Produtividade no Brasil: os 3 elementos principais para alavancar a economia em dois anos

publicado 02/07/2019 14h17, última modificação 04/07/2019 09h26
São Paulo – Ana Carla Abrão explicou aspectos estratégicos sobre mercado de crédito, setor público e infraestrutura durante o nosso Comitê especial de presidentes
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Ana Carla Abrão explicou aspectos estratégicos sobre mercado de crédito, setor público e infraestrutura durante o nosso Comitê Especial de Presidentes

Aumentar a produtividade do Brasil é a chave principal para impulsionar a economia a curto prazo segundo a sócia da área de Finanças, Risco e Políticas Públicas da consultoria em gestão Oliver Wyman Ana Carla Abrão. “Nossa produtividade é baixa e é essa agenda que precisamos resgatar”, apontou. A economista esteve presente no nosso Comitê especial de presidentes, na última terça-feira (11).

Qualidade do ensino, infraestrutura, gestão empresarial, ambiente de negócios, mercado de credito, setor publico e abertura comercial são os fatores que emergem naturalmente como primordiais para ganho de produtividade.

Entretanto, Ana destaca o mercado de crédito, o setor público e a infraestrutura como os três principais pontos da agenda. “Estou procurando fazer provocações em uma agenda com resultados mais avançados. Estamos falando de dois anos aí de prazo”, afirma.

INFRAESTRUTURA

O Brasil ocupa a 73° posição em infraestrutura num ranking de 137 países. “Hoje ocupamos rankings de qualidade de infraestrutura que não condizem com o tamanho da nossa economia, que é uma das maiores do mundo”, reforça a economista.

Assinatura de telefonia móvel, linhas de telefonia fixa e capacidade de transporte de passageiros são números que puxam o País para cima no ranking, mas quando a analisada a qualidade da infraestrutura de maneira geral o nível acaba sendo puxado para baixo. “Saneamento é sem dúvida nossa maior vergonha e a banda larga só atinge 43% dos domicílios”, menciona Ana.

Na visão dela, mesmo no modal rodoviário, que é o principal modal brasileiro, o País ainda apresenta menos de 10% do que outros países com as mesmas dimensões continentais. “Quando comparamos a nossa malha de transporte, ou seja, nossos números no pilar de logística, com países como China e Estados Unidos, a situação fica também preocupante”, afirma.

O Brasil vem investindo, nos últimos anos, em torno de 2% do PIB em infraestrutura, o que, na análise da economista, é menos do que o necessário para cobrir a depreciação do estoque de infraestrutura existente hoje.  “Não é à toa que viadutos caem e que há um excesso de deterioração”, apontou, elucidando ainda que o País está apenas gastando a infraestrutura já existente.

Para efeitos de comparação, ela expôs que China investe 7% do PIB.  Se o Brasil fosse investir em infraestrutura o suficiente para chegar ao que é o desejável para a dimensão e do ponto de vista de qualidade, seria preciso mais que dobrar o investimento atual (4,5% do PIB) pelos próximos 25 anos, segundo um estudo do presidente da Inter B Consultoria Internacional, Claudio Frischtak.

“Não será o setor público que irá dar conta de fazer isso, porque este está quebrado e não conseguirá fazer os investimentos necessários para chegar onde a gente precisa”, mencionou convocando a plateia de presidentes da iniciativa privada a considerar investir. “Temos que ter planejamento, capacidade de priorizar e garantir perenidade nas decisões que são tomadas pelo setor público”, lembrou.

MERCADO DE CRÉDITO

Existe uma relação entre a variação do saldo de crédito com a variação do PIB. Na visão de Ana, crédito causa crescimento, então as coisas andam juntas, mas existe um sentido de causalidade. “Para a gente ampliar a produtividade da economia, ampliar o motor de crescimento, mais crédito ajuda, mas não é qualquer crédito e a gente sabe muito bem disso”, reforça.

Diante disso, a economista responde a duas perguntas:

- Por que crédito é importante e por que crédito gera crescimento? Porque é por meio dele que a gente consegue fazer com que projetos de investimento – muitas vezes projetos arriscados do ponto de vista individual – se tornem viáveis porque o banco é capaz de financiar esse projeto e diversificar a sua carteira.

- Por que crédito gera também crescimento e produtividade? Porque gera bem-estar: permite o consumo presente de algo que as pessoas não têm poupança suficiente, mas isso tudo tem que ser feito obviamente de forma saudável.

Entretanto, seguindo a lógica de composição dos spreads, é preciso combater a inadimplência. Para isso, Ana propõe uma agenda que trabalha tanto no custo de inadimplência quanto no resíduo (outro fator determinante do spread) e aborda o cadastro positivo. Mesmo [o Cadastro Positivo] tendo sido aprovado, o tamanho dele no Brasil ainda está muito aquém.

Desta forma, Ana sugere: “Vamos abrir as plataformas de compartilhamento de dados, vamos rever o credito direcionado, vamos buscar desenvolver o mercado de capitais e obviamente vamos ampliar a competição.” Para ela, esta é uma agenda que está andando, porque o Banco Central está colocando para frente regulamentando de fintechs, pagamentos instantâneos, bancos abertos (open banking), etc.

Ainda assim, ela aponta que a maior resistência nessa agenda são os órgãos de defesa do consumidor. “Eu concordo que deve-se garantir a privacidade de dados das pessoas, mas a gente tem que entender que hoje a informação é a maior barreira da competição que existe no Brasil”, comenta.

Ela explica que, hoje os bancos sabem todas as informações dos clientes e usam essas informações, de forma legítima, para acessar o risco de crédito. “Só que essas informações hoje estão empoçadas nos grandes bancos e a gente precisa reduzir essas barreiras”, explica.

Portanto, na visão dela, a questão do spread bancário é uma questão de fazer fluir a informação e da capacidade de competição à pequena fintech (sic) que vai poder acessar o risco dos usuários em condições mais equilibradas em relação aos grandes bancos. “E isso vai gerar, inclusive, um movimento para que os próprios bancos grandes invistam em inovação e em garantir uma oferta melhor para o consumidor”, finalizou.

SETOR PÚBLICO

Ana aponta defeitos no modelo operacional público que contam com uma linha de despesas que comprometem o orçamento público. “O grande problema desse modelo operacional e dessa linha de despesa é que os resultados que a gente está colhendo são resultados muito ruins”, afirma.

Na visão dela, o serviço público é a garantia de oportunidade para quem não tem, a não ser no Estado, as ferramentas para melhorar de vida. Segundo a economista, mais da metade da população brasileira depende do Estado para ter acesso à educação de qualidade, a um atendimento de saúde decente e à segurança pública. “Quando falamos em melhorar os serviços públicos ou fazer uma reforma de Estado, o objetivo é de fazer justiça social”, manifesta.

O setor público consome 40% do PIB. E dentro desses 40%, 13% são salários e benefícios do servidores e 15% é déficit da previdência. Entretanto, apontar os salários dos servidores públicos como foco do problema é um argumento superficial. “Pouco me interessa se o servidor público ganha muito, pode ganhar muito não tem problema, desde que ele esteja entregando serviços que são adequados e que são consistentes com o que ele esta entregando e isso não está acontecendo por má administração”, protesta.

Sendo assim, a solução seria melhorar a gestão de pessoas, principalmente. Ana conta que hoje há estados que 70% da força de trabalho estão no topo da carreira, o que significa que, continuamente, é preciso fazer novos concursos para inserir mais gente para dentro da máquina. “Há muita promoção rápida para patentes ou para posições em que eles já estão na administração e não estão mais na ponta”, relata.

Outra questão seria reavaliar a estabilidade. Ela sugere que sejam revistos carreiras no nível local e implantados três processos: padronização e racionalização dessas carreiras, avaliação de desempenho relativa para vinculação de promoções e progressões ao mérito e revisar os processos para que a sociedade acompanhe. “Com essas três coisas e implantando uma ampla revisão dessas leis de carreiras eu não tenho dúvidas que a gente muda o perfil do serviço público no Brasil”, finaliza.