Sistema multilateral de comércio deve ser preservado, diz ex-diretor da OMC Pascal Lamy

publicado 19/04/2018 13h29, última modificação 19/04/2018 14h35
São Paulo – Para dirigente, todos os países devem se empenhar para o funcionamento do sistema

O sistema multilateral de comércio mundial – onde os países concordam em trocar bens e serviços de acordo com regras previamente estabelecidas e supervisionadas por uma entidade internacional – tem que funcionar independente de qualquer país, afirma o ex-diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) Pascal Lamy.

"Pensar em uma OMC sem os EUA talvez seja uma opção necessária para que não sejamos chantageados", disse o consultor francês, no comitê estratégico de Presidentes da Amcham-São Paulo na segunda-feira (16/4). Atualmente, Lamy é consultor de geopolítica da Brunswick.

Ainda segundo Lamy, o sistema multilateral de comércio, representado pela OMC, deve ser mantido. "Se o cenário for o de minar a OMC, terá de haver uma séria coalizão para impedi-lo. Não vamos aceitar, temos de mantê-la funcionando."

Lamy se refere à decisão do governo americano de aumentar unilateralmente o imposto decorrente da importação de aço e alumínio ao seu mercado, medida que afeta países exportadores como o Brasil.

A escalada protecionista do governo Trump continuou no fim de março, quando o Escritório do Representante de Comércio Exterior dos Estados Unidos (USTR) publicou uma lista com 1,3 mil produtos chineses que serão sobretaxados, como sendo uma resposta a possíveis práticas comerciais desleais da China.

Na hipótese de os EUA impuserem sua vontade no comércio internacional, o sistema multilateral de comércio se tornará “irrelevante”. "Se Trump tentar acabar com a OMC e for bem-sucedido nisso, o órgão vai se tornar irrelevante. Não acredito que ele queira isso", opina o consultor.

Apesar das recentes medidas de comércio adotadas pelos EUA, ainda não é possível dizer se haverá mais decisões dessa natureza. Pode ser que (com as recentes decisões) Trump acredite que os EUA não estejam indo bem no que se refere às condições de comércio, e esteja buscando um balanço mais favorável ao seu país, de acordo com Lamy.

A segunda hipótese é que o presidente americano esteja considerando que negociar de forma bilateral – onde as regras de trocas são negociadas apenas entre os países envolvidos, e não multilateral, seja mais vantajoso. “No primeiro caso, significa melhorar o sistema (multilateral). O segundo é implodi-lo e voltar ao bilateralismo”, observa.