Cidadania empresarial deve se traduzir em ações de fato e não só no discurso, afirmam executivos de RH

por marcel_gugoni — publicado 28/11/2012 18h02, última modificação 28/11/2012 18h02
São Paulo – Na visão desses profissionais, empresas que incentivam e desenvolvem projetos voltados a ações sociais e educacionais têm em mãos uma poderosa fonte de geração de valor.
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Cidadania e educação são fatores que mudam a vida de um trabalhador e um indivíduo. Executivos de recursos humanos são unânimes em dizer que empresas que incentivam e desenvolvem projetos voltados a ações do tipo têm em mãos uma poderosa fonte de geração de valor, mas essas medidas devem prezar a prática, não meramente o marketing.

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“Quem trabalha em uma empresa costuma ter orgulho da postura de contribuição dela à sociedade. O desafio é transformar essas ações em algo genuíno, porque onde isso é voltado somente ao marketing o resultado pode ser ruim, uma vez que o funcionário percebe”, diz Malena Martelli, vice-presidente de Recursos Humanos da Capgemini.

Ela e um time de especialistas da área participaram de reunião especial do comitê estratégico de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (28/11). O tema foi “Educação e cidadania: espaço verdadeiro da gestão por valores”.

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Segundo Malena, que foi moderadora do debate, a educação é a base de toda a cidadania. “As pessoas reconhecem as empresas que têm responsabilidade com o cidadão”, diz. O segredo está em casar o discurso responsável com a prática efetiva.

Valéria Riccomini, diretora da Fundação Itaú Social, por sua vez mostrou que o Brasil carece da formação não só de profissionais qualificados como também de indivíduos plenos em sua cidadania. “Educação básica é primordial, é um direito que todos deveriam  ter, mas estamos longe de conseguir uma qualidade desejável na educação”, reconhece.

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Dados apresentados por Valéria, que se baseiam tanto em pesquisas de organismos internacionais sobre o tema quanto em estudos de órgãos públicos, retratam que o cenário educacional é preocupante: 18,7% dos alunos do ensino fundamental no Brasil repetem de ano. “Esse é o índice mais elevado entre os países da América Latina e está muito acima da média mundial [de 2%]”, diz.

Além disso, mais da metade dos jovens de 15 a 18 anos está fora do ensino médio (46% estão matriculados devidamente) e 19% com entre 15 e 24 anos das regiões metropolitanas apresentam alfabetismo rudimentar, sem capacidade analítica de textos e cálculos. “Isso preocupa porque o ensino médio é o mais desafiador e o que impacta mais fortemente na formação para o mercado de trabalho”, analisa.

Empresa cidadã

Valéria diz que, por meio da Fundação Itaú Social e outras instituições de fomento à cultura e à educação do grupo (como o Instituto Unibanco e o Espaço Itaú de Cinema), investem-se R$ 200 milhões por ano em projetos. “O País tem um forte gap de educação. Nesse cenário, qual o papel do RH na formação de seus colaboradores e promoção da cidadania?”

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“O que mobiliza uma organização é a capacidade de entender o que é relevante às pessoas”, responde Américo Figueiredo, vice-presidente de RH da Nextel e presidente do Instituto Nextel. O trabalho realizado pelo instituto, iniciado em 2006, passa, entre outras ações, pela formação de funcionários e pela qualificação profissional.

Jovens na faixa de 16 a 22 anos que não completaram estudos carecem de formação ou simplesmente não encontram emprego têm a oportunidade de fazer uma entrevista de inserção no mercado de trabalho. “Oferecemos processo de seleção com jovens em maior carência social, em famílias que vivem no limite da pobreza, que têm problemas familiares ou uso de drogas”, explica ele.

“Um projeto dessa envergadura impacta não só a vida do jovem, mas sua família e seu entorno, porque eles chegam com a autoestima destruída e a família desacreditada em relação às perspectivas de vida”, avalia. “Por meio da educação queremos mostrar que é possível ter uma vida digna.”

Desenvolvendo líderes

Márcia Almstrom, diretora de RH da empresa de recrutamento e seleção Manpower, afirma que ações sociais, nas empresas, ajudam a atrair profissionais. “Hoje, o que as pessoas valorizam é ter a oportunidade de fazer um trabalho que influencia a sociedade, que tenha apelo de ajuda à comunidade”, conta ela, citando uma pesquisa feita com jovens em busca de emprego.

Ela reforça que o papel de transformar o discurso de apoio social em prática é da liderança. “Não existe fórmula para tirar as palavras do quadro de visão, missão e valores e colocá-las na cabeça das pessoas”, brinca. “É por meio dos líderes que as equipes aderem aos valores da empresa.”

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“Escutar os funcionários durante a construção desses projetos é importante, mas atuar com as lideranças é fundamental para [a cidadania corporativa] funcionar”, afirma Alcely Barroso, diretora de Cidadania Corporativa da IBM Brasil. O primeiro passo para engajar é saber ouvir a própria equipe: “Cocriação é algo que usamos muito para engajar as pessoas, ouvindo as equipes em grupos e comitês, porque a colaboração ajuda a ter maior adesão.”

O segundo passo é ter projetos estruturados para garantir que a liderança seja formada justamente para que tenha foco também no social e na cidadania. “Isso precisa levar em consideração a estratégia da empresa, porque se estiver desassociado não funciona.”

Engajamento social

Alcely cita que a IBM tem um programa de desenvolvimento de lideranças que promove o intercâmbio de profissionais para países em desenvolvimento. “Esse programa visava a ajudar a sociedade com o que nossos colaboradores tinham de melhor, e se tornou também uma ferramenta de gestão de pessoas e de desenvolvimento de líderes.”

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O projeto Corporate Services Corps, lançado em 2008, insere os profissionais em diferentes culturas visando à cooperação e ao desenvolvimento de projetos relacionados a problemas de microempresas e ONGs (organizações não-governamentais). “Uma das nossas metodologias é tirar o cargo: o profissional pode ser diretor na Finlândia, mas no Brasil ele é um voluntário, uma pessoa”, conta ela.

“É nessa hora que eles veem que são cidadãos, num país diferente, com a responsabilidade de entregar um projeto de valor. Serve como reflexão de vida. Não são férias, mas um período de trabalho”, analisa. O projeto garantiu à IBM um dos troféus do Prêmio ECO 2012.

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Márcia defende que, num passo seguinte, com líderes engajados e que saibam ouvir o grupo, ações de cidadania e educação têm maior facilidade de se espalhar pela empresa. “A iniciativa tem que ter adesão da empresa, e não só do RH”, reforça.

Para Valéria, os desafios educacionais do Brasil, principais causadores da falta de mão de obra qualificada que compromete o potencial de avanço econômico do País, devem ser olhados com muita atenção pelas empresas. “Não vejo mais como não haver espaço para essa agenda”, defende. “E o que é mais importante: parta para a prática em vez de ficar só no discurso. Valores como esses não podem ficar só em um quadro na parede, mas ser vistos no dia a dia.”

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