Novo presidente terá que lidar com Congresso mais conservador, diz diretor do Eurasia Group

publicado 26/10/2018 08h31, última modificação 26/10/2018 10h53
São Paulo – Boa parte dos congressistas que votaram reformas não foi reeleita, detalha Christopher Garman

Seja quem for o presidente eleito, a relação com o Congresso será difícil. E não é apenas por causa da forte oposição. Se Jair Bolsonaro (PSL) confirmar nas urnas a liderança das pesquisas, vai encontrar um Legislativo com perfil menos reformista. É o mesmo cenário que espera por Fernando Haddad (PT), caso vença. Com o agravante de que terá que lidar com a crise de confiança enfrentada pelo seu partido.

Essa é a avaliação de Christopher Garman, diretor-executivo da consultoria Eurasia Group para as Américas, no comitê estratégico de CEOs & Chairpersons da Amcham-São Paulo (24/10) sobre o cenário pós-eleitoral.

De acordo com as projeções da consultoria, Bolsonaro tem 85% de chances de vitória. “Teremos um presidente (Bolsonaro) com uma lua de mel curta (com a opinião pública) e uma base parlamentar heterogênea, uma vez que ele não estará disposto a usar cargos e verbas (para conquistar aliados). E um perfil de Congresso um pouco menos reformista, embora seja mais conservador”, detalha Garman.

No caso de vitória de Haddad, o consultor avalia que a relação com o Congresso será mais complicada. “Diria que é mais difícil para o PT, que entra com uma crise de confiança maior, e a composição de ajuste fiscal proposta, de aumento de carga e menos controle de gasto. A relação será mais contenciosa com o Congresso.”

Desafios de Bolsonaro

Bolsonaro é o preferido da maioria do eleitorado, por ser visto como uma liderança fora dos meios tradicionais e adotar um discurso duro contra a corrupção e o clientelismo político. Para Garman, o discurso do candidato deve ser levado a sério.

“O primeiro desafio é que Bolsonaro deve ser eleito com uma plataforma de mudar a forma tradicional de fazer política. É uma promessa de não fazer o ‘toma lá dá cá’, de não distribuir cargos e verbas para maximizar a base de apoio no Congresso. Do nosso ponto de vista, eu levaria essa promessa a sério”, comenta.

Pelas contas do Eurasia, o Congresso será mais fragmentado. “Se somar os partidos mais conservadores de direita e nanicos, a base chegará a 106 parlamentares. O bloco do centro, formado por MDB, PSD, PR, PP e DEM, representa 206 deputados. O novo governo vai precisar do apoio desses grupos”, afirma.

Outro desafio é lidar com um Congresso mais conservador. Boa parte dos parlamentares que votaram a favor da Reforma Trabalhista e Teto de Gastos não conseguiram se reeleger, segundo o consultor. A mesma situação aconteceu com os políticos que se comprometeram com a Reforma da Previdência, que não saiu do papel.

“Quem ficou é menos reformista do que os que saíram. E o perfil de quem está entrando é o de representantes ligados a corporações militares ou forças de segurança (policiais), ou que se autofinanciaram usando redes sociais (empresários). Essa não nos parece ser uma base mais reformista”, opina.