Sem ajuste fiscal o Brasil não vai crescer tão cedo, diz economista

publicado 09/11/2015 14h09, última modificação 09/11/2015 14h09
São Paulo – Para André Loes (HSBC), prioridade é restabelecer as contas públicas e a confiança dos agentes econômicos
andre-loes-8901.html

Para voltar a crescer nos próximos anos, o Brasil depende de um ajuste fiscal capaz de sanear as finanças públicas e restaurar a confiança dos agentes econômicos, de acordo com o economista-chefe do HSBC para a América Latina, André Loes. “Se houver um mínimo ajuste fiscal e o governo deixá-lo fluir, podemos voltar a crescer um pouco em 2017. Mas longe do que gostaríamos”, destacou, no comitê de Finanças da Amcham – São Paulo, na sexta-feira (6/11).

“O ajuste fiscal emergencial tem que acontecer no curto prazo, até para acabar com a perspectiva de nova queda de rating. Mas a parte mais importante do ajuste é de médio prazo, para que se tenha horizonte para a volta dos investimentos”, acrescentou. Antes disso, Loes assinalou que a economia deve passar por um biênio de recessão em 2015 e 2016 semelhante ao de 1930-1931, último período em que o Brasil teve dois anos seguidos de retração econômica.

Muito consumo e pouco investimento

Loes disse que a aposta na política econômica que privilegiou o consumo em detrimento dos investimentos no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014) foi equivocada. Na época, o país se encontrava em regime de pleno emprego tanto do capital humano quanto do capital físico. “Nessas condições, é preciso crescer mais devagar no curto prazo. Segurar a demanda e ao mesmo estimular a oferta (investimentos) para fazer ambos crescerem de forma equilibrada.”

A continuidade das políticas de estímulo ao consumo alimentou a inflação, no caso dos serviços, que não podem ser importados. E também fez aumentar o déficit externo, visto que houve aumento expressivo das importações. A alta das importações era mascarada pelas elevadas exportações brasileiras de commodities, mas assim que os preços desses produtos entraram em trajetória de queda, o desequilíbrio ficou evidente. Segundo o economista, o governo errou ao manter a demanda sobre-aquecida esperando que a oferta acompanhasse o movimento. “Isso não acontece, porque o timing das duas variáveis é diferente.”

O resultado de demanda estimulada com pleno emprego é mais inflação, afirma Loes. “Os investidores olharam esse cenário e fizeram contas para saber se valia a pena investir. E a resposta foi 'não', pois o país tinha ficado mais caro em função de o custo do trabalho ter aumentado.”

O reequilíbrio da economia

Loes detalha que a economia vem se reequilibrando aos poucos, graças ao câmbio favorável às exportações, realinhamento dos salários à nova realidade e correção das tarifas de energia. Isso não quer dizer que o caminho da recuperação está aberto. “Sem investimento e consumo doméstico com algum dinamismo, não há como sair da recessão. Infelizmente, com o atual quadro político a confiança do empresariado está muito deprimida e, a julgar pelo ajuste do mercado de trabalho (queda do emprego), a confiança do consumidor também está.”

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, disse que a mudança de postura do governo em relação à política econômica não garante o seu sucesso. “O governo acerta na questão econômica, mas a baixa popularidade da presidente e falta de apoio político enfraquece a aplicação da agenda de mudanças”, disse.