Apagão no Brasil é de educação, dizem especialistas de RH

por marcel_gugoni — publicado 07/03/2012 18h03, última modificação 07/03/2012 18h03
Marcel Gugoni
São Paulo – Empresas sofrem para encontrar e reter talentos, e investem na formação de colaboradores.
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O desemprego no Brasil está em seus menores níveis da história, e ainda há muitas vagas abertas em empresas sem profissionais qualificados para preenchê-las. Esse problema de mão-de-obra é tratado como “apagão de talentos”, mas na verdade esconde uma falha estrutural em toda a cadeia educacional. 

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O Brasil sofre com um apagão de educação, como concordaram os especialistas que participaram nesta quarta-feira (07/03) de reunião extraordinária do comitê aberto de Gestão de Pessoas na Amcham-São Paulo, o qual debateu o tema “Fazer diferente no novo contexto do mundo do trabalho da ‘Era do Potencial Humano’”. 

Jonas Prising, vice-presidente das Américas da Manpower, consultoria especializada em Recursos Humanos, diz que o acesso aos talentos é o caminho para o sucesso das empresas. “Mas a dificuldade é justamente encontrar esses talentos”, afirma. “O problema está na educação.” 

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“As vagas de trabalho exigem determinadas habilidades e formação. Quem não tem um ou outro não consegue o emprego”, afirmou. Educação de base é fundamental, reforça ele. 

Wagner Brunini, vice-presidente de Recursos Humanos América do Sul da Basf, que também participou do evento, afirma que o mercado de trabalho brasileiro – e, da mesma forma, o global – tem um grande desafio de qualificação de trabalhadores. “Não temos apagão de talentos, temos apagão de educação”, critica. 

“Hoje, ninguém mais quer ser químico, ninguém quer saber de tabela periódica”, conta o diretor de RH da empresa, que atua no setor químico fabricando plásticos, insumos industriais, tintas e outros. “Estamos tendo que formar professores internamente que ensinem química e atraiam profissionais para a área.” 

Prising, da Manpower, afirma que, no caso dos países ricos, a situação é dúbia à medida que há altíssimos níveis de desemprego e empresas reclamando que não são capazes de encontrar mão-de-obra qualificada para trabalhar. Sobram profissionais sem vaga e vagas sem trabalhadores. 

Quem é o talento 

O profissional talentoso não é alguém com capacidades mentais sobre-humanas ou habilidades geniais e únicas. “Os talentos são as pessoas que contribuem com o crescimento da empresa”, diz Prising. Em outras palavras, é alguém engajado e motivado que sabe executar a tarefa para a qual foi contratado. E ainda assim é difícil de encontrar. “Falar dos talentos é assunto de suma importância.” 

O especialista da Manpower usa uma metáfora para falar de como as empresas têm lidado com a questão de jovens recém-saídos dos bancos das faculdades. “Muitas buscam empregados como compram gasolina no posto”, afirma. Isto é, já querem o produto acabado, que demorou a ser refinado em um processo que custa caro – a graduação. 

“As companhias precisam ir direto à fonte”, analisa. “Vemos empresas de várias partes do mundo buscando parcerias com escolas e instituições de ensino para criar sua própria fonte de talentos. E algumas delas apóiam a formação desde o ensino básico.” 

Há uma tendência de cada vez mais empresas aderirem às escolas corporativas e ao ensino focado. “Mas isso é uma obrigação não só da sociedade ou dos governos. Cada um tem que ser responsável pela própria instrução, enquanto as empresas não devem abrir mão de oferecer treinamento e desenvolvimento para formar para si os melhores profissionais e mantê-los.” 

Menos trabalhadores 

Eduardo Pellegrina, diretor de RH da Itautec, diz que é difícil encontrar pessoas para trabalhar por conta da defasagem educacional. E ele não se refere somente à educação formal, mas também de vivência. “Hoje queremos agilidade. E os jovens estão integrados e aprendem rapidamente”, diz. “Mas há coisas que só a vida e o tempo ensinam.” 

“Temos uma bifurcação social enorme. Vemos sair das faculdades uma geração de gênios com uma capacidade de integração, aprendizado rápido e multitasking (multitarefa)”, afirma. “Mas estamos formando uma geração com muitos potenciais fora do mercado.” 

Uma pesquisa da Deloitte apresentada pelo especialista da Manpower mostra que a própria força de trabalho está encolhendo em diversas partes do mundo. 

Na China, por exemplo, entre 1970 e 2010, o mercado de trabalho viu sua população ativa crescer mais de 100%. De 2010 a 2050, é esperada uma retração na casa dos dois dígitos. O Brasil, nos últimos quarenta anos, aumentou em 150% seu mercado de trabalho. Nos próximos 40, o País verá uma taxa bem mais tímida, pouco acima dos 10%. 

Tecnologia 

“A força de trabalho está diminuindo e envelhecendo e vemos vários países com problemas neste sentido”, relata Prising. “E as empresas sempre buscam fazer cada vez mais com cada vez menos.” A tecnologia terá papel fundamental neste novo cenário. 

Uma das saídas apontadas para a “Era do Potencial Humano” é manter a inovação a favor da tecnologia, que por sua vez deve levar a um avanço da produtividade. “O crescimento das cidades é um movimento que vai continuar acontecendo pelo simples fato de que as empresas vão aonde as oportunidades estão”, pondera. 

Então, um caminho é flexibilizar o dia de trabalho e o modo de trabalhar remotamente. “Conheço empresas em que mais da metade da força de trabalho trabalha fora do escritório”, diz. “As novas gerações, por exemplo, já não veem mais televisão, elas jogam online com gente do mundo todo. E isso é um dos indicativos de que o modo como elas colaboram entre si mudou.” 

Liderança 

E esses novos arranjos requerem mais trabalho no que diz respeito á formação de lideranças. Brunini, da Basf, lembra que, quando ele começou a trabalhar, os diretores da empresa costumavam dizer que as portas estavam abertas e que os funcionários fossem até eles. “Hoje, os jovens vêm até nós sem que precisemos pedir.” 

Olga Colpo, CEO da Participações Morro Vermelho, holding da construtora Camargo Correa, avalia que há um senso de urgência, de compromisso e de responsabilidade das empresas e das lideranças na busca por resultados. 

Brunini concorda: “há esta fotografia, mas é preciso ter cuidado com o capital humano”, analisa. “Nós, de RH, só conseguimos manter este capital humano se entendermos que investir em pessoas, em educação e em um bom ambiente de trabalho não é só modismo, mas business.” 

Pellegrina avalia que se foi o tempo em que a liderança era exercida por um chefe inacessível e obedecido inquestionavelmente pelos funcionários. “Vemos que essa nova geração busca qualidade de vida, e o líder que atrai hoje é aquele que oferece um bom ambiente de trabalho”, afirma. 

Prising aponta para o mesmo caminho. “As pessoas procuram e escolher empresas que vão ao encontro dos seus valores e crenças. Hoje existem quatro gerações no mercado de trabalho e os gestores de RH precisam criar ações de motivação personalizadas para cada perfil de colaborador.”

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