Venda de ativos de gás da Petrobras renderia cerca de US$ 20 bilhões para serem usados no pré-sal

por andre_inohara — publicado 23/05/2013 08h39, última modificação 23/05/2013 08h39
São Paulo – ANP e setor privado defendem descentralização da cadeia produtiva de gás natural
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Com demanda reprimida e oferta excedente, o mercado de gás natural brasileiro poderia receber mais investimentos privados se o ambiente de negócios fosse mais favorável. Apesar dos aportes de capital feitos no setor, a estatal Petrobras é a operadora exclusiva da cadeia de processamento e distribuição do gás natural.

Se essas etapas fossem descentralizadas, haveria espaço para um rápido desenvolvimento do mercado brasileiro devido à entrada de mais empresas, e com uma vantagem adicional.

A venda dos ativos da Petrobras no setor ainda permitiria uma capitalização de cerca de US$ 20 bilhões para investir nos projetos do pré-sal, defendem os especialistas do setor privado e da ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis que participaram do comitê de Energia da Amcham-São Paulo na quarta-feira (22/5).

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“A Petrobras precisa de dinheiro para investir no pré-sal, e tem nesses ativos (de gás) pelo menos uns US$ 20 bilhões a recuperar dos investimentos feitos”, argumenta Marco Tavares, presidente do conselho executivo de administração da consultoria Gas Energy.

Por decisão do governo federal, acionista majoritário da Petrobras, a estatal constituída em 1953 para atuar exclusivamente no setor de petróleo também opera nos mercados de gás natural, fertilizantes e energia térmica.

“Temos que mexer e introduzir alguns elementos de mercado, fazendo o que não conseguimos até hoje: quebrar a estrutura monopolística do gás no Brasil”, acrescenta o consultor.

Para Tavares, a estatal se estende a setores que não são o seu negócio principal – exploração e distribuição de petróleo e derivados – sem conseguir eficiência. “É preciso reduzir a participação da Petrobras em térmica e fertilizantes. Vender e licitar os gasodutos e sair das distribuidoras de gás”, afirma ele.

O foco da Petrobras em sua atividade principal também é defendido por José Cesário Cecchi, superintendente de comercialização e movimentação de Petróleo, seus Derivados e Gás Natural da ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. “Temos que gerar uma mudança na indústria que incentive a desconcentração dos mercados potencialmente competitivos. Enquanto isso não acontecer, nada vai mudar”, comenta Cecchi.

Mercado promissor e pouco explorado

Na matriz energética, o gás natural é abundante e figura como uma alternativa mais barata que o petróleo, ao lado das energias renováveis (etanol e eólicas). Nos Estados Unidos, o gás natural liquefeito (GNL) está substituindo o óleo diesel usado em veículos pesados.

De acordo com Tavares, a frota americana de transporte pesado é estimada em 8 milhões de veículos, que consomem 25% do total de derivados de petróleo produzidos. O diesel está sendo gradualmente substituído pelo GNL, o que traz um impacto ambiental positivo (redução de poluentes na atmosfera). “Começou nas cidades americanas, primeiro no transporte urbano e de lixo, e agora no de carga”, detalha Tavares.

Em poucos anos, os EUA serão exportadores de GNL. No Brasil, a produção de gás é a mesma de 2007, equivalente a 40 milhões de metros cúbicos diários. “Continuamos tendo que importar gás da Bolívia. Nossa indústria está maior do que há seis anos, mas o consumo de gás não acompanhou.” Além disso, a necessidade de despachar gás para as usinas termelétricas em momentos de seca atrapalha a previsibilidade da oferta.

“A importação flexível de GNL um problema sério. Ela é puxada nos momentos de pico, quando é preciso despachar energia para as termelétricas. É uma demanda complementar que gera problemas para a indústria. Essa estrutura ineficiente faz a gente estar em situações acima dos concorrentes em termos de preço.”

Há boas notícias para o setor, com a volta dos leilões de petróleo e gás natural, observa Tavares. Em 14/05, a ANP disponibilizou 52 blocos em três bacias de áreas do Maranhão, sendo que 41 foram arrematados para exploração.

Até 2020, Tavares disse que o crescimento da oferta de petróleo e gás natural no Brasil será de 20%. “O Brasil tem demanda reprimida e oferta excedente para frente, acreditamos muito nisso. Há mercado para todos, desde que ele fique competitivo”, comenta ele.

Concorrência seria bom para a própria Petrobras

Disputar mercados é uma forma de motivar as empresas a se superar constantemente. José Cesário Cecchi, da ANP, lembrou que a Emenda Constitucional 9/1995 quebrou o monopólio da Petrobras na exploração da atividade petrolífera. 

“Quem mais se fortaleceu com isso foi a própria Petrobras”, disse Cecchi. “Hoje ela compete com várias empresas e está mais forte. Antes era monopólio de direito e agora é de fato. Ela não pode perder essa visão de mercado, porque ela entende de petróleo, não de fertilizantes”, acrescenta o dirigente.

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