Parcerias entre empresas e governos trazem benefícios a toda a sociedade, afirma especialista em desenvolvimento econômico

por marcel_gugoni — publicado 25/09/2012 11h01, última modificação 25/09/2012 11h01
São Paulo – Gilberto Tadeu Lima, PhD em economia e professor titular da FEA-USP, diz que ainda há muita desconfiança mútua entre as esferas pública e privada.
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A sociedade é a maior beneficiada pelos resultados entre as parcerias realizadas por empresas e pelo setor público. Mas ainda há muita desconfiança mútua e descasamento de objetivos comuns que visem, em última instância, ao desenvolvimento econômico. A avaliação é de Gilberto Tadeu Lima, PhD em economia e especialista em desenvolvimento econômico.

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“A única maneira de construir confiança é com iniciativas que deem certo”, afirmou ele, que é professor titular do departamento de economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA), da Universidade de São Paulo (USP). Lima participou na quinta-feira (20/09) do seminário “O que devemos fazer já para crescer 5% pelas próximas duas décadas?”, organizado pela Amcham-São Paulo.

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“O setor público tem um papel essencial de regulação e de garantir que as instituições permitam às empresas desenvolver seus negócios. Por outro lado, a atividade produtiva tende a ser mais eficiente do ponto de vista de criar e aproveitar melhores oportunidades.”

Com papéis bem definidos entre as duas esferas, é possível avançar na remoção dos gargalos que comprometem maior competitividade do País. “Ações conjuntas geram resultados mutuamente benéficos, e isso é sancionado pela sociedade.”

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Leia os principais trechos da entrevista com Gilberto Tadeu Lima:

Amcham: Qual ponto chamou a atenção entre as medidas discutidas para que o Brasil deve tomar agora para garantir um crescimento de 5% ao ano pelos próximos 20 anos?

Gilberto Tadeu Lima: O que me chamou a atenção foi a ênfase correta nos aspectos que abordam a necessidade de aumentar a capacidade de crescimento sustentado ao longo do tempo. De forma ampla, foram abordados os aspectos estruturais, o capital físico e humano, o marco institucional que garantirá a realização das atividades produtivas num ambiente mais equilibrado e dinamizado. O que há de consenso é que existem pré-condições infraestruturais e de natureza estrutural que são absolutamente fundamentais para que possamos ativar a demanda e criar condições para que essa ampliação da capacidade produtiva se traduza efetivamente numa lucratividade maior, criando círculos virtuosos que fazem a economia crescer mais, o que amplia a capacidade produtiva, aumentando os lucros e estimulando as firmas a investirem ainda mais.

Amcham: Quais são as pré-condições do mercado que já vemos hoje?

Gilberto Tadeu Lima: Em relação à elevação da competitividade estrutural, em perspectiva histórica, duas razões fazem o crescimento esbarrar em restrição: ou há descontrole de preços e inflação ou há desequilíbrio nas contas externas. Alcançamos por um período de tempo suficientemente razoável a estabilidade de preços e uma estabilidade político-institucional que geraram um horizonte de planejamento. Mas a trajetória sustentável tem que ter também uma inserção internacional competitiva. As exportações são chave porque são ao mesmo tempo o único componente da demanda capaz de gerar divisas que permitirão o nível de atividade doméstica sem afetar as contas externas. É necessário não apenas pensar em uma elevação do volume exportado, mas da pauta exportadora, adotar padrões tecnológicos que tornem nossa exportação mais competitiva. É preciso criar agora o estímulo necessário para que haja uma expansão ao longo do tempo das decisões de produção das firmas.

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Amcham: Qual o papel da redação entre o setor público e o setor privado? Como alavancar uma parceria mais próxima e o diálogo?

Gilberto Tadeu Lima: Essa ação conjunta é essencial porque a esfera pública e a esfera privada são importantes para o desenvolvimento econômico. O setor público tem um papel essencial de regulação e de garantir que as instituições permitam às empresas desenvolver seus negócios. Por outro lado, a atividade produtiva tende a ser mais eficiente do ponto de vista de criar e aproveitar melhores oportunidades. Como dirimir essa desconfiança mútua? Com passos que efetivamente façam com que, ainda que lentamente, se perceba que ações conjuntas geram resultados mutuamente benéficos. E isso é sancionado pela sociedade. A única maneira de construir confiança é com iniciativas que deem certo e diminuam as desconfianças. Confiança não se conquista de pronto, mas ao longo do tempo e partir de seu sucesso.

Amcham: O responsável por facilitar esse diálogo é o setor público ou são as empresas?

Gilberto Tadeu Lima: O esforço tem que partir de ambos. É claro que, do ponto de vista institucional, o passo mais importante é do setor público, porque é ele quem detém o monopólio das decisões em torno da Constituição. Mas, como diz o ditado, são necessários dois para dançar o tango. Esse tango é a música que gera os resultados necessários, que tanto se esperam no País. No passado, se alimentou uma série de desconfianças mútuas que é de remoção difícil...

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Amcham: O sr. disse que, no passado, se alimentou uma série de desconfianças mútuas que é de remoção difícil. Em que sentido?

Gilberto Tadeu Lima: Quando se fala de Estado e de setor privado, estamos tratando de forma homogênea esferas que são, em si mesmas, absolutamente heterogêneas. Há diferenças desde setores até preferências dos diversos setores em como conduzir questões macroeconômicas. No debate do câmbio, por exemplo, a visão do setor privado está longe de ser homogênea porque a taxa de câmbio é um preço que afeta de forma diferente os mais distintos players do setor privado. Esse tipo de heterogeneidade vale para a esfera pública. Mesmo que se deixe de lado o fato de a esfera pública estar inserida em um contexto político diverso, as diferentes instâncias do poder público evidentemente respondem a pressões diferentes que eventualmente veem o caminho econômico a ser trilhado de forma diferente. É da natureza de um regime democrático que não possamos tratar do setor público e do setor privado como esferas homogêneas. Essa diferença pode ser mais bem pactuada democraticamente. Eventualmente, parcerias dessa natureza, ainda que feitas de forma localizada, estão em um contexto de interesses diversos dentro dessas duas esferas. Em última instância, é preciso combinar essas mudanças com a própria sociedade.