Tempos de crise são os mais inspiradores para inovar, afirma professor da USP

por marcel_gugoni — publicado 16/08/2012 18h25, última modificação 16/08/2012 18h25
São Paulo – Melhoria do cenário de pesquisa no Brasil depende do desenvolvimento de cultura de inovação e de maior integração entre o setor público e o privado para realizar projetos.
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O melhor remédio para enfrentar uma crise econômica é a inovação em doses fortes acompanhada de injeções de investimento. Essa é a receita dada por Jacques Marcovitch, especialista em pioneirismo empresarial, estratégia e inovação e professor da Universidade de São Paulo (USP). “Os tempos de crise oferecem grandes oportunidades e são inspiradores para a inovação, mas precisamos de pioneiros”, afirma. 

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Marcovitch diz que os pioneiros são os indivíduos que “conseguem enxergar o que a maioria não enxerga e têm uma sensibilidade e um olhar para, na crise, saber qual projeto inovador priorizar”. A questão é como incentivar que se pesquise agora o que será a necessidade econômica daqui para a frente, explicou o acadêmico, que mediou os debates do seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado pela Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (16/08). 

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“No passado, de 1930 a 1945, o Brasil prosperou em plena crise mundial [de 1929 iniciada nos EUA]. Por isso, não vejo motivos para não prosperarmos mesmo que o mundo desenvolvido esteja vivendo mais uma crise. Em tempos de incerteza, é hora de investir mais.” 

A lição vai desde o desenvolvimento de uma cultura de inovação que preze pela transformação das ideias em projetos práticos e seja capaz de mensurar os resultados até a integração entre o setor público e o setor privado, isto é, empresas e organismos de fomento e pesquisa, para viabilizar os projetos. “Se cada um faz sua parte, todos conseguem inovar.” 

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Diante do quadro de que a maior parte das pesquisas no Brasil está concentrada em universidades, o professor defende que as empresas passem a andar junto delas para aplicar as inovações em prol da sociedade. O papel dos organismos como o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) e Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) é dar uma base forte de incentivos financeiros e de segurança jurídica da proteção de patentes. “A direção da nossa inovação está correta, a política de inovação é esta mesma, mas é preciso dar mais velocidade.” 

Leia os principais trechos da entrevista com Jacques Marcovitch: 

Amcham: A inovação depende mais de uma mudança de cultura ou de execução de pesquisa e processos?

Jacques Marcovitch: Essas duas atividades são indissociáveis. Muda-se a cultura fazendo. A melhor forma de criar uma cultura é valorizar a ação. Isso tanto na construção de valores quanto na resolução de problemas. Na medida em que damos prioridade à ação, e temos exemplo das instituições acadêmicas que valorizaram um engenheiro que desenvolveu uma patente e viu retorno financeiro sobre isso, outros passam a se guiar a partir de uma mudança. Costuma acontece que, quando um faz e acerta, outros buscam mimetizar esta ação com projetos distintos. 

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Amcham: Esse exemplo inicial tem que vir do setor público ou do privado?

Jacques Marcovitch: Ambos caminham conjuntamente. Cabe ao setor privado declarar e determinar sua demanda. Temos várias empresas no Brasil que anunciam quais são suas demandas na área de inovação tecnológica. Esse é um passo que o setor privado está dando. É evidente que os agentes públicos relacionados, como o INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], por exemplo, têm que dar o apoio. Mesmo porque o INPI não pode ficar longe de iniciativas de parcerias universidade-empresa e prezar para que a proteção do conteúdo construído seja assegurada. Em regiões menos maduras de uma economia, como é o caso dos estados do Norte do Brasil, em que há pouca atuação para a iniciativa privada, o setor público deve ter uma ação interventora rumo a este primeiro passo para construir uma mentalidade orientada ao resultado. Mas, quando falamos de uma região como a Centro-Sul, com uma economia mais pujante e uma atividade empresarial mais madura, cabe ao agente governamental somente o apoio. Se cada um faz sua parte, todos conseguem inovar. 

Amcham: Qual a avaliação que o sr. faz da pesquisa da Amcham mostrando a necessidade de disseminar a inovação no Brasil?

Jacques Marcovitch: A prioridade mostrada é a de dar mais visibilidade aos acertos e aos resultados daqueles que conseguem colher frutos. Mas isso não quer dizer que não devemos valorizar os erros e os fracassos. Devemos mostrar os dois. Porém, é preciso aumentar a autoestima brasileira, a capacidade de inovação, mostrando os dois casos. Com ambos é possível aprender. 

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Amcham: Qual a mensagem que fica para o País sobre esse assunto da inovação e competitividade?

Jacques Marcovitch: Uma das ideias é que estamos na direção certa, mas em uma velocidade muito lenta. Há já uma consciência no Brasil de que as grandes transformações e as grandes rupturas que estão acontecendo, a tecnológica principalmente e de avanço na biogenética, e na neurociência, tudo isso mostra materialização desse movimento de ruptura. Na área demográfica, o Brasil chegou nos 200 milhões de habitantes e o mundo passou de 7 bilhões de pessoas. Na área econômica, há uma crise muito semelhante à crise de 1930, que começou em 2008 e ainda causa efeitos sofridos devido à lentidão do desenvolvimento dos países avançados. Na área energética, há uma readequação da matriz energética e um debate forte depois do ocorrido em Fukushima. Em termos de política, estamos migrando para um mundo cada vez mais multipolar, o que gera uma nova configuração geopolítica. No Brasil, na região Norte e Centro-Oeste, vemos áreas sofrendo grandes transformações. Esses aspectos só nos fazem ver que a direção da nossa inovação está correta, a política de inovação é esta mesma, mas é preciso dar mais velocidade. 

Amcham: É possível dizer quando o Brasil conseguirá saltar das últimas posições dos rankings de inovação para as primeiras?

Jacques Marcovitch: É difícil prever esse tipo de coisa. O Brasil deve, sim, se concentrar em suas prioridades e adotar métricas claras e rígidas para inovar. De que maneira chegaremos em 2030 é impossível determinar. Não há um fator externo ou interno que mostre essa possibilidade. Até porque quem diria, em 2005, que o mundo desenvolvido estaria vivendo, em 2008, a fragilização das economias como dos Estados Unidos e de países de Europa? Isso mostra que a previsão é útil como instrumento de reflexão, mas não há determinismo, mas esforço e metas. 

Amcham: Olhando para esta crise de 2008, dá para dizer que as melhores inovações ocorrem em tempos de crise?

Jacques Marcovitch: Os tempos de crise oferecem grandes oportunidades e são inspiradores para a inovação, mas precisamos de pioneiros. Esse indivíduo é aquele que consegue enxergar o que a maioria não enxerga e tem uma sensibilidade e um olhar para, na crise, saber qual projeto inovador priorizar. A questão é como incentivar esses pioneiros e como criar agora o que será a necessidade econômica daqui para a frente. No passado, de 1930 a 1945, o Brasil prosperou em plena crise mundial [de 1929 iniciada nos EUA]. Por isso não vejo motivos para não prosperarmos mesmo que o mundo desenvolvido esteja vivendo mais uma crise. Em tempos de incerteza, é hora de investir mais.