Aumento da renda das famílias manterá consumo em alta, diz diretora do BCG

por marcel_gugoni — publicado 26/02/2013 14h15, última modificação 26/02/2013 14h15
São Paulo – Para Rim Abida, principal movimento esperado é o da migração das famílias de baixa renda para grupos emergentes.
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O consumo brasileiro continuará crescendo em 2013 graças à ampliação da renda dos trabalhadores. Famílias de baixa renda passarão a consumir mais em quantidade e qualidade, o que exigirá novas opções de produtos e marcas a uma massa de clientes. Esse é o principal ponto de atenção par as empresas do varejo, na avaliação de Rim Abida, principal do The Boston Consulting Group (BCG) no Brasil.

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Ela diz que o movimento mais importante no cenário que se desenha para os próximos anos é o da migração das famílias de baixa renda para grupos chamados de “emergentes” e “estabelecidos”, com uma faixa salarial entre R$ 2500 e  R$ 5000 e de R$ 5000 a R$ 7500 mensais por domicílio. “O crescimento não vai afetar todos os setores do mesmo modo. Há setores que se beneficiaram do tipo de crescimento da última década que vão perder fôlego”, afirma.

Enquanto os eletrodomésticos têm seu principal foco nas famílias de renda restrita, entre os emergentes começam a crescer os gastos com serviços, educação e investimentos. “Itens de maior valor agregado vão passar a crescer mais fortemente”, analisa ela. Com uma massa salarial maior disponível, a previsão é a de que o consumo passe dos R$ 2,5 trilhões para R$ 3,2 trilhões até 2020.

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Rim participou do Seminário Perspectivas Econômicas e Comerciais 2013, realizado pela Amcham-São Paulo na última sexta-feira (22/02). Veja os principais trechos da entrevista:

Amcham: O que mais chama a sua atenção na nova configuração de classes sociais e grupos de consumo verificados pela pesquisa da BCG, que foi apresentada no evento da Amcham?

Rim Abida: Quando usávamos as definições comuns (classes A, B, C, D e E), o desafio era entender o que significa e quem é o consumidor. A nova segmentação traz uma ideia do que ele consome e o que parou de consumir, por exemplo. Isso acaba sendo uma ferramenta para fazer projeções, como evolui a pirâmide econômica do Brasil e o que significa para o crescimento de vários setores e categorias.

Amcham: Quais são essas categorias e o que as define?

Rim Abida: A primeira é um segmento de “subsistentes”, com pessoas que estão sobrevivendo abaixo da linha de pobreza e ganham menos de R$ 500 ao mês por domicílio. O segundo segmento é chamado de “restrito” e corresponde a famílias que ainda estão consumindo coisas básicas, mas, aos poucos, conforme a renda vai aumentando, elevam o consumo dessas mesmas categorias, de itens como bebida, comida, eletrodomésticos e carro. O consumo, nesse grupo que tem renda de até R$ 2500 ao mês, aumenta gradualmente. O terceiro segmento é chamado de “emergente” [com renda de R$ 2500 a R$ 5000]. Essas famílias, basicamente, conseguem fazer o que chamamos de trading up, que é comprar a coisa mais caras dentro da mesma categoria. Dois exemplos desse segmento são a troca do plano pré-pago de celular pelo pós-pago e deixar o suco em pó de lado para passar a consumir o pronto para beber. O segmento seguinte é o dos “estabelecidos”, com ganho de mais de R$ 5000 ao mês por domicílio. Esse grupo tem um adicional disponível para investir e acessar outras novas categorias, como viagem de avião. Os “afluentes” são os que ganham acima de R$ 7500 por mês e buscam categorias de luxo – é nesse grupo que começam os gastos com carro importado – além de gastos com cultura, sem falar na renda livre para investimentos e aumento de patrimônio.

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Amcham: Como é que as empresas devem olhar para essa nova configuração de segmentos de renda?

Rim Abida: A questão não é só entender esses grupos e as diferenças entre cada um deles, mas ir mais a fundo dentro de cada um dos segmentos, principalmente entre os que vão liderar o crescimento ao longo dessa próxima década. Vimos, por meio de conversas com as famílias, que os perfis de comportamento podem ser completamente diferentes dentro de cada um dos segmentos. Não podemos generalizar o que significa ser um “emergente” ou um “estabelecido”. Ou seja, além de os segmentos serem distintos uns dos outros, há também diferenças grandes dentro de cada um deles. Para as empresas entenderem o que significa ser de cada um dos segmentos, é preciso entender os comportamentos dentro de cada um.

Amcham: Até 2020, a pesquisa mostra que o consumo no Brasil deve chegar a R$ 3,2 trilhões. Qual é o patamar atual e o que precisa ser feito para atingir esse crescimento?

Rim Abida: Hoje temos R$ 2,5 trilhões de consumo. Essa previsão assume um crescimento do PIB por volta de 4,5% ao ano. O principal driver é o crescimento da renda. Não vejo possibilidade de chegar aí somente com a situação de inércia. É preciso acreditar que o Brasil vai crescer nesse patamar. Além disso, a pesquisa assume que o comportamento [das famílias em relação ao consumo] não vai mudar drasticamente. O que acontece é que a estrutura da pirâmide de renda está mudando no Brasil. À medida que as pessoas vão subindo nessa estrutura, ampliando a renda, passam a consumir mais. Isso explica por que o topo da pirâmide deverá responder por 85% desse crescimento.

Amcham: Quer dizer que as classes de renda média e alta vão ser os principais motores do aumento do consumo no Brasil nesta década?

Rim Abida: O motor principal é essa migração das famílias da faixa de “restritos” para a faixa de “emergentes” e “estabelecidos”. O que significa isso é que o crescimento não vai afetar todos os setores do mesmo modo. Há setores que se beneficiaram do tipo de crescimento da última década que vão perder fôlego. Eletrodomésticos é um deles, que mostra uma decolagem muito forte com aqueles “restritos” e chega a uma estabilidade quando se fala em uma família “emergente” ou “afluente”. É um dos setores que vão continuar a crescer a uma taxa menor do que cresceu nos últimos anos. Em compensação, serviços, educação, serviços financeiros de investimento e itens de maior valor agregado vão passar a crescer mais fortemente.

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Amcham: Olhando para o Brasil sob a ótica dessa pesquisa, quais os gargalos a destravar para manter esse crescimento?

Rim Abida: A produtividade é a principal alavanca. Dentro de produtividade, há quatro elementos que surgem como maiores gargalos. O primeiro é a educação. O segundo é o investimento. Em seguida, o chamado Custo Brasil afeta o anterior, os investimentos. E o quarto é a infraestrutura. 

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