CEOs debatem medidas para aumentar competitividade e comércio exterior

por andre_inohara — publicado 25/04/2012 12h30, última modificação 25/04/2012 12h30
André Inohara
São Paulo – Temas como exportações, investimentos e inovação foram abordados em seminário da Amcham.
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Impactada por deficiências estruturais, a indústria brasileira enfrenta vários desafios para competir no exterior. Se tivessem a oportunidade de falar diretamente ao governo sobre o assunto, empresas que atuam no País abordariam a necessidade de diminuir encargos e burocracia, fechar acordos bilaterais de comércio, estimular a inovação e combater a inflação.

Este foi um dos destaques de painel de altos executivos do ‘Seminário Oportunidades nas Relações Comerciais do Brasil frente à nova configuração dos blocos econômicos mundiais’, promovido pela Amcham-São Paulo nesta terça-feira (24/04). Participaram representantes de empresas de diversos setores como Bayer, Seara, 3M, Boeing e Itaú.

A pergunta foi lançada pelo mediador do debate, o consultor, presidente do comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo e ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Welber Barral: "Em um encontro hipotético ocasional em Brasília no elevador do Palácio do Planalto com a presidente Dilma Rousseff, o ministro do Desenvolvimento, o ministro da Fazenda e o presidente do Congresso, que medida cada empresário sugeriria para aumentar a competitividade brasileira?"

Veja aqui: Livre concorrência e inovação são vitais para o desenvolvimento econômico

A desoneração da folha de pagamento dos trabalhadores foi a resposta de José Mayr Bonassi, diretor geral da Seara Alimentos, empresa do Grupo Marfrig. “Esse é um custo alto para o Brasil, se comparado ao de qualquer outro competidor nosso em outro País”, comenta.

O custo da folha de pagamento precisa se reduzir para que os empregados possam ganhar mais e as empresas pagar menos por isso. “É maravilhoso ver o salário subindo no Brasil porque ativa cada vez mais o mercado interno. Mas, no fim do dia, isso pesa para as indústrias”, observa.

O presidente da Bayer do Brasil, Theo Van der Loo, também se mostrou favorável à queda dos encargos, mas escolheu endereçar como prioridade uma questão de comércio exterior no encontro hipotético com a alta cúpula do governo. “Por que o Brasil não sai do Mercosul e passa a fechar acordos individuais de comércio com vários países?”, indaga.

Desde sua fundação no início da década de 1990, o Mercosul pouco avançou em questões comerciais para o bloco, e ainda ocorrem casos de disputas comerciais entre os sócios. “A Argentina tem adotado medidas que afetam o relacionamento com o Brasil, muitas relativas a exportações entre os dois países”, argumenta.

Inovação, agilidade alfandegária e inflação baixa

O desenvolvimento da inovação é o tema mais importante para o salvadorenho José Varela, diretor presidente da 3M do Brasil. O executivo disse que é preciso diminuir os encargos que incidem sobre pesquisa e desenvolvimento de tecnologias no País. “Entendo a necessidade de impostos, mas não sei por que se taxa a inovação”, comenta.

Ele elogiou o programa do governo Ciência Sem Fronteiras, que vai mandar 100 mil estudantes bolsistas ao exterior para ganharem mais conhecimentos de ciências exatas e novas tecnologias.

Varela também aproveitaria a oportunidade com a cúpula do governo brasileiro para tratar do custo da energia elétrica, considerado um dos mais elevados do mundo. “O custo da energia no Brasil é três a quatro vezes o americano, que já é mais alto do que os da Europa e Ásia. Isso é uma das coisas que afetam duramente a competitividade das fábricas brasileiras”, afirma Varela.

A presidente da Boeing e ex-embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, elege como prioridade processos aduaneiros mais rápidos. “Nossos clientes, as empresas aéreas, têm de manter um estoque alto de peças de reposição porque nunca sabem quanto tempo o processo de desembaraço alfandegário vai levar. É uma imprevisibilidade que custa muito para as empresas”, disse.

Por sua vez, o economista do banco Itaú, Guilherme de Nóbrega, considera mais importante a manutenção do poder de compra. “Uma inflação alta, como a que o Brasil ainda tem em comparação com outros países, não traz nenhuma vantagem”, argumenta. “A inflação precisa ficar em um patamar baixo, porque tem impacto importante sobre investimentos e confiança no crescimento.”

Agilidade e acordos bilaterais

Algumas empresários presentes salientaram que é preciso dar mais agilidade aos processos de exportação.

Com atuação relevante no mercado externo, que responde por mais de 50% da sua receita, a Seara Alimentos lamenta as dificuldades para vender seus produtos no estrangeiro. “Foi autorizada recentemente a exportação de carne suína para os EUA, mas até hoje não se exportou um quilo porque os certificados sanitários ainda não foram negociados entre os dois países”, disse Bonassi.

É necessário investir em acordos bilaterais, argumenta Bonassi. “Se conseguirmos mais acordos, haverá fluidez e reconhecimento maior dos produtos brasileiros.” O executivo disse que grandes redes mundiais de refeições como o McDonald’s e a KFC trabalham com fornecedores globais, e os brasileiros perdem oportunidades porque não são tão conhecidos lá fora.

A Bayer também defendeu acordos bilaterais de comércio exterior e regras mais favoráveis para a concretização de negócios. Theo Van der Loo, presidente da Bayer do Brasil, comentou que há mais de 1.500 laboratórios esperando uma inspeção da Anvisa (a agência reguladora de medicamentos) para comercializar seus produtos em território nacional.

“Ficamos sem poder fornecer medicamentos no Brasil porque a fábrica não foi inspecionada, embora eles tenham sido aprovados nos EUA e União Europeia (UE). Um acordo mútuo na área da saúde entre Brasil, EUA e União e UE é importante.”

Outra dificuldade da área farmacêutica é que sofre restrições causadas pelo controle de preços. “O governo faz isso há décadas, apesar de haver centenas de concorrentes em alguns mercados. Ainda que o mercado esteja crescendo, essa situação inibe investimentos porque os aumentos permitidos estão abaixo da inflação e os custos são cada vez maiores”, pontuou Van der Loo.

Em paralelo, o executivo disse que é necessário desenvolver inovação por meio de cooperação. “Precisamos fomentar parcerias entre empresas nacionais e multinacionais para ter acesso ao mercado internacional”, afirma.

3M e Boeing ampliam estrutura científica no Brasil

Embora a alta incidência de impostos e a carência de infraestrutura dificultem a competitividade brasileira, o País ainda traz oportunidades promissoras. Por isso, a 3M está investindo em inovação, disse José Varela, diretor presidente da 3M do Brasil.

“Dobramos nossa infraestrutura científica, triplicamos os recursos para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e aumentamos o quadro de cientistas para 300, além da contratação de PhDs (pós-doutores)”, afirma. Segundo Varela, a qualidade dos acadêmicos brasileiros é excelente.

A Boeing também está reforçando sua estrutura tecnológica no Brasil, diante da perspectiva de maior tráfego aéreo – com abertura de novas linhas aéreas – e crescimento do mercado de defesa. Nos próximos vinte anos, o tráfego mundial de passageiros vai crescer, em média, 5,1% por ano, destacou Hrinak. “Na América Latina, o aumento vai ser de 6,9%, com perspectiva de revisão para cima.”

A renovação de frotas também deve ser influenciada pela redução de custos, pois aeronaves novas necessitam de pouca manutenção e consomem menos combustível. Em relação aos combustíveis, Donna disse que a Boeing vai abrir um centro de tecnologia em São Paulo, para o desenvolvimento de biocombustíveis para aviação. “Os custos ainda são altos, de modo que ainda não há fornecedores dedicados. Mas queremos uma indústria sustentável de biocombustível para aviação.”

Em relação ao mercado de defesa, Donna comentou que há boas oportunidades, em função do aumento do orçamento do governo para o setor nos próximos quatro anos.

Reformas estruturais

Para o economista do banco Itaú Guilherme de Nóbrega, o País precisa garantir que as oportunidades de crescimento sejam aproveitadas por meio das reformas estruturais na economia. Um dos pontos mais relevantes é estimular a poupança interna do setor público, que assim teria mais condições de financiar a economia brasileira, o que a tornaria menos dependente de crédito externo.

“Precisamos ter um Estado mais leve, que possa permitir juros mais baixos, menos pressão sobre a poupança doméstica, e que possamos atacar os problemas de reforma tributária que se tornam prementes à medida que o Brasil se integra mais ao resto do mundo.”

Veja aqui: Baixa poupança interna deixa investimentos brasileiros dependentes do exterior

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