Sem solução de curto prazo para gargalos logísticos, empresas recorrem a benefícios fiscais

por andre_inohara — publicado 07/03/2013 15h52, última modificação 07/03/2013 15h52
São Paulo – ICMS baixo acaba sendo critério mais importante para companhias do que localidade física estratégica e com boa logística de escoamento, avalia executivo da Abralog.
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Lidar com estradas esburacadas e morosidade no despacho de mercadorias são apenas algumas das dificuldades que as empresas enfrentam por conta das deficiências da malha logística brasileira. Enquanto melhorias não se concretizam, um caminho que várias companhias estão adotando é montar suas operações em locais com incentivos fiscais na tentativa de obter compensações.

“Mesmo que haja aumento na despesa logística por conta de uma localização mais distante [do seu mercado], o resultado do beneficio fiscal acaba justificando para as empresas”, diz Edson Carillo, vice-presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog), presidente da consultoria em logística Connexxion Brasil e professor de pós graduação da FGV.

Por essa lógica, as empresas se baseiam nos benefícios fiscais que podem estar associados a uma nova localidade mais do que na infraestrutura e capacidade de escoamento oferecida, explica o executivo, que esteve nesta quinta-feira (07/03) no comitê estratégico de Finanças da Amcham-São Paulo e falou ao site da Amcham após o encontro.

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Guerra fiscal

Os benefícios fiscais a que Carillo se refere dizem respeito à diferença de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) entre os estados. “Em um estado, a alíquota é de 18% e, em outro, 12%. É um diferencial bastante expressivo”, detalha ele.

O governo é o responsável pela modernização da infraestrutura e tem procurado atrair investidores privados para tocar as obras, mas a prolongada falta de investimentos não será solucionada da noite para o dia.

Lançado em agosto de 2012, o Programa de Investimentos em Logística Rodoviária e Ferroviária prevê a construção e exploração comercial de 7,5 mil quilômetros de rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias.

“Devemos ter, hoje, um déficit de cerca de R$ 200 bilhões em infraestrutura de movimentação de materiais. É um impacto que se vê na malha rodoviária ineficiente, escassez de ferrovias e problemas na cabotagem”, constata Carillo.

Para o consultor, a proposta de concessão de rodovias e ferrovias ainda não entusiasmou os empresários. “Na primeira rodada do plano, poucos se interessaram. Por isso, o governo fez ajustes para flexibilizar as condições de investimento, mas ainda há limitações [quanto à forma de remuneração dos projetos]”, comenta ele.

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Custo logístico brasileiro

Estima-se que o custo logístico brasileiro seja 30% superior ao de países desenvolvidos, de acordo com Carillo. Esse nível de despesa acaba neutralizando a produtividade das empresas.

“Os EUA não produzem bens agrícolas de forma tão competitiva quanto nós, mas, na hora de tirar o produto do campo e entregar no ponto de consumo, nossa margem é corroída pela logística ineficiente”, exemplifica o consultor.

Os esforços que as empresas fazem para estruturar suas operações de forma eficiente precisam ser apoiados com uma malha logística adequada. “As empresas precisam se mobilizar para exigir constantemente que o governo faça sua parte. Associações como Amcham, Abralog, Fiesp, podem ajudar nesse sentido. Senão, ficaremos administrando o problema sem sair do lugar”, comenta ele.