Projeções indicam que Brasil investirá 54% a mais em infraestrutura de 2011 a 2014

por marcel_gugoni — publicado 20/01/2012 18h12, última modificação 20/01/2012 18h12
Marcel Gugoni
São Paulo – Acabar com gargalos de portos, ferrovias e energia é essencial para melhorar competitividade, reforçam economistas.
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A infraestrutura é apontada como o principal motor do crescimento da economia brasileira nos próximos anos. E ela não vai de caminhão ou de ônibus, mas de trem, de navio e pelos cabos de eletricidade. Uma previsão do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) mostra que os investimentos em áreas essenciais tendem a crescer 54% entre 2011 e 2014 na comparação com o período de 2006 a 2009.

Esse é o panorama apontado por economistas que participaram do comitê aberto de Finanças, realizado nesta sexta-feira (20/01) na Amcham-São Paulo, sobre as perspectivas da economia brasileira para 2012.

Para Fernando Camargo, sócio-diretor da LCA Consultores, o Brasil ainda tem uma enorme lição de casa para fazer no que diz respeito à infraestrutura se quiser manter seu crescimento. “A infraestrutura ganhou espaço e tem um bom futuro. Ela virou um motor de investimentos e negócios”, afirmou.

Segundo ele, o país que gasta com obras públicas buscando a melhoria do cenário de negócios beneficia vários setores ao mesmo tempo: uma nova estrada, por exemplo, permite o escoamento da safra tanto quanto impulsiona o comércio de um posto de gasolina e os serviços de mecânicos e motoristas.

Segmentos mais beneficiados

A previsão do banco mostra que os aportes para melhorias em portos, estradas, ferrovias, saneamento público, telecomunicações, redes de distribuição de água e de energia devem ir de R$ 247 bilhões (2006-9) para R$ 381 bilhões (2011-14), descontada a inflação.

Desses, os segmentos mais beneficiados serão os portos e as ferrovias – com dispêndios entre 200% e 260% maiores para esses dois focos. A pesquisa não considerou os gastos em aeroportos ou da construção civil.

O economista diz que os debates em torno de marcos regulatórios para permitir investimento de recursos da iniciativa privada – e sobre como empresas poderão explorar concessões nesses setores – impulsionarão o crescimento.

Competitividade internacional

O economista Daniel Poit, do Cofecon (Conselho Federal de Economia), que também participou do encontro, reforça que melhorar a infraestrutura interna significa ganhar competitividade no mercado internacional.

“Temos vantagem em relação ao mundo no que diz respeito à produção de alimento e de matérias-primas básicas, mas nossa infraestrutura é muito deficiente. A soja que hoje é produzida em Goiás e no Mato Grosso sai pelo porto do Paraná. Ela já sai do País no sentido oposto do mercado que está no Hemisfério Norte”, exemplifica.

“Se tivermos uma rede ferroviária aperfeiçoada para que seja mais rápida, dinâmica e econômica, teremos maior potencial de produção, o que significa ganho de escala.”

Muitas empresas ainda colocam o pé no freio em relação a investimentos de grande porte na área. Entre os motivos estão o alto custo dos empréstimos e a demora na aprovação de marcos regulatórios que possam garantir a exploração de determinadas concessões.

Camargo cita o caso das concessões dos terminais de Brasília (DF), Campinas e Guarulhos (SP) para a iniciativa privada, a fim de acelerar melhorias nos aeroportos até a Copa.

“Os aeroportos já têm um arranjo institucional novo, com licitações para a iniciativa fazer investimentos”, diz. “Os portos deveriam ir pelo mesmo caminho, e as ferrovias, que têm uma malha muito limitada, precisam ter um avanço importante porque ela é uma das logísticas mais racionalizadas, de baixo custo e de menor emissão de carbono.”

Investimento do governo

Mas ambos destacam que o governo não pode deixar de participar das soluções para a infraestrutura brasileira. “Está claro que concessão é [um caminho] bom, porque atrai a iniciativa privada para a captação de recursos e investimentos partindo somente de um marco regulatório do governo”, afirma o analista da LCA.

“[Por outro lado] a ponta do desenvolvimento tecnológico e de inovação é governamental. E nisso o Brasil ainda está devendo muito. Sem inovação, educação, pesquisa e tecnologia não dá para alcançar líderes como EUA, China, Alemanha e outros”, compara.

Segundo Camargo, “o mundo inteiro faz inovação com recursos públicos”. “Mas é claro que dá para complementar isso com acordos de multinacionais que venham a disputar o mercado interno, em troca pode e deve fazer acordos com o governo para desenvolver e trazer tecnologias para cá”, defende.

Mais educação

Questionados sobre outros entraves, ambos foram unânimes: o desenvolvimento econômico ainda para na baixa qualificação de uma grande parcela da população.

“Competitividade e inovação começam com o quadro educacional que é trazido para primeiro plano com investimentos pesados de natureza de Estado, para melhorar a base do capital humano”, disse o economista.

O especialista do Cofecon, que também é professor de Planejamento Estratégico e Mercado Financeiro da faculdade Estacio de Sá em Curitiba, diz que a educação básica de qualidade é essencial para uma economia que quer crescer. O desenvolvimento de capital humano, de mão-de-obra mais qualificada, complementa a inovação e faz a roda da economia girar.

“O sistema educacional [brasileiro] não capacita as pessoas para um trabalho produtivo”. “As empresas têm que intensificar os investimentos nesta área, mas também deve-se levar em conta que o mercado está crescendo muito mais rápido do que a capacidade que o setor produtivo tem de gerar respostas.”

Há um consenso entre os economistas de que o governo tem que parar de pensar só no curto prazo e olhar também para os longos investimentos.

Para Poit, o Brasil é grande e tem muita gente para produzir. Então, não há como não crescer. “Estamos no lugar certo e na hora certa. Precisamos ficar de olho para ampliar a nossa produção e aumentar a nossa eficiência. Só assim teremos um grande futuro.”

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