Austrália incentiva governança corporativa e tem 2 mil empresas listadas em bolsa; no Brasil, são menos de 400

por andre_inohara — publicado 06/03/2013 16h50, última modificação 06/03/2013 16h50
São Paulo – Austrália e Brasil são economias exportadoras de commodities, mas mercado de capitais é mais avançado na Austrália devido à arraigada cultura de respeito à transparência administrativa.
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O perfil econômico da Austrália se aproxima do brasileiro por ela ser uma grande exportadora de commodities minerais e agrícolas. Mas há várias diferenças. Uma das principais é que o mercado de capitais australiano é bem mais desenvolvido devido a uma cultura de governança corporativa que ainda deve demorar a se disseminar pelo território brasileiro – apesar de boas iniciativas locais de aprimoramento.

Na Austrália, todo candidato a empreendedor já sabe que terá, por imperativo legal, um conselheiro com experiência corporativa para ajudar a definir o rumo do negócio. E lá, a obrigação de divulgar resultados financeiros periódicos também se estende às empresas de capital fechado. O resultado é um mercado de capitais com 2.056 empresas negociando ações na bolsa de valores da Austrália.

No Brasil, por outro lado, as práticas de governança corporativa são exigidas somente para as empresas que queiram acessar o mercado de capitais. Na BM&FBovespa, apenas 363 empresas se encontram nessa condição, compara o consultor Richard Doern, sócio da Richard Doern Senior Executives.

O executivo disse ao site, depois de ter participado do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (06/02), que o volume de empresas está muito aquém do potencial do mercado de capitais brasileiro e que este, por sua vez, não está se preparando adequadamente para receber novas levas de empresas e também investidores pessoas físicas.

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Como 50% da população australiana aplicam em ações, há um volume significativo de investidores pessoa física no mercado acionário da Austrália. Isso abre espaço para que empresas de pequeno porte tenham sucesso na captação de recursos.

“Em 2012, foram realizados 100 IPOs [sigla em inglês para oferta pública inicial de ações] de pequenas empresas na Austrália, com captação média de US$ 10 milhões a US$ 20 milhões”, comenta Doern. No Brasil, foram apenas três: o da indústria de móveis Unicasa, o da locadora de veículos Locamérica e o do banco de investimentos BTG Pactual.

No Brasil, a aplicação preferida ainda é a poupança, embora isso esteja mudando. O aumento da renda tem feito muitos poupadores buscarem retornos maiores. “O brasileiro já não tem mais a aplicação de recursos em poupança como fonte de manutenção do capital. Ele vai buscar alternativas, e boa parte disso poderia migrar para o mercado de ações”, afirma.

Apesar dos esforços da BMF&Bovespa, o mercado de capitais permanece desconhecido para a maioria desses aplicadores. “É uma questão educacional. Como o investidor pessoa física não está acostumado a investir em ações, vai levar certo tempo até aprender sobre esse mercado e ter confiança”, detalha Doern.

Medidas de incentivo

O desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro tem que passar pelo aumento da base de investidores pessoa física e pelo maior incentivo à listagem de empresas de menor porte. Os incentivos poderiam ser fiscais, exemplifica Doern.

“Existem algumas iniciativas na BM&FBovespa no sentido de tentar reduzir custos que as empresas têm com as operações de abertura de capital. Outra medida é isentar de imposto os ganhos decorrentes de investimentos em pequenas e médias empresas”, cita o consultor.

Segundo Doern, há pelo menos 15 mil empresas brasileiras de capital fechado que poderiam crescer com recursos do mercado de capitais. “Algumas delas têm faturamento anual superior a R$ 100 milhões, e têm todo o potencial para abrir capital”, descreve ele.

Para o consultor, esse cenário não deve mudar tão cedo. “Mudar isso é difícil em curto prazo, envolve cultura de governança e base maior de pequenos investidores. As empresas deveriam fazer a lição de casa e se preparar para ter uma gestão mais sofisticada”, comenta ele.

 

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