“Ouvi que não tinha perfil e que meu cabelo não funcionava em uma coroa”, afirma Miss Brasil 2017

publicado 28/09/2017 17h40, última modificação 04/10/2017 10h48
São Paulo – Monalysa Alcântara relatou episódios em que sofreu racismo durante Fórum de Diversidade da Amcham

Monalysa Alcântara, eleita a Miss Brasil 2017 em agosto e terceira negra a vencer o concurso, não ia participar do Miss Piauí neste ano. Um episódio de racismo, duas semanas antes da etapa estadual, a fez mudar de ideia. A modelo participaria de um desfile quando foi impedida pela dona da loja, com a justificativa que a cor de sua pele não valorizava as roupas da marca. “Eram dez meninas que iam desfilar, quatro delas negras, e as quatro foram impedidas de vestir as roupas. Esse episódio poderia ter outro efeito na minha vida, me feito desistir, mas na verdade foi o que me fez participar do Miss Piauí. Pensei que realmente não merecia vestir aquelas roupas, eu merecia vestir a faixa do meu estado no meu peito”, revelou, durante o Fórum de Diversidade Amcham - São Paulo, no dia 28/09.

Em diversos concursos, Alcântara já tinha escutado comentários que ela não tinha ‘perfil’ ou que seu cabelo crespo ‘não funcionava’ em uma miss. Por isso, a piauiense não se surpreendeu quando, após sua vitória no concurso nacional de beleza, recebeu uma chuva de comentários ofensivos e racistas nas redes sociais. “Eu já imaginava que isso ia acontecer, porque sou negra, sou do Piauí, nordestina. Eu sabia que ia incomodar muito, e essa era a minha intenção, porque se está incomodando, significa que tem um problema e precisamos resolvê-lo”, alerta a jovem.

Nem sempre a estudante encarou a sua própria identidade com tranquilidade. Antes dos treze anos, ela alisava os cabelos e percebeu que a química estava fazendo seu cabelo cair. “Quase acabei com a minha saúde por conta disso. E não tinha ninguém que me ajudasse a entender o que estava acontecendo comigo, porque me sentia diferente, porque as pessoas me tratavam diferente”, explica. A partir do momento que, sozinha, começou a pesquisar na internet, Alcântara começou a entender sua própria identidade como mulher negra - um processo que classifica como dolorido e solitário. Algo que a ajudou foi ter visto a atriz Taís Araújo protagonizando uma novela com os cabelos cacheados. "Bastou uma negra estar ali para eu me agarrar naquilo", destaca, reiterando a importância da representatividade.

Diversidade nas empresas

Os constantes questionamentos sobre capacidade e aparência são uma realidade para a população negra do país, principalmente dentro do mercado de trabalho. Além da discriminação racial como a sofrida pela modelo, pessoas negras continuam a receber menos do que brancos, mesmo ocupando as mesmas posições. A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE indicou que, em 2015, um homem negro ganhava cerca de 59% do salário de um branco.

Cida Bento, diretora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), afirma que o rendimento de pessoas negras melhorou nos últimos anos. No entanto, a disparidade entre brancos e negros continua praticamente a mesma. “É aí que entra a ação afirmativa. Por isso que se faz. se todo mundo tiver as mesmas oportunidades, vão continuar assim: todos melhorando, mas nunca vai alterar o gap”, afirma.

A executiva afirma que, para construir uma estratégia de diversidade eficiente nas organizações, mensurar a diversidade é algo fundamental. “A empresa tem que entender o censo como um instrumento de gestão para acompanhar mês a mês a situação”, afirma. Identificar se mulheres estão recebendo tantos treinamentos quanto homens, por exemplo, pode ajudar a captar um desafio e consequentemente facilita o desenvolvimento de práticas para atacar aqueles desafios. Elaborar métricas também é uma boa estratégia, segundo a especialista, já que evidenciam os compromissos empresariais - através desses números, fica mais fácil realocar recursos onde precisa.

Outro ponto importante que Bento lembrou foi a comunicação que essas empresas estabelecem com as minorias. No caso de um processo seletivo, por exemplo, não basta enviar a vaga - é preciso esclarecer que a organização está mudando e quer chamar esses grupos para fazer parte de fato daquele negócio. “Para segmentos que sempre foram excluídos, precisamos estabelecer outro tipo de comunicação. Como fazer isso com a juventude negra, ou a juventude trans? Às vezes, dá pra fazer isso com uma imagem, dizendo que [a empresa] está mudando e que está chamando essas pessoas”, afirma.

A diversidade não tem um impacto importante apenas dentro da organização, promovendo um ambiente organizacional positivo e mais inovador. Ela também abre portas para elaborar produtos e serviços para grupos antes marginalizados e conquistar novos segmentos do mercado consumidor. Monalysa Alcântara lembra que achar um produto de maquiagem no tom de sua pele ainda é difícil: “Quando vejo uma marca lançando um produto que presta atenção na nossa pele, acho incrível” Para a miss, esse processo ainda ocorre de forma lenta, mas que é irreversível.