Brasil tem situação melhor entre os ‘Cinco Frágeis’, mas pode piorar sem ajuste fiscal

publicado 05/02/2014 17h06, última modificação 05/02/2014 17h06
São Paulo – Economia tem indicadores mais sólidos que África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia
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“Quando se compara os números da economia brasileira, vê-se que ela é a melhor dos ‘Cinco Frágeis’ [África do Sul, Brasil, Índia, Indonésia e Turquia]. Mas isso é uma fotografia (situação atual). No filme, que é o conjunto de fotografias subseqüentes, o Brasil vai apresentar problemas”, disse o consultor Carlos Rocca, sócio da CRC Consultores Associados.

Os Cinco Frágeis são os países emergentes que o banco americano Morgan Stanley apontou como os de maior dependência econômica de investimentos estrangeiros. Diante dos sinais consistentes de recuperação dos Estados Unidos, o grupo é o que mais deve sofrer com a migração de capitais para a maior economia do mundo.

No comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham – São Paulo na quarta-feira (5/2), o especialista afirmou que a situação econômica brasileira é a melhor desse grupo de países, mas isso pode mudar se o governo federal não efetuar um rigoroso controle de gastos.

"O país teve crescimento acelerado do déficit em conta corrente [saldo devedor resultante das operações de comércio exterior] e dívida pública interna, e a tendência de avanço é preocupante. O governo já manifestou preocupação com isso e deve anunciar um novo superávit fiscal que permita, pelo menos, manter controle sobre o crescimento da dívida", destaca Rocca.

Para ele, seria necessário elevar a meta de superávit primário [economia que o governo faz para pagar juros da divida externa] de 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto) para 2%. "Não será um desafio fácil de ser vencido, mas o governo disse que vai fazer."

Turbulência internacional

Rocca também disse esperar a saída de capitais estrangeiros do país, em função da mudança da política monetária americana. Em maio de 2013, o Fed (Federal Reserve, Banco Central dos EUA) anunciou que começaria a restringir seu programa de injeção de liquidez na economia, devido a alguns indicadores positivos da economia, como a queda do desemprego e a volta dos investimentos privados. “Trata-se de um ajuste do Fed para trazer a política monetária de volta à normalidade”, segundo Rocca.

Com isso, o volume de capitais nas economias emergentes tende a sair para mercados considerados seguros, que é “basicamente a economia americana”, afirma o consultor. Dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) indicam que os EUA devem crescer perto dos 3% este ano, ao passo que a União Europeia deve entregar um resultado positivo na economia pela primeira vez desde a crise de 2008.

Com a redução do programa de estímulos do governo americano, países que apresentam fraquezas externas ficaram expostos. “Não é propriamente o caso do Brasil. O país tem algumas vulnerabilidades, mas elas são maiores em outros países. Ocorre que o país acaba enfrentando um pouco de contágio”, de acordo com Rocca.

A necessidade do ajuste fiscal

No cenário de longo prazo, o descontrole fiscal pode deteriorar os fundamentos da economia brasileira. Rocca cita as tendências de aceleração do déficit em conta corrente e elevação da dívida pública como elementos que tornam a situação brasileira desafiadora.

Outros pontos preocupantes são o baixo crescimento, inflação elevada, problemas de competitividade e níveis baixos de poupança interna. Mas o problema mais urgente a ser atacado é a questão fiscal. “Em curto prazo, tudo indica que a ação mais eficaz para minimizar impactos negativos é a execução de um ajuste fiscal confiável que reduza a dívida bruta.”

A austeridade fiscal ajudaria, de acordo com Rocca, no controle da inflação e recuperação da poupança do setor publico. Além disso, programas de concessões públicas, como a continuidade dos leilões oferecendo condições de mercado e resgate da governança das estatais teriam “impacto muito positivo” na produtividade.

A alta volatilidade do cenário internacional inspira cautela, segundo Rocca. “O que se recomenda para as empresas brasileiras é enxergar um cenário mais instável no contexto mundial e se preparar para fazer o melhor gerenciamento de risco.”

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