitê estratégico de Finanças da Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (13/01).

 

Para o economista, o governo está disposto a controlar gastos “ainda que de forma modesta” e, nesse sentido, uma de suas linhas de atuação deverá ser reduzir a previsão de dispêndios entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões em relação à previsão anterior de aumento de despesas para 2011.


No início de dezembro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou em linhas gerais que o Governo Federal pretende reduzir os gastos de custeio diminuindo subsídios fiscais e evitando novas despesas. O tamanho do ajuste será definido pelo Ministério do Planejamento e pela Secretaria do Tesouro Nacional, envolvendo todos os ministérios e até mesmo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Em relação à política monetária, o governo deve elevar a taxa de juros e, com isso, “reforçar o compromisso com metas”, destacou Padovani. Ele avalia que o Banco Central deve elevar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual na próxima reunião, em 27/01. Atualmente, a Selic está em 10,75% ao ano. “O ciclo de alta do juro sugerido no último Relatório de Inflação (em dezembro de 2010) deve ser de 1,5% (até dezembro de 2011)”, afirmou.

Padovani também apontou indícios de avanços significativos na questão regulatória percebidos neste início de mandato. “A criação de regras mais claras no setor de aeroportos para atrair investimentos privados demonstra a intenção do governo de superar gargalos que existem na economia.”

Real ainda em alta

Conforme o economista, a criação recente de um compulsório para o mercado de câmbio pode não ser capaz de alterar profundamente a trajetória de valorização do real, mas sinaliza que o governo está atento a questões cruciais da economia.

Mesmo assim, a tendência persistente de valorização da moeda brasileira em relação ao dólar é um agravante para a economia, pois barateia as importações e encarece as exportações. As medidas recentes que o Banco Central adotou só retardarão a tendência de apreciação do real, segundo Padovani.

Quando o governo baixa medidas como aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre capital estrangeiro, elevação do nível de compra de dólares no mercado à vista e estabelecimento de limites sobre as posições vendidas de dólares no mercado cambial, os impactos tendem a ser temporários, avalia o estrategista.

“Os motivos (para a depreciação do dólar) são globais e não locais. Por isso, há essa tendência de surgir uma moeda (de referência) mais fraca”, justificou. Isso porque países ricos como os Estados Unidos devem enfrentar por muito tempo ainda os impactos negativos da crise financeira de 2008 e várias nações da Europa se veem diante de dificuldades fiscais, o que restringe a atividade econômica mundial.

Projeções do WestLB apontam que o dólar fechará a R$ 1,60 em 2011 versus R$ 1,69 em 2010. São estimativas mais conservadoras que as do mercado, de R$ 1,75 e R$ 1,80, respectivamente. A apreciação do câmbio também se dará por conta do fluxo positivo de capitais estrangeiros no País, afirmou Padovani.  “Os fundamentos explicam a apreciação, e o governo tenta suavizar esse movimento.”

Competitividade em xeque

Para o estrategista do WestLB, com produtividade baixa e custos crescentes de produção, a economia brasileira está ficando menos competitiva e terá dificuldades adicionais para defender seus mercados externo e interno da concorrência. Padovani considera que a competitividade é hoje o tema principal do País, em um momento em que “o câmbio se aprecia e cada vez mais os chineses competem na América Latina”, observou.

O despreparo da mão de obra e as elevadas taxas internas de juros – que desestimulam investimentos produtivos – são as principais causas da baixa produtividade, disse Padovani.

“Outro problema são os gargalos de infraestrutura, que fazem com que os custos de produção sejam elevados”, acrescentou ele, em linha com o projeto “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham. Para Padovani, esses custos só tendem a aumentar, pois ainda “há problemas de energia, mão de obra e, principalmente, logística”. De acordo com o banco WestLB, a produção industrial deste ano deve subir 3%, bem abaixo da projeção de mercado de 5,03% registrada no boletim Focus do Banco Central de 07/01.

Embora o parque industrial brasileiro seja capaz de atender a grande parte da demanda de crescimento local, é a grande vítima da baixa competitividade, de acordo com o estrategista.