Para FMI e economistas, ampliação do PIB brasileiro em 2011 ficará entre 4% e 4,5%

por giovanna publicado 09/11/2010 16h53, última modificação 09/11/2010 16h53
Daniela Rocha
São Paulo – Especialistas destacam que governo deve evitar superaquecimento da economia, priorizando ajuste fiscal.

Para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e grandes economistas brasileiros, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2011 será da ordem de 4% a 4,5%. Este é o patamar sustentável de incremento apontado nesta terça-feira (09/11), durante o “Brazil Summit 2010- Taking off: How to sustain sucess”, evento promovido em São Paulo pelo The Economist Group, que edita a revista britânica The Economist, com apoio institucional da Amcham.

“O Brasil precisa evitar o superaquecimento da economia no próximo ano. Um crescimento de 7,5% do PIB (nível previsto para 2010) não é sustentável. Um avanço muito grande do consumo pode elevar bastante o déficit em transações correntes ao longo dos próximos anos”, enfatizou Nicolás Eyzaguirre, diretor para o Hemisfério Ocidental do FMI. Para ele, o incremento potencial do PIB para o próximo ano estará na base de 4%. 

Segundo Eyzaguirre, o novo governo tem a missão de avançar principalmente no ajuste fiscal, já que os gastos públicos, se persistirem no ritmo atual, podem levar a um movimento de expansão muito exagerado da economia.

Na visão de Gustavo Franco, sócio da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central, a economia brasileira já está superaquecida. “Os gastos públicos são elevados, o componente público na demanda agregada é forte e a taxa de crescimento do PIB  neste momento é muito alta e insustentável. O ‘pé no freio’ será necessário para tornar o crescimento da demanda consistente com o da oferta”, disse.

Franco avalia que tanto o Governo Federal quanto as administrações estaduais terão de cuidar da área fiscal já no início das suas gestões. “O natural seria instituir políticas fiscais. Não gostaria que ocorresse aumento de impostos. Seria uma lástima se a presidente eleita aproveitasse o período de graça do início do governo para trazer de volta a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), por exemplo”,  avaliou Franco.

Além de defender o ajuste fiscal, o economista Affonso Celso Pastore, presidente da AC Pastore & Associados Consultoria, ressaltou no evento que outros desafios para a garantia de sustentabilidade do crescimento da economia brasileira são a ampliação dos investimentos em infraestrutura e do nível de poupança doméstica. Na análise dele, o crescimento potencial do PIB é de 4,5% em 2011.

Pastore compartilhou com o diretor do FMI a preocupação quanto ao déficit no balanço de pagamentos brasileiro, que deverá atingir 2,5% do PIB ou aproximadamente US$ 50 bilhões neste ano e 4,5% do PIB em 2011.

Guerra cambial

Nicolás Eyzaguirre, do FMI, afirmou que, ao longo 2011, o fluxo de dólares continuará pressionando o real. “O governo pode adotar medidas para conter a entrada de dólares, como (a elevação d)o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), dentre outras, mas a pressão do dólar sobre o real continuará. Isso ocorrerá porque, logicamente, ainda teremos países desenvolvidos injetando dinheiro público para resolver problemas internos. Vejo ainda que o Brasil está mais aberto à entrada de capital do que a China”, destacou.

Eyzaguirre enfatizou que a reunião do G-20, em Seul, na Coréia do Sul, demonstra a disposição dos líderes dos países-membros de buscar uma solução para os desequilíbrios cambiais no mundo. Gustavo Franco, por sua vez, acredita que o diálogo é muito positivo, mas que não resultará em uma resposta concreta para o problema.

No caso do Brasil, Franco avalia que, além de medidas pontuais para conter a entrada de dólares como o aumento da alíquota de IOF, o governo poderia agir na liberalização das saídas.  Ele considera que ainda existe muita restrição ao investimento brasileiro no exterior, exatamente onde pode haver espaço grande para reequilibrar o mercado de câmbio brasileiro. Conforme o ex-presidente do BC, as companhias têm atualmente uma oportunidade valiosa de expandir suas atividades além das fronteiras diante do real forte, muita liquidez e financiamento externo abundente. “O cenário é interessante para empresas brasileiras fazerem aquisições e se estabelecerem em outros países, isto é, projetar a pujança doméstica no exterior”, salientou.

Os economistas que participaram do “Brasil Summit 2010” compartilharam a análise de que o ajuste fiscal no País também é fundamental no que diz respeito ao ajuste do câmbio. “No curto prazo, o IOF é interessante, mas, no longo prazo, o ajuste fiscal deve ser trabalhado para que haja a redução da taxa de juros, hoje em patamar muito mais elevado do que o dos países desenvolvidos”, explicou José Roberto Mendonça de Barros, da Quest Investimentos.

Recuperação americana lenta

O risco de uma segunda fase de recessão nos Estados Unidos foi descartado pelos especialistas presentes à reunião, porém existe consenso de que o movimento de recuperação daquele país seguirá lento em 2011. O diretor do FMI, Nicolás Eyzaguirre, avaliou que o estoque de imóveis residenciais à venda permanece elevado, assim como o nível de endividamento dos cidadãos no que diz respeito a esse segmento e alguns outros.

“Com dívidas, principalmente as relacionadas aos imóveis, não há motivação para o consumo”, explicou Eyzaguirre. Para ele, o governo americano atua positivamente ao estimular as exportações como um caminho de recuperação da economia.

Affonso Celso Pastore acrescentou que o setor imobiliário tem peso relevante na economia dos EUA, sendo responsável por 20% da formação de capital do país, porém o nível de demanda por novas residências permanece o mais baixo da história. Ele acredita, entretanto, que o cenário está mudando. “Vejo uma recuperação bastante vagarosa na economia dos Estados Unidos, mas ela está acontecendo”, concluiu.