Copa precisa fazer parte de projeto de infraestrutura maior e de longo prazo

por andre_inohara — publicado 29/06/2011 10h20, última modificação 29/06/2011 10h20
Belo Horizonte – Melhorias não devem se limitar a atender necessidades do evento esportivo, avaliam empresários que participaram do seminário Competitividade Regional em Belo Horizonte, como parte do programa Competitividade Brasil.

Melhorias de infraestrutura não devem se limitar a atender a necessidades pontuais, como as da Copa do Mundo, mas fazer parte de um grande projeto, com visão de longo prazo, que contribua para a maior competitividade do País. Essa é uma das conclusões do seminário Competitividade Regional, realizado na terça-feira (28/06) em Belo Horizonte. O evento integra o projeto “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham.

“É preciso incluir a Copa em um projeto maior de infraestrutura. Só será possível trazer a iniciativa privada para parcerias público-privadas (PPPs) se os grandes eventos esportivos forem aproveitados dentro de uma visão de longo prazo”, disse Jean-Marc Dreyer, diretor do Citibank.

"Esperamos que os investimentos para a Copa sejam apenas um pretexto para a série de investimentos que Minas Gerais e o Brasil como um todo precisam", completou Marcos Sant´Anna, vice-presidente regional da Amcham-Belo Horizonte.

Para os palestrantes, a Copa antecipará alguns investimentos que teriam de ser feitos no futuro, mas não se pode perder o foco nos temas essenciais para o longo prazo.

“Como catalisadora de investimentos, a Copa trará recursos em tempo mais curto. Mas, independente disso, há outras necessidades, como, no caso de Minas, a ampliação do aeroporto Tancredo Neves, das rodovias de acesso a Belo Horizonte e da rede hoteleira”, afirmou Fernando Frauches, presidente do conselho de administração da construtora Fidens.

Papeis público e privado

Em um projeto de desenvolvimento da infraestrutura de longo prazo, o setor privado e o governo se complementam. “Não dá para obter uma solução sozinho. No fim do dia, todos sofrerão se não acontecer de todos se juntarem para buscar uma saída”, resumiu Wilson Brumer, presidente da Usiminas.

Nesse contexto, a contribuição do empresariado será tanto maior quanto mais organizada for sua atuação. “O empresário brasileiro tem sido muito competente na construção de um Brasil com pujança, mas é tímido em participar das entidades que canalizam seus pleitos”, indicou Gabriel Rico, CEO da Amcham.

Marcos Sant´Anna, também reforçou o papel que o setor privado tem a desempenhar. "Se a iniciativa privada não fizer nada, o Brasil não ganhará competitividade. O empresário precisa cobrar os demais atores", assinalou.
Já ao Estado, por outro lado, cabe ser um articulador do desenvolvimento econômico, defendeu Brumer. “O Estado não pode fazer todas as coisas. Ele precisa ser um facilitador. Por que o governo teria que cuidar de hotéis, por exemplo? O Estado precisa fazer escolhas, pois não tem dinheiro para tudo.”

O presidente da Usiminas ressaltou ainda que desenvolvimento da infraestrutura vai além da discussão sobre a ampliação de aeroportos, estradas e oferta de energia. “Ela envolve educação, inovação e até lazer. Como poderemos desenvolver regiões no vale do Jequitinhonha – com população predominante de baixa renda – sem estradas, aeroportos e também lazer?”, indagou.

PPPs como parte da solução

Os participantes do evento concordam que as PPPs são parte importante para a solução das deficiências de infraestrutura no País.

Para Marcos Siqueira, superintendente da unidade de PPP de Minas Gerais, é preciso uma verdadeira revolução na forma como se promove o desenvolvimento da infraestrutrura brasileira. “É preciso mecanismos mais ágeis e efetivos, arranjos novos e mais flexíveis. Mais do que transformar a infraestrutura em prioridade, deve-se remoldar a maneira como se faz infraestrutura no País. Nesse sentido, as PPPs podem de fato representar uma alternativa”, afirmou.

Fernando Frauches, da Fidens, que participa de projetos de PPP, a seu turno destacou a importância de acelerar os processos para que as PPPs aconteçam. Para ele, a morosidade das licitações é um fator de desestímulo aos investimentos nessa área. “Surpreende a demora, a burocracia. Há que se evoluir bastante.”

Para ilustrar a situação, Frauches contou que a empresa participa da concorrência para a concessão de aeroporto de Natal há quase três anos e ainda não sabe quando ocorrerá uma decisão. Outra dificuldade é fazer os parceiros internacionais compreenderem o porquê de tanta lentidão, comentou. “Muitos investidores estrangeiros vão desistindo no meio do caminho”, lamentou.

Além de agilizar os processos, é determinante garantir um conjunto de condições adequadas para o investimento, como sintetizou Dreyer: “O Brasil tem uma taxa de remuneração fixa tão alta que o investidor pergunta por que investir em um projeto de maior risco. O governo terá de assumir o custo de atrair o investidor privado, oferecer um retorno maior e se adequar ao que o empresariado está pedindo”. Dreyer salientou ainda os riscos legais existentes no País, que necessitam ser minimizados para garantir investimentos mais seguros.

Estado logístico

Para os participantes do seminário da Amcham, Minas Gerais, por sua localização estratégica, tem grande potencial para ser um verdadeiro “Estado logístico”, termo cunhado há cerca de oito anos, como rememorou o professor Paulo Resende, diretor de Desenvolvimento da Fundação Dom Cabral, mas que ainda não se tornou realidade.

Para esse objetivo se concretizar, é fundamental achar uma solução para as estradas federais no Estado, salientou Luis Souza, sócio fundador e head de Infraestrutura do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch. Hoje, aproximadamente 80% da malha rodoviária no território mineiro são administrados pelo governo federal, com grande carência de modernização.

“Minas é o abdômen do País, e o assunto da infraestrutura não ganha solução somente a partir do Estado, mas integrado no Brasil, sob coordenação do governo federal. É isso que determinará se esse problema será resolvido”, opinou Souza.