Como se preparar para o fim do atual ciclo econômico?

publicado 04/10/2013 11h30, última modificação 04/10/2013 11h30
Ribeirão Preto – Ricardo Sennes analisa mudanças na balança comercial e a perda de competitividade brasileira
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O atual ciclo econômico, em que o Brasil viu seu PIB (Produto Interno Bruto) se dilatar em função de um consumo vigoroso, entra na reta final com um sinal de alerta: o que virá depois e como sobreviver? “O empresário, hoje, vive um dilema entre surfar na onda interna de crescimento forçado no consumo, porque não pode perde a oportunidade, e o fato de que não deve ficar iludido de que é uma condição que irá permanecer no longo prazo”, comenta o cientista político e economista Ricardo Sennes.

Coordenador-geral do GACINT (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP, e sócio-diretor da Prospectiva Consultoria, ele foi convidado para uma reunião especial com empresários, na Amcham – Ribeirão Preto, quinta-feira (03/10).

Sennes comenta que os sinais do final do ciclo já estão em curso, como o realinhamento do câmbio e a volta da cobrança de IPI (Imposto sobre Produtos industrializados). “Haverá a suspensão de créditos para consumo, mesmo que lentamente”, cita.

O cenário, porém, não mostra alta competitividade brasileira no mercado global, o que é importante para um desempenho sustentável da economia. A balança de pagamento do país tem itens preocupantes, como quedas no saldo de importação e exportação de bens e serviços.

Na ponta do lápis

Na balança comercial, Sennes destaca a perda de dinamismo e a mudança de perfil geográfico no comércio exterior. “Com países que antes tínhamos superávit, agora temos déficit, como tipicamente com China e estados Unidos”, compara.

O Brasil acumulou saldo positivo com os EUA até 2008, mas inverteu e chegou a US$ 10,6 bilhões no vermelho, no acumulado de 12 meses, em agosto de 2013. Com a China, o movimento é o inverso: saiu de déficit e, há cinco anos, e começou a acumular resultados positivos.

“Também estamos perdendo competitividade nos setores de media e alta intensidades tecnológica e ganhando competitividade nos segmentos de baixa intensidade tecnológica. O nosso modelo econômico está reforçando a baixa tecnologia”, afirma o professor.

A balança de serviços, por sua vez, aumentou o déficit de US$ 12 bilhões, em 2007, para US$ 40 bilhões, em 2012. Pesaram contas vinculadas ao consumos, a viagens e gastos conseqüentes do próprio crescimento da economia brasileira. No aquecimento, o país passou a demandar mais transportes e outros serviços inexistentes internamente. “Passamos a comprar serviços como frete, para viabilizar exportação e importação. Também cresceu o aluguel de equipamentos, como o uso temporário de máquinas de grande porte”, exemplifica.

Nos business services, porém, o Brasil ganhou dinamismo, com a ampliação de serviços em torno de negócios que se desenvolveram. “A gente exporta quase US$ 20 bilhões, nessa área”, aponta.

No final das contas, o balanço de pagamento (que inclui itens como balança comercial, de serviços, conta capital) tende a perder o fôlego, afirma Sennes. “Esse balanço tem sido financiado principalmente por investimentos externos, o que faz a conta do Brasil fechar. Mas é uma situação sempre sensível e vulnerável”, adverte.

Por que o desequilíbrio

As contas são essas, explica Sennes, porque o próprio modelo de crescimento do Brasil, baseado em consumo, cria condições para esses resultados.

“Há demanda de importação de produtos prontos, [a aquisição deles] não é via maturação de investimento interno. O empresário traz o produto pronto, vende e espera o próximo momento, o que não é sustentável”, comenta.

Outro ponto a pesar na importação de produtos prontos, em vez da fabricação local, é que, com o forte aumento da renda, elevou-se o custo-Brasil de maneira geral. O salário teve expansão mais rápido do que o ganho de produtividade, que envolve fatores como burocracia, infra-estrutura e qualificação de mão-de-obra.

“Há desemprego baixo e ganho de renda acelerado, com escassez de mão-de-obra barata, o que mata a competitividade brasileira”, acrescenta.

Conversão estratégica

Para a mudança de ciclo que se desenha, o melhor a fazer, diz Sennes, é formar caixa e obter ganho, ainda nesse cenário, e apostar numa estratégia sustentável a médio e longo prazos.

“Se o empresário não transformar seu negócio em mais agressivo em competitividade, com presença internacional, na hora em que o ciclo fechar, estará em maus lençóis”, alerta.

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