Brasil tem que reforçar seu papel na utilização de energias renováveis, dizem especialistas que participaram da COP 18

por marcel_gugoni — publicado 15/01/2013 16h41, última modificação 15/01/2013 16h41
São Paulo – Demanda energética no mundo vai continuar crescendo e País tem espaço para se destacar no combate ao aquecimento global.
viviane_195.jpg

A matriz energética do Brasil é uma das mais limpas dentre os países industrializados, com metade proveniente de fontes renováveis, como hidrelétricas, biomassa e solar, mas o potencial de uso do petróleo da camada pré-sal pode alterar esse equilíbrio. Para especialistas em energia, o Brasil tem que reforçar seu papel na utilização de energias renováveis, como demonstrou durante a COP 18, realizada em dezembro de 2012.

Veja aqui quais são as vantagens de ser sócio da Amcham

A 18ª Conferência das Partes (COP 18), da Organização das Nações Unidas (ONU), ocorrida em Doha (Qatar), terminou com um acordo que visa a intensificar os esforços dos países desenvolvidos para combater o aquecimento global. A única grande medida concreta foi a renovação do compromisso do Protocolo de Kyoto, que estende até 2020 as metas de redução de gases como o dióxido de carbono (CO2).

Viviane Romeiro, que é especialista em captura e armazenamento de carbono e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), diz que o balanço da COP 18 é de que os avanços no combate ao aquecimento poderiam ter sido maiores.

“Nos países desenvolvidos, esperava-se a destinação de US$ 20 bilhões até 2012, totalizando US$ 100 bilhões em investimentos até 2020. Esse aporte foi muito aquém do esperado”, afirmou ela, que assistiu aos principais painéis sobre o Brasil.

O balanço da COP 18 deu a tônica da primeira reunião de 2013 do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo, realizado nesta terça-feira (15/01).

Entre 2008 e 2012, os países signatários de Kyoto deveriam ter reduzido suas emissões na casa de 5% (em relação à concentração de gases de efeito estufa de 1990). A redução não só não aconteceu como as emissões continuaram crescendo mais de 3% ao ano entre 2000 e 2011, segundo pesquisas apresentadas no evento.

Crise e poluição

A crise econômica foi apontada como maior motivo para os investimentos em combate às reduções de gases de efeito estufa terem minguado. Virginia Parente, professora do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP, diz que em um cenário de crise, os países europeus deixaram de olhar para o longo prazo para dar maior atenção ao curto prazo, pensando em uma retomada do crescimento econômico.

“O mundo continua precisando de investimentos para suprir a demanda energética. E 80% desse investimento será demandado e realizado nos países em desenvolvimento”, disse ela, que também assistiu à COP 18. A estimativa é de que, para atender o consumo energético, o mundo necessite de US$ 25,5 trilhões (ou 1,4% ao ano do PIB mundial).

Quer participar dos eventos da Amcham? Saiba como se associar aqui

Maior produção de energia significa mais poluição – sobretudo em países que não têm a matriz energética limpa como a brasileira. A título de exemplo, enquanto no Brasil em torno de 80% da eletricidade gerada vêm de hidrelétricas, na China o principal motor de geração energética é o carvão. China e EUA, que não se comprometeram a assinar Kyoto, são considerados os maiores poluidores do planeta.

“A energia é responsável por 66% das emissões globais”, destaca a especialista, que já presidiu o comitê de Energia da Amcham-São Paulo.

Posição do Brasil

O Brasil é um dos países que se comprometeu de forma prática a combater o aquecimento global. Durante a COP 18, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, divulgou que os níveis de desmatamento caíram aos menores patamares, com cerca de 4.600 Km² de área desmatada na Amazônia no ano passado em todo o País.

Esse número representa uma redução de 76,27% no desmatamento, o que deixa o Brasil mais próximo da sua meta nacional voluntária, firmada na Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), de reduzir o desmatamento na região em 80% até 2020.

Viviane destaca que esse é só o primeiro passo para o Brasil ganhar destaque no combate ao aquecimento global. A exploração do pré-sal é um dos pontos de preocupação, porque oferecem risco quanto ao impacto ambiental por ser uma fonte de energia fóssil e não renovável. “Em termos de energia, há um pouco de contradição no sentido de que surja um trade off, por um lado estratégias com o objetivo de  reduzir emissão de carbono por meio do uso de energias renováveis, e por outro, medidas com o objetivo de elevar a produção de energia com a exploração do petróleo.”

“O Brasil precisa reforçar seu papel em energias renováveis e sua eficiência energética, fortalecendo a biomassa, a eólica, a solar e as PCHs, em que o Brasil tem um potencial enorme.”

A captura e o direcionamento de carbono surge como uma forma de produzir mais energia de fontes fósseis reduzindo o impacto ambiental. “É preciso permanecer nessa linha renovável sem deixar de lado o desenvolvimento econômico que pode ser propiciado pelo pré-sal.”

Segundo ela, “há interesse em implementar essa tecnologia nos campos do pré-sal e a Petrobras já tem implementado estudos nessa área, mas a tecnologia ainda é incipiente no mundo”. “Pergunta-se por que o Brasil teria interesse em reduzir os gases se a matriz já é limpa. Ela é limpa, mas tende a sujar com o pré-sal.”

Entre as alternativas, Viviane cita a ampliação do uso do etanol como substituto energético do petróleo e seus derivados. “O etanol sim tem uma vantagem competitiva para o Brasil, por seu potencial de emissão negativa”, diz.

Outra fonte considerada limpa são as hidrelétricas, mas elas vivem num imbróglio ambiental e demoram a sair do papel no Brasil. Virginia explica que uma hidrelétrica altera a configuração social e ambiental de uma região, por isso precisa ser feita com cuidado. Mas ainda assim elas são melhores do que as usinas térmicas ou a gás. “O País precisa aprender a desobstruir e acelerar os processos.”

Metas claras

Para Viviane, a prioridade da discussão ambiental atual deveria ser, não a definição de metas ambiciosas, mas o monitoramento real dos avanços. “O que cada país individualmente tem apresentado como meta e efetivamente desempenhado? Vemos uma sinalização de que vários países apresentam metas, mas estão efetivamente alcançando?”

“Em termos técnicos, o aquecimento é factível e o ceticismo científico [sobre os riscos da emissão de gases estufa] é cada vez menor. Mas em termos políticos, cada vez mais nos deparamos com negociações que não levam a resultados. O desafio do tema de mudanças do clima é político.”

registrado em: