69% das mulheres já enfrentaram alguma barreira na trajetória profissional por conta de gênero

publicado 08/03/2019 16h48, última modificação 08/03/2019 17h00
Brasil – Levantamento nacional contou com a participação online de 770 executivas de diversos cargos e níveis
Pesquisa Amcham Brasil - Mulheres no Mundo dos Negócios.jpg

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em uma pesquisa nacional* inédita com 770 executivas de diversos cargos e níveis, a Amcham detectou que pelo menos 69% (532) delas já sentiu alguma barreira na carreira por ser mulher. O dado ajuda a compreender que, apesar de se discutir muito mais sobre desigualdade de gênero no mundo corporativo, a maioria das mulheres ainda sofre com algum tipo de disparidade dentro do mercado.

Para a maioria dessas mulheres, o momento em que perceberam essa barreira foi durante alguma reunião, relatando ter tido pouco espaço para expor suas ideias ou sendo interrompidas em suas colocações (31%). Em seguida, 109 delas (19%) apontaram que foi quando sofreram assedio moral/sexual por parte de um colega de trabalho, cliente ou líder. Outro fator de desigualdade foi a falta de reconhecimento de projetos ou iniciativas de sua autoria (17%). Na pesquisa, elas também apontaram sofrer por pressão estética (13%), durante entrevistas (12%) e processos seletivos, ao serem mais testadas ou questionadas que candidatos homens. A maternidade, para 8%, foi o estalo: elas perceberam que, após ter filhos, foram tratadas de maneira diferente pela empresa.

 

Em quase três anos, o que mudou?

Na pesquisa, mais de 60% das mulheres responderam que a empresa em que trabalham atualmente trata de maneira igualitária homens e mulheres. Em outubro de 2016, durante um Seminário de Empoderamento da Mulher, a Amcham também realizou uma pesquisa com 250 diretores e executivos. Na época, 76% dos entrevistados reconheciam que as empresas não tratavam homens e mulheres de forma igualitária. Ou seja: em menos de três anos, a percepção das pessoas sobre igualdade de gênero nas organizações mudou muito – e para melhor.

Sobre o momento em que a diferença de tratamento foi maior, houve pouca mudança. Em 2016, 80% dos respondentes percebiam a diferença de tratamento na promoção de novas lideranças. Na nova pesquisa, 68% das mulheres apontaram a escolha majoritária de homens para cargos de liderança como esse fator. O restante apontou a seleção (16%) e o desenvolvimento (16%) como outros momentos em que a desigualdade ficaria mais evidente, tanto com a priorização de contratação, treinamento e capacitação dos homens na companhia.

 

O que precisamos fazer?

Quando questionadas sobre qual deveria ser a política prioritária para promover mais equidade de gênero nas organizações, a maioria (30%) apontou a necessidade de transformar o mindset relacionado à maternidade, promovendo igualdade entre as licenças de paternidade e maternidade, além de uma série de medidas que facilitaria a vida de novas mães e novos pais (creches nas empresas, horários mais flexíveis quando a criança é pequena). Cerca de 29% lembraram de políticas relacionadas a equiparação salarial, enquanto 17% trouxeram a necessidade de focar em treinamentos e formação de lideranças femininas. Outros 17% gostariam de focar eventos de diversidade e campanhas internas, trazendo a discussão para o trabalho, envolvendo lideranças e homens para explicar a importância do tema para a empresa . Apenas 6% priorizariam montar um grupo de trabalho focado em gênero.

 

Debate público

Para a maior parte das mulheres (63%), a discussão e o esforço em acabar com a desigualdade de gênero estão mais presentes na sociedade, graças à mais exposição de casos de violência e cobranças de movimentos sociais, como o Me Too (movimento contra o assédio sexual, que ganhou notoriedade principalmente entre personalidades de Hollywood). Apenas 23% trouxeram o protagonismo do setor privado nessa discussão, enquanto o setor público foi o menos citado (8%).

Quanto às falhas do setor público em debater o tema, as respondentes apontaram tópicos em que não veem um foco do governo e acham que a empresa deveria investir de maneira redobrada. A maior delas apontou a representatividade feminina (36%) como o principal foco, apontando a necessidade de mulheres em cargos de liderança. Em seguida, 24% delas apontou a necessidade de trazer auxílio e apoio para colaboradores que passam por algum tipo de violência contra a mulher. O restante apontou a necessidade de trazer o debate para os colaboradores (21%), enquanto 19% relataram a necessidade de incluir mulheres negras e/ou transexuais.

 

Perfil das empresas

Em 2019, 70% das entrevistadas apontaram que há espaço para falar de inclusão de gênero dentro de suas organizações, enquanto apenas 30% relataram que não. A maior parte das iniciativas relacionadas a gênero atualmente partem da liderança feminina (50%), enquanto 39% das entrevistadas relataram que o tema não é discutido pela organização. Apenas 11% apontaram que a liderança masculina tomou iniciativas relacionadas ao assunto.

Sobre igualdade de gênero nas empresas, a maioria das entrevistadas colocou que as empresas adotam algum tipo de mecanismo de igualdade (74%). A maioria apontou que a empresa defende publicamente a prática, mas que os mecanismos de promoção de igualdade são escassos (28%), enquanto 23% apontaram que a empresa não manifesta apoio público, mas possui mecanismos efetivos de promoção da igualdade, como equiparação de salários e oportunidades . Outros 23% colocaram que o discurso e a prática estão alinhados: além de defender publicamente a prática, as empresas também possuem mecanismos efetivos de promoção da igualdade, como equiparação de salários e oportunidades. Apenas 26% das empresas não adotam quaisquer práticas sobre a igualdade.

 

Representatividade

Nessas empresas, as áreas que tem mais representatividade feminina são Recursos Humanos (48%) e Marketing e Comunicação (13%). Já as áreas com menos mulheres são Tecnologia (39%), Operações e Produção (27%) e Vendas e Comercial (11%).

 

Discriminação

A maioria das organizações (57%) não possuem canais de comunicação que acolham e atuem sobre denúncias relacionadas à discriminação de gênero, de acordo com as entrevistadas. Apenas 43% possuem algum tipo de canal. Quando questionadas sobre a efetividade desse canal em apurar e tomar previdências para coibir comportamentos abusivos, a maioria pontuou que não vê mudanças (44%), enquanto 19% não confiam nesse canal para fazer denúncias. Apenas 37% identificaram que houve mudanças de atitudes positivas a partir da atuação do canal.

 

Interseccionalidade

Ainda analisando as empresas das mulheres entrevistadas, 94% das companhias têm políticas de gênero específicas para mulheres negras. Enquanto isso, apenas 8% constroem iniciativas voltadas para mulheres transexuais, lésbicas e bissexuais.

 

* A pesquisa foi realizada nas 15 cidades em que a Amcham atua: Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Campo Grande, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Joinville, Porto Alegre, Recife, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Uberlândia.