As expectativas de sete setores da economia para 2015

publicado 06/10/2014 15h58, última modificação 06/10/2014 15h58
São Paulo – Representantes setoriais dizem que baixa competitividade da economia segura o crescimento
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No seminário Brasil 2015 – Perspectivas para o País – que a Amcham realizou na terça-feira (30/9), os setores de Alimentos, Bens de capital, Construção civil, Energia, Exportações, Petróleo e Varejo apresentaram suas projeções para o próximo ano.

De modo geral, o excesso de burocracia e leis fiscais e trabalhistas que não estimulam a competitividade da economia são os principais obstáculos a um crescimento maior. Veja abaixo os depoimentos dos representantes:

Comércio Exterior – sem competitividade é difícil exportar

José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil)

A previsão de crescimento do comércio exterior no início do ano era de 4,7% em 2014. Na semana passada, a projeção caiu para 3,1%. E para 2015, rebaixamos a estimativa de 5,3% para 4%. Estamos voltando no tempo. Em 2011, a participação brasileira no comércio mundial era de 1,41%, e vai ser menor ainda em 2015. Estimamos que vá cair para 1,15%.

Do total de bens exportados pelo Brasil, 65% são commodities. Os 35% restantes são de manufaturados, sendo que a metade vai para a América do Sul. A Argentina é a maior compradora, ficando com 20% desse total. Ela é grande importadora de soja e milho, mas está em recessão. Como ela vai reduzir as importações, seremos diretamente afetados.

Na parte doméstica, temos que investir em infraestrutura, nas reformas tributária e trabalhista, e também reduzir a excessiva burocracia. Se não fizermos o dever de casa, logo teremos que aprender chinês [com preços menores, a China está conquistando vários mercados que antes eram atendidos por brasileiros na América Latina].

Alimentos – o bom momento das commodities agropecuárias

Edmundo Klotz, presidente da Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação)

Nosso prognóstico para 2015 é de crescimento de 2,5% no volume de produção industrial, 3% de vendas e aumento de exportações de US$ 38 bilhões este ano para US$ 40 bilhões no próximo. Ou seja, em 2015 teremos um ano um pouco melhor que 2014.

Neste ano, aliás, o setor mostrou decréscimo de produção e vendas pela primeira vez em vinte anos. As vendas de 2013 foram de 4,25% (acima dos 3% projetados para este ano). A Copa atrapalhou um bocado nosso setor, pois em junho (época do torneio) não havia rotina para almoçar e jantar. Todos ficavam vendo TV e se alimentavam de forma irregular.

O que compensa o fraco resultado doméstico são as exportações. Para nossa sorte, a pecuária está em franca ascensão, um fenômeno que não tem paralelo em nossa história. Por razões geopolíticas, a Rússia está comprando mais carne brasileira, ao invés da americana.

Energia – aumento de tarifa à vista

Nelson Fonseca Leite, presidente da Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica)

O setor de energia elétrica enfrenta um grande desafio em 2014, fruto de uma situação conjuntural extremamente desfavorável do ponto de vista hidrológico (falta de chuvas), e preços da energia no mercado de curto prazo em valores estratosféricos [o mercado de curto prazo também é chamado de livre, onde a compra de energia é negociada caso a caso].

Somado a isso, muitas distribuidoras de energia estão descontratadas. O último leilão de contratação de energia aconteceu no final de 2012, e entramos no ano seguinte com muitas delas sem poder renovar os compromissos. Com isso, ficaram expostas ao mercado de curto prazo.

Distribuidoras com contrato de concessão podem pedir revisão extraordinária de tarifas quando há desequilíbrio econômico-financeiro. A solução seria essa, mas teríamos tarifas extremamente elevadas em 2014. Estamos fechando o ano com uma conta a ser paga da ordem de R$ 9 bilhões, mais os R$ 9,6 bilhões de 2013. Então são R$ 20 bilhões no ano que vem. A perspectiva para 2015 é de ajustes nas tarifas de energia elétrica, para pagar essa conta.

Indústrias de base – Estado tem que ser indutor de desenvolvimento

Gilberto Peralta, vice-presidente da Abdib (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base)

Vivemos uma fase de ressaca pós-Copa, onde aconteceram muitas obras em infraestrutura. Mas a situação para a indústria de bens e equipamentos poderia estar melhor. Veja o exemplo da energia eólica. Hoje eles estão operando com 80% a 90% de capacidade, mas, sem novos leilões de energia, ela deve cair para 60% ou até a metade em 2015.

O Brasil tem disponibilidade mapeada para produzir 300 GW (gigawatts) de energia eólica, e investir no setor poderia aumentar o tamanho desse mercado e ampliar a oferta de eletricidade. Para nós, o ano de 2015 é de espera. E se não acontecer medidas de incentivo, 2016 será pior.

Petróleo e gás – poderia ser melhor

Jorge Marques de Toledo Camargo, diretor do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis)

No Brasil, o setor de petróleo e gás vive um grande paradoxo. Por um lado, temos oportunidades extraordinárias de desenvolvimento graças ao petróleo do pré-sal. As reservas exploradas têm se revelado maiores do que o esperado. Para se ter uma ideia, 40% de todo o petróleo descoberto nos últimos dez anos no mundo veio do Brasil.

Os investimentos necessários para explorar os recursos do pré-sal estão em torno de US$ 50 bilhões por ano. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) disse que esse valor representa 42% de todo o investimento industrial brasileiro até 2017.

Em contrapartida, a incerteza vem em relação à Petrobras. Ela é o grande motor de desenvolvimento da economia, mas o governo (acionista majoritário) obriga a empresa a subsidiar combustíveis. É uma intervenção que afeta toda a sua capacidade operacional e financeira. As perspectivas para o nosso setor são extraordinárias, mas vai depender do tipo de política governamental que será aplicada pelo próximo presidente.

Construção civil – novo ciclo focado em mercado imobiliário e projetos industriais

Eduardo May Zaidan, vice-presidente de economia do Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo)

O setor de construção civil não é tão sensível à conjuntura de curto prazo. As obras que estão sendo executadas hoje foram decididas em 2007, quando o cenário de crescimento era mais favorável. Para o Sinduscon, o PIB da construção civil deve crescer de 1% a 1,5% em 2014, estimativa que deve se repetir no próximo ano.

No Brasil, o desenvolvimento da construção civil está muito baseado em alguns pilares do setor privado. No mercado imobiliário, que deve entrar numa fase de crescimento orgânico, e ficará mais sensível à renda, disponibilidade de financiamento e crescimento do número das famílias.

E também nas construções industriais e comerciais que começam a ser entregues, decorrentes das concessões de mobilidade. Há muitas obras rodoviárias e aeroportuárias, mas ainda faltam as que virão dos portos e ferrovias.

Varejo – mudanças para continuar crescendo

Fernando de Castro, vice-presidente do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo)

Nos últimos anos, incorporamos 40 milhões de brasileiros ao mercado de consumo, uma mudança brutal para qualquer país. Antes deles, a participação do varejo no PIB era de 10%, e hoje é 17%. O varejo deve crescer 4% em 2014, abaixo de nossas projeções iniciais de 5,5% no início do ano. Em 2015, projetamos expansão de 5,5% a 6%, o que não é nenhum resultado extraordinário.

Em todos os países ricos, o varejo representa de 20% a 30% do PIB total. Se o Brasil quer ser um país moderno, tem que fazer com que o varejo aumente sua participação na riqueza nacional. O setor é o maior empregador privado brasileiro, e um dos que mais empreendem. Mas precisamos de mudanças fundamentais, como a fiscal e trabalhista, além da redução da burocracia, para aspirar a um crescimento regular de 4% a 5% do PIB a cada ano.

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