A brincadeira como transformação: o que palhaços em um hospital têm a ensinar para empresários

publicado 06/12/2018 17h51, última modificação 10/12/2018 09h16
São Paulo –Wellington Nogueira trouxe a essência do trabalho do Doutores da Alegria no Be Inspired
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Mudança no olhar, flexibilidade e criação: palhaços do Doutores da Alegria fazem isso diariamente nos hospitais

Dentro de um hospital, uma faixa que isola uma área para limpeza vira uma linha de chegada em uma corrida de carros. A imaginação de um palhaço, que pilota a cadeira de rodas de uma criança doente, cria um momento de riso e diversão dentro de uma realidade difícil.

A mudança no olhar, ter flexibilidade em uma estrutura rígida e a criação de uma experiência em conjunto é a essência do trabalho do Doutores da Alegria, segundo Wellington Nogueira, sócio-fundador.

Quando teve o contato com esse tipo de trabalho em Nova York e trouxe a ideia para o Brasil, ele lembra que “palhaço em hospital era uma coisa estapafúrdia”. No início da década de 90, no entanto, ao contrário das expectativas, iniciativas do tipo começaram a se replicar pelo mundo. "O que aconteceu comigo foi o futuro", analisa ele. A flexibilidade, adaptação, interação, cocriação e humanização são palavras que sempre fizeram repertório do trabalho dos palhaços - hoje, são características almejadas por empresas dentro de uma nova realidade de negócios mais complexa.

"O que o hospital ensinou para gente? Nem sempre o que você vê é o que você vê, nem sempre o que você ouve é o que você ouve - vale a pena sair da zona de conforto para investigar", relata.

 

O poder da brincadeira

Para Nogueira, o hospital é uma fonte de inspiração. As crianças que ali estão, por priorizarem a brincadeira, conseguem facilmente se conectar com suas próprias potências - mesmo na dificuldade e na dor.

“Elas abrem espaço para o que é vital. O brincar é transformador porque coloca a gente em uma condição de igual para igual com os problemas, como a gente olha para eles. Mais do que vencê-los, temos que enxergar que oportunidades eles trazem pra gente se elastificar, se engrandecer, ver possibilidades onde elas não existiam. Tudo, na verdade, é um jogo. Eu vejo que o maior crime que você pode cometer contra um ser humano é falar: acabou a brincadeira, agora é sério. Isso faz a gente deixar de perguntar onde está a graça. E a graça, para mim, vem no sentido mais amplo da palavra: a bênção, o divino, o sagrado no cotidiano do que a gente faz”, explica.

 

Relações com o trabalho

“O local de trabalho é onde o adulto se interna”. A frase de Nogueira serve justamente para provocar a reflexão sobre a relação com o trabalho: cada vez mais tóxica, com mais pessoas desenvolvendo ansiedade e depressão.

A sua dica é voltar a fazer como o que fazíamos quando crianças - explorar o mundo brincando, tentar um novo jeito de dominar o conhecimento e fomentar a criatividade. A postura a ser tomada é reconhecer que não é possível saber de tudo, então refletir sobre a possibilidade de todo dia eu vou aprender coisa novo, como vou inventar, onde está a graça. E usar outras pessoas como conexão, para se conectar.

Precisamos ser mais palhaços no trabalho.