Precisamos falar sobre inovação nos conselhos, diz Hélio Magalhães

publicado 11/12/2018 10h26, última modificação 11/12/2018 11h06
São Paulo – Tema não é aprofundado em reuniões, afirma o conselheiro e ex-CEO do Citibank e Amex
Comitê Estratégico de Governança Corporativa - Hélio Magalhães.jpg

A avaliação de risco dos projetos de inovação e novos negócios, presentes no dia a dia das empresas, é um tema que precisa receber mais atenção dos conselhos de administração, defende Hélio Magalhães, presidente do Conselho da Amcham-Brasil.

“Da mesma forma que os conselhos começaram a focar em compliance há uns oito anos, o novo foco é de começar a olhar para esse tipo de risco (de inovação), que não está sendo discutido. E que é o risco de ficar fora do jogo” , disse, no comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo (5/11).

Além de presidir o conselho da Amcham, Magalhães é membro do conselho de outras três empresas. Como executivo, presidiu as operações brasileiras do Citibank e American Express. “Tenho colocado lá (nas reuniões que participo) perguntas sobre inovação e não sinto reação no sentido de que vamos começar o tema com o olhar um pouco diferente”, comenta.

A necessidade de inovação é reconhecida, mas sem aprofundamento. “Estava em um dos conselhos no ano passado e alguém, com mais experiência que eu, disse que era preciso investir em tecnologia. Tive vontade de perguntar qual era a sugestão, porque senti que ele não tinha uma proposta.”

Isso porque a lógica dos negócios está diferente, argumenta Magalhães. “Antes, quando se começava a falar de negócio, a primeira coisa que vinha era como ganhar dinheiro. Mas os modelos que surgem hoje têm como objetivo principal resolver um problema. Depois é que vão discutir como ganhar dinheiro.”

Há vários casos de empresas que surgiram para resolver uma demanda, como o Waze (congestionamento) e o Uber (caronas pagas), que depois ganharam escala e se tornaram rentáveis.

Basicamente, o papel dos conselhos é aprovar a estratégia, avaliar o desempenho da diretoria executiva e medir os riscos do negócio. Como as mudanças têm acontecido rapidamente, ainda é difícil avaliar não só o risco de um projeto disruptivo, mas também as tendências de negócio.

“Qual é a melhor forma de atacar os dois negócios, o tradicional e o de crescimento potencial? Como se faz isso do ponto de vista de tempo, recursos e assumindo riscos dos quais ainda não se sabe a resposta?”, pontua.

A chegada de conselheiros com novas formações é necessária para tornar a empresa mais receptiva à inovação, defende o executivo. “Até porque, se você tiver um CEO muito inovador, pode ter problema com o conselho.”

Amazon redefiniu o varejo americano

É o caso da varejista virtual Amazon, cita o executivo. O grande nome do varejo eletrônico mundial surgiu como vendedora de livros pela internet na década de 2000. Mas ganhou terreno rapidamente e expandiu seu portfólio para outras áreas de varejo e outros negócios. Um dos mais significativos é o de serviço de computação em nuvem.

Enquanto a Amazon cresce aceleradamente, Magalhães cita que as redes de lojas físicas como a Sears e Macy’s perderam, respectivamente, 90% e 70% de receitas entre 2006 e 2017 nos Estados Unidos. Hoje, todos os varejistas americanos alugam a nuvem da Amazon para viabilizar suas operações virtuais, acrescenta Magalhães.

A mudança de hábito é testemunhada por Magalhães. Em Nova York, no prédio de 60 apartamentos onde tem uma unidade, o executivo disse que mais de duzentos pacotes de compras são entregues diariamente na portaria. “Em vez de ir à loja, as pessoas estão comprando na internet. E isso também faz com que o modelo de shopping centers seja rediscutido, porque não tem mais presença de clientes.”