Setor de telecomunicações enfrenta desafios em custos, regulação, mão de obra e carga tributária

por andre_inohara — publicado 28/03/2013 11h22, última modificação 28/03/2013 11h22
São Paulo – Empresários reconhecem ações positivas do governo, mas entendem que ainda falta maior velocidade.
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A cadeia de telecomunicações corre contra o tempo e enfrenta desafios próprios, ao lado de gargalos estruturais da economia brasileira, para expandir a infraestrutura e a oferta de serviços e suprir a demanda crescente. Empresários do setor reconhecem movimentos positivos do governo para melhorar as condições de operação e competitividade do segmento, mas entendem que ainda falta maior velocidade.

A pesada estrutura tributária, tarifária e fiscal é um dos principais componentes que oneram as empresas, mas há outros entraves. Faltam profissionais qualificados no mercado em quantidade suficiente e dificuldades do ponto de vista de regulamentação acabam desestimulando investimentos. Esse quadro gera elevação de custos.

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Os desafios da cadeia produtiva foram debatidos por presidentes e diretores de grandes empresas no seminário de ‘Competitividade Setorial – Telecomunicações’ da Amcham, intitulado de ‘Brasil: avanços e desafios frente à expansão do tráfego e as necessidades imediatas de investimentos’. O evento ocorreu nesta quarta-feira (27/03) em São Paulo e integra o programa Competitividade Brasil – Custos de Transação. Na ocasião, foi apresentada pesquisa inédita da Amcham sobre os desafios do setor.

Além da carga tributária, “há o problema de formação [de mão de obra] no setor, que necessita também de desregulamentação”, ressalta Anderson Ramires, sócio e especialista em Telecomunicações da PwC e mediador do debate. “É preciso diminuir a carga regulatória onde a competição já existe, como nos estados desenvolvidos, e legislar onde necessita ser estimulada”, explica ele.

Marcelo Bechara, conselheiro da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) que também participou do seminário, disse que a agência está se reformulando para enfrentar os desafios do mercado, incluindo a desregulamentação.

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Ele afirma ainda que o governo federal está fazendo sua parte e estimulou o setor privado para que tenha uma maior organização política, para atuar de forma conjunta e organizada na elaboração de políticas públicas.

Pesada carga tributária

Responsável por entre 5% e 6% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, o setor de telecomunicações poderia produzir mais riqueza se as condições fossem mais favoráveis. “Do custo total do setor, fechamos 2012 com 47% de impostos para o consumidor”, afirma Divino Sebastião de Souza, diretor presidente da operadora Algar Telecom.

Essa carga tributária é comparável com a dos setores de tabaco e bebidas, alguns dos que mais arrecadam impostos para o governo. “Somos uma indústria que tem influência transversal em todos os negócios e não vemos essa importância de tratamento pelo governo”, argumenta.

Souza disse que um trator pode ser financiado pela metade do preço graças a estímulos fiscais, condição que não atinge a telefonia. A situação é cada vez mais preocupante, considera. “Vemos o tráfego de telefonia crescendo, com receitas declinantes e custos crescentes”, comenta ele.

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Falta de mão de obra

O setor de telecomunicações emprega cerca de 500 mil profissionais no Brasil, e há espaço para mais. De acordo com estudos mencionados por Giuseppe Marrara, diretor de Assuntos Regulatórios da fabricante de hardware Cisco, há um déficit de 76 mil profissionais especializados no setor.

“Nessa área, a lacuna de gente com formação superior é maior. Formamos 22 mil profissionais por ano em 2012, enquanto a demanda cresce em 45 mil. É um descompasso claro que vai levar a um cenário assustador”, observa ele.

Nesse ritmo, o número de vagas não preenchidas no setor atingirá 117 mil em 2015. “A maior preocupação é que o descompasso entre demanda e oferta de profissionais está aumentando de maneira rápida. O grande desafio a médio e longo prazos é a formação de mão de obra”, indica ele.

A falta de profissionais encareceu o profissional no mercado, e hoje as empresas disputam essas pessoas “a peso de ouro”.

Marrara disse ser necessário que as empresas mantenham os esforços para capacitar profissionais, e que haja incentivos para que as ciências exatas se tornem mais atrativas aos estudantes de nível fundamental. Houve consenso também de que é preciso aumentar a atratividade da área para mulheres.

Para aumentar a oferta de profissionais em telecomunicações, Luís Minoru Shibata, diretor da PromonLogicalis, defende uma aproximação maior das empresas com as universidades, criando mais cursos voltados à área. “Temos que falar com universidades de ponta. Nos EUA, vemos salas universitárias com o nome de empresas. Porque não ter isso em universidades brasileiras?”, indaga ele.

Nesses cursos, também seria importante realçar o ensino de disciplinas voltadas ao empreendedorismo, acrescenta Minoru.

Alfredo Ferrari, vice-presidente de Desenvolvimento e Novos Negócios e Assuntos Corporativos da Nextel, se disse favorável à criação de políticas públicas de incentivo ao treinamento. “Seria interessante ter uma lei Rouanet para capacitação de pessoas. Isso faria as empresas investirem mais”, disse ele, em linha com discussões que a Amcham já promoveu sobre o tema da capacitação de mão de obra técnica.

Custos

Uma grande dificuldade para o setor está nos custos elevados de operação.  Isso é um fator que contém investimentos, lamenta Ferrari, da Nextel.

De acordo com ele, a operadora não tem planos imediatos de investir na tecnologia de transmissão de dados 4G, havendo optado por direcionar sua estratégia à rentabilização da 3G e apenas depois concretizar novos aportes.

“Quando se fala em serviços, o investimento tem que ser pago e é fundamental o bom tratamento ao usuário”, comenta. Para isso, Ferrari considera ser necessário trabalhar tanto na segmentação como na educação do público, “para que possa escolher os produtos que mais lhe interessam”.

“É preciso educar o público para que ele compre apenas a tecnologia que vai usar. Parece simples, mas não é: o usuário compra tecnologia de ponta, mas não usa tudo”, detalha Ferrari.

O desconhecimento da tecnologia é um fator que se reflete em custos maiores, concorda Benjamim Sicsú, vice-presidente de Novos Negócios da Samsung. “Mais de 80% dos aparelhos que vão para a assistência técnica funcionam perfeitamente. Isso acontece porque o cliente desconhece todos os recursos e o vendedor não soube explicar”, disse ele.

Por outro lado, os usuários que dominam todos os recursos acabam se tornando grandes consumidores de rede de banda larga. Trata-se de uma tendência que só tende a aumentar. “Sou um dos que usam apenas 20% do que os aparelhos permitem. Mas nossos filhos já sabem como usar e estão chegando, demandando mais rede”, comenta Sicsú.

O compartilhamento de redes e o uso de tecnologia nacional, se devidamente incentivados, também seriam fatores de aumento de competitividade. A legislação atual impede que as operadoras compartilhem uma mesma infraestrutura de transmissão de dados, o que as obriga a ter sistemas próprios – e caros – para isso.

“Quando coloco uma torre ao lado do concorrente, é um grande desperdício para o Brasil”, comenta Souza, da Algar Telecom. Se a lei permitisse o compartilhamento, muitas estruturas poderiam ser aproveitadas para outras frequências de transmissão – o que ampliaria a oferta de serviços de telefonia.

Um ambiente mais amigável de negócios é fundamental para o setor, completa Aloysio Xavier, diretor de Estratégia Institucional e Regulatório da Vivo/ Telefonica.

Um cenário de maior colaboração entre os players também foi defendido por Shibata, da PromonLogicalis. “Vimos nos últimos anos uma verticalização das operadoras. No futuro, terão que atuar mais em colaboração, num ecossistema.” Mas, com relação ao compartilhamento de infraestrutura, ele faz um alerta: “As operadoras têm que ter cuidado também, uma vez que a velocidade das mudanças é muito grande. À medida que começam a compartilhar, depois fica difícil descompartilhar. Trata-se de uma espécie de casamento e é preciso ter ciência disso”.

Xavier destaca que há muitas oportunidades decorrentes do desenvolvimento das redes de dados.

“À medida que cresce o uso de tablets e smartphones, também aumenta o uso da banda larga. Ao mesmo tempo, a competição cresce e os preços caem. Temos o desafio de criar um modelo sustentável de negócios”, aponta ele. Isso, completa o executivo, passa por criar serviços de maior valor agregado, que vão além do básico, do simples transporte de informações, e por garantir maior rentabilização das operações. “A previsão é de crescimento do tráfego em dez vezes nos próximos cinco anos. Isso coloca um desafio de investimentos.”

Regulação

Os investimentos necessários para a modernização da rede brasileira de telecomunicações dependem do ambiente legal. É preciso, por exemplo, que a regulação permita o compartilhamento de rede e antenas, reforça Xavier, da Vivo/ Telefonica.

Além de leis favoráveis às empresas, também é fundamental que elas incentivem o desenvolvimento setorial.

Representante dos fabricantes de equipamentos de telefonia, Esteban Diazgranados, diretor de Tecnologia Móvel para a América Latina da Alcatel-Lucent, disse ver oportunidades e desafios nesse campo. Com a tecnologia 4G ainda engatinhando no Brasil, há muita necessidade de células de rádio base para a transmissão de dados. “Com mais espectros [de transmissão], é possível usar tecnologias mais eficientes”, comenta.

Diazgranados completa: com os grandes eventos esportivos internacionais (Copa e Olimpíadas) chegando, os desafios vão se complicar. É, portanto, imprescindível avançar rápido no enfrentamento dos desafios.