Somente gente qualificada pode lidar com novas tecnologias e elevar produtividade, garante professor do Insper

por andre_inohara — publicado 24/09/2012 15h13, última modificação 24/09/2012 15h13
São Paulo – Em seminário da Amcham sobre crescimento sustentável, especialista diz que acelerar a formação de pessoal especializado depende de boa gestão pública.
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A influência de uma educação de qualidade para o desenvolvimento brasileiro, conforme evidenciado em sondagem da Amcham, demonstra que a sociedade entendeu que só o capital humano bem preparado é capaz de produzir e lidar com inovações. Quem diz é Naércio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

“A pesquisa mostrou que as pessoas acham que educação e saúde, que formam a base do capital humano, são muito importantes para crescer de forma sustentável. Fiquei gratamente surpreso com a ênfase no capital humano, que não era uma coisa usual em pesquisas anteriores [sobre a baixa competitividade brasileira], onde se privilegiava muito o capital físico e as máquinas”, aponta ele.

A sondagem foi realizada pela Amcham durante o seminário “O que devemos fazer já para crescer 5% pelas próximas duas décadas?”, em 20/09 em São Paulo.

Diante de propostas apresentadas por economistas para que o Brasil cresça a essas taxas, o empresariado que participou do seminário priorizou, com 32% dos votos, a ênfase da formação de capital físico e humano na política de desenvolvimento.

O público também votou sugestões apresentadas por grandes empresários. Nesse caso, com 30% dos votos, apareceu na dianteira a proposta de transformar a educação em alicerce de competitividade e crescimento através da elevação do seu investimento para 10% do PIB (Produto Interno Bruto).

Veja aqui: Formação de capital humano é maior prioridade para Brasil alcançar crescimento sustentável, mostra enquete da Amcham

Leia abaixo a entrevista de Menezes ao site da Amcham, concedida após ele participar do evento:

Amcham: O que o seminário trouxe de novidades, em termos de discussão?

Naércio Aquino Menezes Filho: O evento e a pesquisa mostraram claramente a importância do investimento em capital físico e humano. Fiquei gratamente surpreso com a ênfase no capital humano, que não era uma coisa usual em pesquisas anteriores [sobre a falta de competitividade brasileira], onde se privilegiava muito o capital físico e as máquinas. Mas a pesquisa da Amcham mostrou que as pessoas acham que educação e saúde, que formam a base do capital humano, são muito importantes para crescer de forma sustentável.

Veja aqui: Investir em educação de qualidade é chave para garantir crescimento de 5% nos próximos anos, apontam economistas e empresários

Amcham: O que fez o capital humano se tornar relevante para o empresariado?

Naércio Aquino Menezes Filho: São os efeitos que o capital humano tem na produtividade. O Brasil só vai crescer de forma sustentável se houver crescimento da produtividade, e para isso é preciso novas tecnologias. Para incorporá-las, tem que haver mão de obra qualificada que saiba lidar com elas. Sem isso, não se tem resultados em crescimento de produtividade.

Amcham: Como integrar desenvolvimento humano com o tecnológico?

Naércio Aquino Menezes Filho: É preciso combinar investimento em máquinas modernas que incorporem tecnologia, com força de trabalho educada e uma base de empreendedores que criem novos produtos, que não fiquem só no portfólio tradicional. Temos que desenvolver um ambiente de empreendedorismo com inovação como nos EUA, onde um Steve Jobs [fundador da Apple] desenvolva produtos que as pessoas nem sabiam que desejavam.

Amcham: Que tipo de educação é mais importante para o Brasil?

Naércio Aquino Menezes Filho: Tem que haver estímulos desde a primeira infância. Um aprendizado adequado na pré-escola é a base para a assimilação de matemática e ciências nos ensinos fundamental e médio. Assim, o Brasil terá boas notas no Pisa [sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Alunos, rede mundial de avaliação de desempenho escolar] e haverá uma parcela maior de estudantes de exatas e tecnologia no ensino superior, que, por sua vez, entram nas empresas com mentalidade voltada para tecnologia e novos produtos. Isso aumenta a produtividade das empresas, o que leva ao crescimento de longo prazo. O caminho correto é esse, começar uma educação sólida na primeira infância para se chegar à tecnologia e ao crescimento de longo prazo.

Amcham: Como acelerar o desenvolvimento educacional?

Naércio Aquino Menezes Filho: O foco é em alfabetização e resultados no ensino infantil, começando desde a pré-escola. Também é preciso focar em gestão, ou seja, diretores e professores cobrarem o desempenho dos alunos com metas claras de resultado. Incutir essa cultura na gestão na rede pública e foco em alfabetização já a partir dos primeiros anos de vida ajuda. É possível fazer. O que se precisa é espalhar os bons exemplos.

Amcham: Poderia dar exemplos de como isso pode ser feito?

Naércio Aquino Menezes Filho: Há movimentos como o Todos pela Educação [movimento civil para universalizar a educação até 2022], da iniciativa privada, para mobilizar a sociedade para a importância da educação. Além de Fundação Bradesco e Itaú Social, existem várias entidades e fundações de empresas preocupadas com a educação. A grande dificuldade é romper tabus porque para se ter metas claras e gestão apropriada dentro do sistema público.

Amcham: Que tabus o sr. se refere?

Naércio Aquino Menezes Filho: Isso é muito difícil porque há muita reação negativa da sociedade, corporativismo. Para romper, é preciso um gestor público forte, que tenha capacidade de mobilizar e atuar como líder. Só assim os resultados aparecem. Em Sobral (CE) e Foz do Iguaçu (PR), há escolas com excelência maior que os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Porém, o Brasil tem 5,5 mil municípios e consegue ser efetivo somente em dois ou três. A questão é como espalhar a experiência positiva para todos os municípios.

Amcham: E de que forma o Estado pode melhorar a gestão da educação?

Naércio Aquino Menezes Filho: O primeiro passo é colocar secretários de educação que sejam bons gestores. Ainda persiste no Brasil, principalmente em municípios pequenos, a prática de indicações políticas, por laços familiares ou acomodação de interesses políticos de partidos. É preciso que o secretário de Educação ou Saúde seja o melhor gestor do município para que viabilize o aprendizado que torne o capital humano gerador de crescimento. Temos que colocar gestores mais competentes para lidar com educação e saúde, para que assim tenhamos resultados de longo prazo.

Veja aqui: Alta carga tributária é um dos maiores freios da competitividade do Brasil, dizem empresários