Ex-governador Antonio Britto: é legítimo empresas defenderem direitos, mas dentro do bem coletivo

publicado 29/04/2014 09h15, última modificação 29/04/2014 09h15
São Paulo – Atual presidente da Interfarma disse que empresariado também deve defender assuntos de interesse comum
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O setor privado precisa ser mais assertivo na defesa de interesses próprios, desde que respeitando os limites legais e dentro de um contexto multissetorial. “Temos a obrigação de defender interesses específicos, mas também de ajudar a construir uma agenda que privilegie o bem coletivo”, disse o ex-governador e ex-ministro Antonio Britto, atual presidente da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), no Seminário de Relações Governamentais da Amcham – São Paulo realizado na segunda-feira (28/4).

A importância crescente da comunicação entre setor privado e governo foi o tema do encontro, que também contou com a presença do deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) e executivos de relações governamentais da BRF, Intel e Bayer.

Vaccarezza disse que a participação do setor privado nas discussões nacionais é fundamental. “As empresas participam de lugares que produzem conhecimento e riqueza, além de distribuir renda e empregos”, segundo o parlamentar.

A comunicação entre empresas e governo não é fácil no Brasil, admite Marcos Jank, vice-presidente global de Assuntos Governamentais da BRF (Brasil Foods), país onde a complexidade legislativa dificulta o relacionamento institucional de longo prazo.

Para o executivo, a falta de regras claras para o lobby  [defesa de interesses privados] no Brasil prejudica a atuação dos profissionais. Ele lembra de uma experiência que passou quando presidiu a Unica - União da Indústria de Cana de Açúcar. “Nos Estados Unidos, quando nos organizamos em um grupo que defende a indústria sucro-energética, conseguíamos saber com facilidade o que cada parlamentar pensava sobre o tema”, compara Jank.

Outro problema apontado pelo executivo é a falta de coordenação entre setores diversos, que poderiam se unir para defender assuntos de mesmo interesse. “Sinto falta de empresas e setores atuarem juntos em temas complexos. Aqui, estamos nos alinhando em uma associação conjunta dos setores avícola e suíno.”

A importância da atividade de lobby

Para Christian Lohbauer, vice-presidente de relações governamentais da Bayer, o crescimento e diversificação da economia brasileira evidenciou a importância de uma comunicação mais próxima com os formuladores de políticas públicas. “O setor privado tem sido muito acionado em função da necessidade de acompanhar e influenciar a proposição de políticas públicas”, comenta o executivo.

A atuação dentro dos limites legais e éticos foi mencionado por Fernando Loureiro, diretor de relações governamentais da Intel. “Um profissional de relações governamentais não pode, ao mesmo tempo em que conversa com o governo, vender produtos. É preciso respeitar a natureza legal e ética da comunicação institucional.”

O mediador do debate Guilherme Farhat, diretor-presidente da Semprel – Consultoria Empresarial e Política, disse que a atividade de relações governamentais está mais importante que nunca, em função da influência das políticas públicas no dia a dia das empresas. Farhat também acumula a função de presidente do comitê de Avaliação e Conjuntura Política da Amcham-Brasília.

“Vale a pena estar perto do processo decisório e acompanhar os passos dos formuladores de políticas. Temos que lembrar que a atividade de lobby é absolutamente legítima, desde que a legislação seja respeitada. Empresas e governos não devem ter medo de interagir, pois ela resulta em decisões de melhor qualidade”, afirma o consultor.

Ainda de acordo com Farhat, os governos (municipal, estadual e federal) são responsáveis por incentivar a atividade privada, mas também podem criar políticas públicas restritivas. O amplo espectro de atuação exige das empresas acompanhamento e diálogo constante com o Poder Público.